Toda a altivez da minha cafetina


Jaque é uma das muitas transgressoras do Art. 228 do Código Penal que condena a exploração sexual. Há quase dois anos atuando como minha cafetina, ascendeu economicamente da classe C para a B, o que lhe permitiu usufruir de um carro zero e algumas roupas de marca. Essa mudança nos padrões de consumo proporcionou o combustível (inflamável, eu espero) necessário para inflar ainda mais a sua arrogância. Ganhou certo reconhecimento, enquanto deixa que os párias desempenhem o trabalho sujo.

Entre os subalternos, é incrível, mas ela tem um prazer orgástico de implicar comigo. Isso porque a gente discute bastante, até ela interromper no grito e no tapa. Depois retoma o debate falando as mesmas bobagens, as mesmas ofensas. Obviamente, depois de um tapinha que seja, fico totalmente calada. Sempre suas palavras finalizam a discussão. Um ar de contentamento toma suas expressões, e ela sai mais soberana do que nunca pela certeza de que ninguém pode contradizê-la. Nesse último detalhe eu até concordo, afinal, ela fala mais alto e bate mais forte. E aí eu fico me perguntando: “Ai, ai… por que será que eu ainda me meto a discutir com alguém assim?”.

(Sobre a autora, clique aqui)

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14 comentários sobre “Toda a altivez da minha cafetina

  1. Este post, apesar da aparente simplicidade, mostra seu talento acima da média para escrever e o fato de manejar diferentes assuntos com destreza: você relaciona temas de direito, jornalismo econômico, crítica social e análise do comportamento. Seu texto tem fluidez e ritmo e seu vocabulário é muito bom mesmo. E coisa toda é temperada com leve ironia e distanciamento, como se você estivesse de fora observando a cena. Excelente! Já te falei pra escrever um livro, talento já tem. É só praticar!

    • Ah, obrigada, obrigada! =)
      Então, depois que a gente conversou, eu fiquei pensando mesmo em tentar escrever um livro (e espero ainda contar com sua ajuda). Mas por enquanto, ainda não me sinto preparada para um projeto mais sério como esse. Enquanto eu uso esse blog para praticar, é muito bom receber elogios dos internautas. É isso que me deixa animada =)
      Beijos, beijos, beijos!

      PS: Faz tempo que você não atualiza o seu blog

  2. Oras, oras, pelo seu corpinho e táticas fosse poderia trabalhar sozinha como acompanhante sozinha ou com mais algumas amigas… e venha pra SP que você ganhará mais.. kkk

    bjus.

  3. Acho que só faz sentido ser cafetinada, ou por prazer de submissão seu, ou para tentar ter clientes mais selecionados, ou para náo precisar se expor em anúncios e na internet.

    Parabéns pela qualidade do que escreves. E também por ser de esquerda.

    É bem raro ver uma garota da sua idade, que veio da classe média, com todo o perfil de problemática ser de esquerda e com clareza política.

    • Juntando as duas coisas que comentei acima, sobre ser de esquerda e sua submissão pulsante, me veio o questionamento:

      Ter fetiche de submissão e realizar isso no sexo, entre “quatro paredes”, por paradoxal que possa ser para alguém de ‘esquerda’, que quer um mundo sem exploradores e explorados, sem oprimidos e opressores, acho ainda compreensível. Porém quando o desejo de submissão invade, por exemplo, até mesmo as relações de trabalho (e vc mesma afirma em alguma resposta a comentário que ser cafetinada tem também esse lado para vc), acho que já sai do campo do paradoxo e entra no campo da contradição. Querer a “emancipação dos trabalhadores”, um mundo sem ou com menos opressão e alimentar essas relações é uma contradição.
      Exponho isso mais como parte dessa terapia que tem sido para vc, e segundo vc, este blog.

      • Oi, Caos!
        Primeiramente, adorei seus comentários!
        Além dos motivos que você citou, eu acho vantagem ter uma cafetina porque eu tenho um local para trabalhar e ela também me traz segurança. Também é bem cômodo, porque não tenho que ficar tratando com cada cliente. Outra vantagem de trabalhar numa casa é que eu faço até que bastante programas com as outras garotas e isso torna meu trabalho menos entediante. Verdade que eu não me dou muito bem com a minha cafetina, mas as provocações dela nem me incomodam tanto e em alguns casos me deixam até excitada (coisas de submissa mesmo).
        Eu tenho muita dificuldade de separar minhas fantasias sexuais da minha vida cotidiana, até porque tem muito sexo nela. O fato de eu ser de esquerda e sustentar uma pequena estrutura de exploração é uma contradição, não exatamente por eu ser explorada, uma vez que os pensamentos de esquerda deveriam ser defendidos justamente pela classe operária, mas sim porque eu teria a possibilidade de trabalhar de forma independente, sem essa estrutura hierárquica. Como outras gps, foi uma opção minha trabalhar com uma cafetina, mas uma grande parte entra na casa, porque é a única opção que lhes resta. A prostituição/exploração sexual é um dos retratos da nossa desigualdade. Quando eu defendo ideias de esquerda não é para mudar a minha realidade, mas sei que se houvesse menos desigualdade, muitas mulheres não estariam nessa minha profissão.Bom, mas é provável que isso seja tema para um próximo post (gosto bastante de discutir esses assuntos).
        Obrigada pela atenção!
        Muitos beijinhos para você!
        E até breve!

        • Respondeste muito bem Ayana. Bom ver vc ter essa clareza de que as posições de esquerda não são para mudar uam realidade invidual, mas social.

          E que bom que você pretende tocar nesses temas mais políticos e sociais em próximos posts. Eu particularmente acho que vem daí também a força do que escreves. Essa junção de relatos sexuais e profissionais extremos, relacionados em parte a questões familiares e psicológicas (que parecem dar muita razão a Freud, diga-se de passagem), com uma visão e insights políticos e sociais e com o dom da escrita, torna teu blog único.
          E não tenha meda de chocar ou fazer um ou outro leitor se sentir mal. É o tapa na cara que torna ele tão interessante.

          • Só para explicar por que achei tua resposta realmente boa. Eu me apeguei ao que parece uma contradição sua, mas sua resposta me mostrou de forma clara algo que não deveria ter passado despercebido por alguém de esquerda (como eu): que vc tem essa opção, mas sua escolha individual não vai influenciar a sorte de outra pessoa, que não possui escolha; as insitituições sociais que geram e mantém a relação de exploração existem e existiram independentemente daqueles que podem escolher não se sujeitar.

  4. A propósito, como acabei lendo todos os posts e comentários em três dias, quando conheci o blog umas semanas atrás, acabei achando um endereço de e-mail que vc deixou. Abre ele um dia desses. A mensagem tem a ver com a Ayana escritora, não com a Ayana GP.

  5. A sua cafetina também já foi GP? Conheci teu blog essa semana e estou adorando. Só por ler teus texto já tenho a impressão que conheço a tua vida, teu trabalho. São maravilhosos.

    :)

  6. Parabéns pelo blog muito bem escrito!
    Quem sabe um dia Vc não venha a trabalhar por conta própria . Clientela pra isso pelo visto Vc já tem kkkk! Gostei muito de Vc, te achei tão simples, tão humana. Engraçado que seu jeito delicado faz as pessoas quererem cuidar de Vc. Mesmo sem conhece-lá lhe tenho um carinho enorme. É como se Vc fosse uma grande conselheira pra mim. Abraços e muito luz no seu caminho. E feliz Páscoa também!!!

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