Na direção oposta ao horizonte sexual

A única confiança que tenho é que sou boa de cama. Existem muitas pessoas que poderiam confirmar, mas não é necessário perguntá-las. Nenhuma teria uma avaliação tão criteriosa quanto a minha. Claro, poderia descrever desejos de como gostaria que eu fosse. A mulher por quem todos se apaixonariam pelo prazer. Sei como é essa mulher. Por muito tempo, tentei ser essa mulher e procurei por essa mulher. Hoje não acredito que ela exista, mas, se existir, é uma mulher infeliz.

Certa vez, me perguntei qual seria minha maior inspiração na vida. Sem a necessidade de nem meio minuto de reflexão, respondi que foi a pornografia. Com exceção de algumas de minhas primeiras experiências, minhas decisões sexuais vieram depois de desejos despertados por conteúdos pornográficos. Queria ser aquelas mulheres insaciáveis, que jamais expressam dor, medo, raiva, ódio ou tristeza. Sentimentos assim poderiam haver, mas são comprimidos pelo prazer insuflado a cada respiração. Quando não sentia esse prazer, parava para respirar e o ar trazia para dentro de mim a ideia de que havia algo errado comigo. 

Em parte, era inexperiência e falta de conhecimento sobre meu próprio corpo. Uma vez superadas, não havia mais como negar que o prazer que via na internet ou em minha imaginação tinha uma potência muito maior quando posto em prática. Acrescido de entorpecentes então, eu me sentia nas nuvens e chegava a ver estrelas. Ao voltar à terra firme, mesmo com dores por todo o corpo, tinha a impressão que não havia voado longe o bastante. Que o paraíso ainda estava muito distante.

Durante dez anos, o prazer sexual foi meu horizonte. Às vezes, sentia um arrebatamento em minha alma, às vezes só o corpo jogado para frente em um voo de galinha. Mesmo seguindo sempre a mesma direção, a distância até o paraíso não diminuía; pelo contrário, parecia cada vez mais inalcançável. Não adiantava eu ir atrás de mais parceiros sexuais, aumentar o consumo de álcool e outras drogas, dilatar mais as paredes do meu ânus, ou recorrer a práticas ainda mais degradantes. 

Com muita frequência, olho meu corpo no espelho, como se reconhecesse o culpado por uma série de crimes. Um deles foi manter minha mente aprisionada, em constante dependência de estímulos da pele… Vou me esfregar nele. Quero ser assediada. Vai, passa a mão em mim. Mais pra baixo, aqui. Esfrega, esfrega. Pressiona. Mete. Faça tudo isso e faça com mais força. A dor suportável é a intensidade ideal. Mais do que isso, meu corpo poderia se quebrar de modo a permitir que minha mente escapasse. 

Por fora, eu era até bem diferente das modelos pornográficas que me serviram de inspiração. Desafio que algumas delas tivesse uma vida sexual tão ativa quanto a minha. Admito que superá-las me trouxe certo orgulho, mas daí em diante, o que seria da minha vida? O ser humano sempre caminha em direção ao precipício, porém, uma vez orientado pelo sexo, o percurso é bem menor. 

Foi por isso que resolvi dar meia volta. Então, me agachei para pegar a calcinha. Mais adiante, estava o sutiã, depois as meias… as calças, tinha luvas também e uma blusa perto da porta. Meu corpo estava todo coberto quando me olhei no espelho. Não tinha mais para onde olhar além do meu rosto… os lábios são traiçoeiros. Queriam me convencer de que estariam melhor em contato com um pau. Mas dessa vez, dei atenção àquela voz do fundo do poço da consciência e decidi me afastar do sexo, incluindo aí tudo a que ele se remetesse. 

Em prática, o que observei ao levantar o rosto

“Por favor, minha dona, vamos brincar mais um pouco!”

Não fui eu quem disse essa frase. Posso ter dito algo parecido, até mais de uma vez, em outros contextos, mas o que vou contar agora foi uma experiência extraordinária, que ampliou meus horizontes. Quando abaixei o olhar, lá estava ela aos meus pés. Não era sempre que eu via uma mulher de quatro sob aquela perspectiva. Menos ainda toda nua e usando coleirinha. Era P., minha primeira submissa.

“Vadia, vadia, venha aqui, por favor”

Sempre fui bastante educada com minha cadela. Nunca precisei levantar a voz. Vale destacar que, quem não se encaixa aos padrões costuma problematizar tudo. Pois bem, se tem uma coisa que me incomoda no BDSM, é a legitimação de poder a partir de uma linguagem violenta. Apoiada nessa hierarquia, basta uma entonação mais severa na voz para controlar uma submissa. Em minha primeira viagem pela dominação, meu objetivo era convencer P. a me obedecer por devoção e amor. 

Ela se arrastou em minha direção apoiada nos joelhos e antebraços. O rosto quase encostando no chão, assim eu não precisaria levantar muito meus pés descalços, suspensos no ar, por estar sentada sobre a mesa. Eles balançavam despreocupados ao ritmo cantarolado de La Vie En Rose. As pontas dos dedos acertaram a cabeça dela de vez em quando, o que não a impedia de se aproximar bem devagar. Já ao alcance de minhas mãos, acariciei seus cabelos, antes de puxá-los para trás.

“Olha aqui, bem nos meus olhos”

Ao levantar o rosto, eu sempre via uma expressão confusa ou acanhada, enquanto ela via um sorriso contagiante que logo se expressava em seus lábios. Alguns segundos de troca de olhares e a gente começava a rir ao mesmo tempo. Definitivamente, não consigo manter direito essa postura de autoridade. Me submeto à contemplação. A alegria se transborda em risadas inoportunas. Para tanto, precisei cobrir a cara dela com a sola do meu pé. Respirei fundo e me dei conta de como é agradável a sensação de pisar no centro do rosto de alguém.

