A carência por trás das gentilezas


É bastante improvável alguém passar pelo mercadinho do Sr. Moisés sem receber um “bom dia”. Com mais ou menos uns 50 anos de idade, tem uma aparência que desperta simpatia em qualquer um. É o tipo de pessoa conciliadora, que consegue agradar a quase todas as partes. Em todas as vezes que tive problemas com o pessoal da vizinhança, ele me defendia (mesmo quando estava errada) e ajudava a amenizar a situação. Quando todos iam embora, ele me dava um tapinha na cabeça e dizia para eu “controlar minha periquita”. Um garoto que trabalhava nesse mesmo mercadinho dizia que o patrão estaria apaixonado por mim. Não sei, em nossos encontros ele ainda não chegou a se declarar.

Quem vê essa pessoa tão gentil não imagina que há apenas quatro meses perdeu sua esposa vítima de um câncer no estômago. Por causa disso, todos ficaram surpresos quando descobriram que semanas após perder a mulher, o Sr. Moisés começou a sair com uma prostituta, nesse caso: eu. Por ser muito querido por todos, logo as pessoas acharam que eu vinha lhe seduzindo desde quando sua mulher começou a adoecer. Para que isso? Eu fico me perguntando. Só gostava de conversar com ele, oras.

Fiz apenas quatro programas, até porque ele não tinha condições de ficar gastando com mulher. A gente ia para o mercadinho onde lá no fundo tinha um quarto. Toda vez ele acendia uma vela. Não sei se era para mim, ou para as santinhas que ficavam num criado ao lado da cama. Me sentia incomodada em transar diante de imagens sacras me observando. Uma vez ele percebeu esse meu desconforto e perguntou:

– Você é católica?

– Com tantos pecados que eu carrego, acho mais conveniente não seguir nenhuma religião.

Então ele começou a me falar coisas sobre Maria Madalena que teria sido prostituta. Ouvi um pouco daquela história, mas interrompi, pedindo apenas que virasse as santinhas de costas para a gente continuar.

É admirável o carinho que esse senhor tem por mim. Nos programas, me pegava no colo e me chamava de “pretinha” (suspeito que era assim que chamava sua filha). Gostava de fazer massagem e passar óleo hidratante no meu corpo. Direcionava elogios a mim que me deixavam tão sem graça a ponto de pedir para ficar quieto e beijar sua boca.

Mas nisso tudo, o que mais tocava meus sentimentos era quando o sexo terminava e nessas horas ele começava a chorar. Fiquei várias vezes ao seu lado, sem que nunca tivesse me explicado o motivo das lágrimas. Mas nem precisava, eu me reconhecia naquele choro: era a solidão.

(Sobre a autora, clique aqui)

Anúncios

8 comentários sobre “A carência por trás das gentilezas

  1. Acabei de descobrir o seu blog, e já achei sua história de vida incrível. Eu estou lendo todos os post, desde o primeiro, e nesse confesso que quase derramei uma lágrima, pois sei bem o que é solidão também, tudo de melhor pra você Ayana e obrigado por compartilhar tudo isso conosco. Um beijo.

Compartilhe também sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s