Em busca de outro público-alvo


Logo no início da minha vida sexual, notei que tinha alguma vocação para prostituta. Não por querer ganhar muito dinheiro (até porque até hoje ganho uma miséria), nem por achar que sou extraordinária na cama (depois que vi outras garotas trabalhando, ainda hoje me considero meio amadora). Me identificava com as prostitutas por quase sempre estimular a libido dos homens. Admito também que não oferecia muita resistência àqueles que tentavam abrir minhas pernas.

As primeiras vezes que fiz sexo para complementar minha renda foram com pessoas que já conhecia um pouco e com alguns internautas que conversei nas salas de bate-papo. Nessa época, por fazer sozinha, não era bem reconhecida, o que tornava os encontros meio arriscados, tanto para mim, quanto para os clientes. Devo admitir que foi o trabalho da minha cafetina que me trouxe uma grande reputação (talvez fosse melhor nem ser tão popular assim).

O modelo de profissional do sexo mais requisitado apresenta as seguintes características: loira, olhos claros, lábios mais salientes, estatura um pouco alta, busto, quadril e coxas bem generosos, roupas provocantes, salto alto e maquiagem carregada (praticamente a discrição da Rafaela, minha coleguinha). Não fui muito favorecida pela genética, detalhe este que só me chamou a atenção com o fim da minha puberdade. Acho que fiquei no meio do caminho entre menina e mulher. Mas, no começo da minha carreira, tive que destacar bem mais esse meu lado infantilizado. Minha cafetina achava que não seria interessante competir com aquelas mulheraças, então me colocou para lidar com um segmento – onde fiz até que bastante sucesso – não oficial da indústria do sexo: a exploração de menores.

Não, por favor, não me entendam mal. Jamais mantive contatos com menores de idade, nem sou nenhum tipo de aliciadora ou coisa assim. Acontece que a minha cafetina queria que eu atendesse a um nicho de “potenciais pedófilos”. Então eu fazia meio que um jeitinho de menina inexperiente. Era até bastante convincente, ainda mais complementado pelas roupas bastante infantis que costumava usar.

Durante algum tempo, não me incomodei em me ocupar com clientes doentios. Só depois percebi que essas minhas atitudes de alguma forma reforçavam o desejo desses animais em manter relação com menores. O pior de tudo é que sabia um pouco da história de algumas dessas meninas, que não tinham outra escolha a não ser se sujeitarem a esse absurdo. Por outro lado, mesmo parando um pouco de atender esses perturbados, a pedofilia continuava lá nas ruas, de uma forma muito descarada. Essa é uma situação em que notei minha incapacidade de mudar mundo.

É um assunto delicado, porque ao se deitarem na cama comigo, pelo menos tenho a certeza de que não estão explorando outras meninas. Da mesma forma, eles podem dormir tranquilos na certeza de que não cometeram crime algum, pelo menos não um hediondo sujeito a penas de pelo menos uns oito anos de reclusão.

Para não abalar ainda mais a minha mente (já muito problemática), decidi me desprender um pouco dessa imagem associada a infância. Está aí um dos motivos de optar por usar roupas excessivamente vulgares e muitas vezes usar salto alto (que não gosto) e bastante maquiagem (que também não gosto). Agora estou usando as mesmas estratégias que as outras prostitutas usam para conquistar clientes, sem ter que me preocupar muito com as perversões destes. Confesso que muitas vezes apelo para meios bem pornográficos… penso que ainda estou tentando mostrar que não sou nenhuma menina inexperiente.

(Sobre a autora, clique aqui)

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