Fim de um amante desequilibrado


No primeiro encontro que tive com o João Victor, parecia que nós iríamos nos dar muito bem. Ele tinha uns 45 anos, era um engenheiro bem-sucedido, vestia-se de forma elegante e era até um pouco atraente. Grande parte das garotas de programa devem conhecê-lo, devido a sua compulsão sexual. Penso até que ele deva conhecer mais sobre prostituição do que eu, resultado da recorrente solicitação por programas.

Quando esse viciado me encontrou, não fazia ideia de sua reputação; só descobri isso depois do nosso sétimo encontro em menos de duas semanas. Isso porque ele ligava todos os dias para a minha cafetina querendo o meu programa, mas nem sempre ela liberava. Também, não é nada interessante encontrar sempre o mesmo sujeito. Ai, ai… fiquei enfastiada com esse daí.

Nos primeiros programas, transamos como dois animais. No terceiro, ele interrompeu o sexo mais cedo para ficarmos conversando. No encontro seguinte, já me chamava de “amor”, “querida”, “linda” e coisas do tipo. Lá pela a sexta noite de sexo comigo, passou a ficar o tempo todo vestido, arriando apenas um pouco as calças para liberar o falo. Na sétima vez, também me pediu para massageá-lo, enquanto conversávamos. No oitavo encontro, me presenteou com um colar, mas não aceitei. Já no décimo, queria somente me acariciar e apenas me permitia que lhe masturbasse e lhe fizesse sexo oral. Nos encontros subsequentes, fazia intensas declarações de amor e me afagava possessivamente. Perdi a conta. Deveria ser a décima sexta vez que fazíamos sexo e, até hoje, foi a última.

Motel de luxo, “champagne”, flores, chocolates, tudo isso indicava que mais uma vez ele iria insistir em me namorar. Mas foi muito além disso. Começou dizendo que tinha dinheiro mais que suficiente para me comprar da minha cafetina e que depois iríamos morar juntos em São Paulo onde ele tinha um apartamento. Prometeu que iria realizar todas as minhas fantasias sexuais e me faria a pessoa mais feliz do universo. Completou ainda me garantindo que jamais seria explorada daquela forma novamente e que não precisaria me sujeitar a essa degradação (pelas conversas que tivemos, ele deve ter achado que sou uma pobre coitada). “Acabou essa época miserável para você!”, concluiu num tom epopéico.

Fiquei sem palavras. Suas mãos percorriam meus cabelos e depois exploravam as minhas pernas. Com frequência sua boca entrava em contato com meu pescoço nos momentos em que parava de contar todos os planos que fizera para nós dois. Sei que nessa hora me sentia muito tensa; tive a impressão de que ele estivesse ensandecido. Queria muito fugir dali. Empurrei-o para que saísse de cima do meu corpo e afastei-me para perto da porta.

– Não sei se minha opinião lhe interessa, mas eu não vou a lugar algum com você.

Saí correndo daquele quarto, talvez mais para evitar que as lágrimas escorressem. Depois de termos conversado tanto, de eu transparecer vários dos meus sentimentos, no final, fui tratada como um mero produto que deveria seguir o destino daquele que me adquirisse. Ninguém imagina como isso me incomoda profundamente.

Voltei para casa com o motorista do motel. Poucos minutos depois, o João Victor ligou para o celular da minha cafetina para negociar a minha aquisição. Não obtendo a resposta esperada, foi conversar com ela pessoalmente, até a discussão tomar formas de ameaças. Naquele mesmo dia, pela manhã, ele foi até a minha casa e ficou gritando por mim, declamando que me amava. Alguma coisa havia o deixado bem transtornado; preocupada, fiquei na janela pedindo que por favor se acalmasse.

Mas aquele escarcéu todo do meu cliente estaria próximo ao fim, devido à ação da minha cafetina, que mora bem perto da minha casa. Quando me pareceu que estava começando a me entender com aquele desequilibrado, eis que me surgem dois homens meio perigosos (segundo meu julgamento). O primeiro empurrou o João Victor e o outro lhe passou uma rasteira. Fechei a janela. Não queria manchas de sangue nessa minha última imagem desse meu admirador.

(Sobre a autora, clique aqui)

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2 comentários sobre “Fim de um amante desequilibrado

  1. Oi, Quel!
    No começo eu me sentia bem ao seu lado, afinal ele era bem carinhoso comigo. Mas logo percebi que ele estava se tornando muito obsessivo e certamente teríamos muitos problemas se fôssemos morar juntos, ainda mais porque eu não sou uma mulher muito fiel.
    É isso…
    Beijinhos, linda!

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