Um objeto sensível


Os homens cobram muito de uma garota de programa na hora do sexo. Pensam que, uma vez que somos experientes nessa prática, conseguimos suportar qualquer coisa. Não precisa estar muito atento para reparar que um pensamento assim não proveio de um processo reflexivo, mas sim partiu de uma baixa região e atingiu o cérebro sob a forma de hormônios sexuais. É aquilo que chamamos de pensar com a “cabeça de baixo”.

Clientes não pagam apenas pelo sexo, mas também pela possibilidade de extravasar vários de seus impulsos. A consciência não mais lhes perturba com a preocupação de estarem ou não satisfazendo a parceira. Não existe muita razão e, por outro lado, sobra muito instinto. Generalizando um pouco, são um bando de animais impacientes para abusar de um brinquedinho.

Mesmo nessa forma animalesca, essa espécie é mais desenvolvida do que seus parentes mais selvagens, já que são capazes de manipular objetos mais complexos do que aqueles chimpanzés no Congo que usam varas para pegar cupins. Também não sou apenas um utensílio, afinal devo interagir com eles para não se acharem no direito de fazer qualquer coisa comigo.

“Ela é um brinquedinho na cama”, é como me veem. Estão no direito de pensar isso, ainda mais por também ser um preconceito meu considerá-los como animais. Por esses julgamentos idiotas, às vezes fico chateada, pelo detalhe de ser muito sensível. Qualidades do universo feminino que nem sempre estão muito evidentes na imagem de uma prostituta. Diferente de outras meninas tão melancólicas como eu, separei minhas angústias de mulher da minha vida como meretriz.

Nos discursos em respeito à prostituição, é comum reforçarem que “as garotas de programa também são seres humanos”. Sim, sim, eu concordo, até mesmo sem levar muito em consideração as interpretações mais óbvias. Mas na forma de uma representante das prostitutas (mas não tanto dos seres humanos), consideremo-me muito mais como uma espécie de objeto humanizado. Objetos não choram de tristeza, logo isso nunca me aconteceu como prostituta. As lágrimas só escorrem pelo meu rosto quando me transformo naquela mulher sentimental que nunca deixei de ser.

Em meio a essa lógica de duas identidades, é bom observar que esse blog nunca foi escrito por uma garota de programa. Talvez ela nunca vá se expressar nessas linhas. Até porque, esse é o espaço em que permito aflorar toda a minha sensibilidade.

(Sobre a autora, clique aqui)

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3 comentários sobre “Um objeto sensível

  1. GPs não são objetos sensíveis. Afinal como ser sensível com tantos estranhos que aparecem e desaparecem todos os dias (pelas suas contas já passaram da casa dos três zeros…). Às vezes me pergunto que pensamentos habitam a cabeça das GPs quando penetradas por estranhos, por que seus olhos ficam fechados e por que suas falas são tão mecânicas…. talvez porque elas abandonam a sensibilidade “para não perder a mulher sentimental que nunca deixaram de ser”. Não sei…

    • Oi, Lauro!
      Eu tento levar sensibilidade para os meus atendimentos, justamente para não perder a razão de me prostituir. Tenho que sentir algum prazer, acreditar que meu trabalho é importante e fazer bem para essas pessoas que me procuram. Acho que o segredo é gostar de pessoas.
      Beijinhos e volte sempre!

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