A alcoviteira na barca do inferno


Em 2005, quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, tive um trabalho de literatura em que meu grupo teve que encenar um trecho do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. O equipe era composta por três mulheres e quatro homens. Pois bem, a Larissa (minha namorada secreta) foi o diabo, porque era a que atuava melhor. Minha outra amiga foi o anjo, já que tinha menos falas para decorar. Como os outros integrantes eram meninos, talvez por coincidência do destino, tive que ficar com o papel de Brísida Vaz, a alcoviteira.

Esse era aquele trabalho em que a sala toda ficava bem empenhada, havia uma espécie de competição para ver qual peça ficaria melhor. Minha namorada levava o teatro muito a sério, por isso ensaiei bastante para não decepcioná-la. Só que eu era muito tímida no colégio, ainda mais tendo que fazer o papel de uma cafetina. Mas deixando meu acanhamento um pouco de lado, nessa época eu já representava muito bem uma vadiazinha, só precisava levar essa personagem – tão conhecida por alguns rapazes mais velhos – para a sala de aula.

Por recomendação da minha namorada, deveria ser bem exibida na minha encenação. Segui seu conselho, mas me faltou um pouco de bom senso. Isso porque eu vi nesse teatrinho a possibilidade de expor meu lado mais vulgar sem me comprometer, afinal outras meninas da minha sala também fariam cenas sensuais.

Aluguei uma roupa parecida com a das dançarinas de can-can: um corpete, uma saia longa só na parte de trás, meia arrastão, cinta-liga e luvas de cetim. Era no mínimo provocante, o que me atiçou a ir ao colégio já fantasiada. Ao que parecia, foi uma unanimidade entre os garotos a aprovação da minha roupa, só a opinião da minha namorada que não foi muito clara: “Você está bem prostituta mesmo”. Isso é bom? – ficou a interrogação.

Já na encenação, lá se foi Brísida Vaz, com seus seiscentos hímens postiços, seduzir o anjo para entrar na barca do céu. Perdi a noção e encarnei completamente a personagem. Como eu queria muito ir para o céu – embora, atualmente me atraia mais o inferno – exagerei bastante na minha atuação. Ajoelhei-me diante do anjo e passei minhas mãos sobre suas pernas. Depois me levantei para acariciar seu rosto e deslizar minhas mãos pelo seu corpo. Fui atrás dela, entrelacei minhas pernas com as suas e declamei minha fala com a boca perto do seu pescoço. Segurei uma de suas mãos, passei pela minha boca e depois desci com ela até meu ventre.

Não sei dizer qual foi a reação imediata da plateia, mas imagino que pelo menos meus colegas ficaram bem surpresos (espero que também excitados). Minha amiga representando o anjo parabenizou toda minha desenvoltura (suspeito que na época ela queria me pegar). Os elogios demonstravam que eu tinha um grande potencial e não era aquele para ser atriz.

Fiquei conversando bobagens com ela, enquanto a Larissa tirava a maquiagem de diabo. Depois de remover toda a fantasia, passou por mim e foi embora apressadamente sem dizer nada. Tirei o salto e fui correndo atrás dela (rasgando assim a meia da fantasia, tive que arcar depois com o prejuízo). Cheguei bem perto dela e fui recebida com alguns tapas nos meus braços. Ela estava chorando. Segurei em sua mão e pedi para me desculpar.

– Por que você teve que ser tão puta?

Não havia uma boa explicação para isso. Ainda hoje não sei exatamente o que me motivou a agir daquela forma. Sei lá, manifestei-me como uma vadia, porque eu sou uma vadia, oras. Eu sei, não é uma boa justificativa. No momento no qual meu amor me perguntou aquilo, ainda não estava certa dessa minha tendência cafajeste. Fiquei quieta. Não iria tentar ludibriar o meu anjo, quando sei que minha barca é a outra.

(Sobre a autora, clique aqui)

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3 comentários sobre “A alcoviteira na barca do inferno

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