“Pode se divertir, putinha”

De joelhos, ela segurava meu calcanhar na altura do rosto e distribuía beijinhos no meu pé. Ao contrário de mim, que dispenso expressões suaves de afeto e me entrego à volúpia do desejo, P. gosta de preliminares. Levava algum tempo até a língua entrar em incansável atividade sem hora para acabar.

Desde o primeiro dia, deixei claro que seria bem exigente. Se ela soubesse o que se passava na minha cabeça, não se colocaria indefesa aos meus pés. Havia uma vontade grande de machucá-la. Se estivesse em seu lugar, esperaria que a dominadora me esmagasse, com o mesmo desgosto que teria ao pisotear uma uva passa. Meu objetivo era me sentir tão detestável quanto um pequeno besouro. Porém, como dominadora, em nenhum momento vi minha submissa como uma fruta seca ou um inseto, o que me levou à conclusão de que não me encaixo tão bem a esse papel. 

Mas se tem uma habilidade da qual posso me enaltecer é a simulação. Sou dominadora e, como tal, só me dou por satisfeita quando coloco meus pés para o alto e vejo a saliva pingando no rosto de P., onde esfrego minhas solas até deixá-lo vermelho e molhado. Com a língua para fora, ela me olhou nos olhos – naquela expressão escarrada, eu me reconhecia – e seus lábios molhados se encontraram com os meus. Por aquele espelho, eu me apaixonei.

Escrito por uma bêbada numa noite qualquer

Este texto estava perdido e esquecido no meu Drive. Fiz bem poucas edições para postá-lo aqui. 

*****

Esse texto se desenvolve no momento em que estou bêbada. É a minha vida. Tudo faz sentido. Mas na hora de colocar no papel é outra história. Eu tento, tento e travo. Vamos lá. Sem critérios. Enfim, o meu eu do futuro que se dê ao trabalho de decodificar o que estou escrevendo agora. Por onde começar? Para e pensa. Por exemplo, já que existe tudo isso pela embriaguez, a primeira conclusão é que eu sou uma bêbada, e a segunda é que não vou me atentar aos acentos. Me disseram que eu tenho facilidade em lidar com as palavras. E agora que estou digitando sem parar pra olhar a tela talvez isso faça sentido.

Uma vez me perguntaram se eu fazia programa pra satisfazer minha dependência alcoólica e eu disse não. Mas o álcool sempre esteve lá, alterando minhas concepções de realidade. Tudo faz mais sentido nesse momento. Infelizmente não tenho palavras para traduzir tantos sentimentos. Sou outra pessoa agora. Uma pessoa mais agradável. Mais receptiva e reflexiva. Por que tantas pessoas se entregam à embriaguez com essa finalidade? Por que eu não iria me entregar? Por que o ser humano não consegue alcançar essa percepção se não houver um estímulo de fora? Algo não natural. Sou outra pessoa agora. E queria muito ter essa percepção sem obstáculos, nem preocupações no meu dia a dia. 

Pra tudo que estou pensando, vou tentar deixar registrado, porque depois de um tempo, na sobriedade, nada mais faz sentido. Não existe uma euforia natural. E se estão todos entorpecidos, felizes, satisfeitos, confiantes, por que não poderia ser sempre assim? É estranho. Trata-se de uma maneira de acessar o que há de mais espontâneo na nossa essência. O fato de tentar descrever o sentimento, ou mesmo os pensamentos transcorridos na embriaguez, já é uma forma de obstruir a racionalidade. A razão de alguém sob efeito de estimulantes. É uma limitação da humanidade, quero acreditar. Ou uma limitação pessoal. Porque, em condições ideais de temperatura e pressão, eu não estaria escrevendo isso. Lamento que a vida não possa ser assim. Que o ser humano não esteja nesse estado de espírito todos os dias. Esparsos momentos em que me sinto realmente viva. Mesmo não havendo qualquer recordação no dia seguinte.

Enquanto estiver viva, sempre vou encontrar justificativas para aproveitar. E agora, bem que eu gostaria que o tempo parasse para refletir sobre por que vale a pena viver. E a questão não é viver para se embriagar e ter essas reflexões. Mas… do contrário, haveria isso? Não, desse jeito, não haveria. Até porque só estou escrevendo tudo isso por estímulos de psicoativos, ainda que essa interferência seja meramente vinho, cachaça e pó. Sei de muitas histórias de escritores que recorrem às drogas para se inspirarem. Diante disso, como posso negar o “benefício” das drogas? Pelo menos, para mim, foi um recurso necessário. E agora que percebo que, se for capaz de superar as primeiras dificuldades de me expressar, mesmo que esse texto morra aqui, fica o registro da minha satisfação.

Satisfação…. talvez não seja o termo mais adequado, porque é comum o álcool me deixar mais carente. Mas fica registrado a minha… felicidade. O problema é se dar conta da felicidade apenas quando o tempo passa sem que eu me preocupe em acompanhá-lo. Eu poderia ter tudo para levar a vida mais leve, tentar criar momentos marcantes que nem hoje, uma quarta-feira do dia 3 de outubro, todos os dias. Isso é viver. Mas, em geral, os dias passam e não restam lembranças de nada. Dias mortos. E eu realmente espero que consiga me dar conta do presente, do quanto eu me valorizo, para que nos próximos dias, não precise recorrer à embriaguez para constatar o óbvio que é: todo dia vale a pena, a depender de mim mesma. O tempo, o mesmo de todos os dias, está passando mais devagar.