Um inadequado abuso consentido


Ontem o dia estava frio e chuvoso, mesmo assim saí com um microvestido. Minhas roupas curtinhas por si só já atraem muita a atenção, mas num dia frio assim, minha vulgaridade fica bem mais visível. Nem sempre acontece, mas é sempre bom não esperar total passividade das pessoas que me observam.

Voltando para casa, foi a hora de encarar um ônibus lotado. Até certa hora da viagem, foi até uma situação reconfortante, já que o calor humano fazia dissipar o imenso frio que estava sentindo. Mas teve uma hora em que um homem desconhecido – me parecendo um tanto familiar – começou a me encochar. Então entrei na brincadeira: fiquei empurrando, discretamente, meu bumbum no volume de sua calça, como se não fosse proposital.

Não satisfeito com o delicado movimento repetitivo do meu quadril, levou sua má intencionada mão a alisar minha nádega. Nos meus anos de vadiagem, geralmente o contato com a minha bunda se fazia através de um tapão, seguido por uma grande apertada. Talvez temendo que eu lhe virasse uma bafetada, ficou só acariciando-a de leve. Ai, isso me dava uma aflição! Meu corpo estava em estado de estresse à espera do primeiro beliscão. Contradizendo os tradicionais encontros de uma mão atrevida com um bumbum acessível, dessa vez esse último não foi pressionado.

Observando que eu estava muito permissiva, o abusado desconhecido foi levantando lentamente a parte de baixo do meu vestido, até aparecer mais ou menos metade da minha calcinha (ela tinha o desenho da Lindinha, das Meninas Superpoderosas). Estávamos tão espremidos que, mesmo depois de soltar a ponta do meu vestido, minha calcinha continuou à mostra. Por mais que estivesse constrangida, usei todas expressões possíveis para dissimular. Admito, é muita sem-vergonhice fingir que nada estava acontecendo, a ponto de considerar bem cômica essa minha postura.

Muito bem, agora seria a minha vez de contra-atacar. Empinei o meu bumbum para trás e abri um pouco as pernas. Interpretou minha atitude como uma mensagem do tipo “quero dar para você, gostosão!”. Ainda com a parte de baixo do vestidinho um pouco suspensa, encaminhou seus dedos para tatear entre minhas pernas. Nessa hora, desviei meu olhar – que até então se fixava no teto do ônibus – para os outros passageiros e notei que pelo menos uns dois me observavam, sendo que um era idoso. Pronto, já tinha me divertido. Logo finalizei aquele assédio consentido, dando um tapa naquele tentáculo que se esfregava nas minhas coxas e resguardando novamente a privacidade da Lindinha.

Foi esfregando a mão em mim mais uma vez, só que agora fui mais incisiva. Dei outro tapa relativamente forte em seu braço, virei-me para ele e protestei:

– Olha, você me respeite, ouviu? Eu sou uma mulher casada! – e mostrei um anelzinho que tinha no meu dedo.

Ele se desculpou, embora tivesse notado um ar de deboche na minha declaração. Também, por que é que eu fui dizer que era casada? Mas no final das contas, aquela cena me parecia bem engraçada. Só não poderia começar a rir no ônibus, pois tinha que demonstrar irritação com todos aqueles eventos.

Já no final da viagem, aquele desvirtuado rapaz sentou-se ao meu lado, colocou a mão na minha coxa e sussurrou:

– Eu já te comi. Sei que é prostituta.

– Só por isso achou que fosse me comer no ônibus também?

– Tu bem que querias.

– Nada disso. Eu não gosto de figurinha repetida.

– Tu és uma guria muito gostosa e blá, blá, blá… estou com tesão e blá, blá, blá… quero te comer de novo e blá, blá, blá…

“Está bom! Está bom! Eu já entendi, já sei tudo que vai me falar”, pensei.

Enfim! Chegou o ponto onde desço. Aliviada, pelo menos tirei um precioso aprendizado disso tudo: se for para fazer alguma rápida safadeza no ônibus, certifique-se de que a viagem também será bem rápida. Afinal, é muito chato ficar ouvindo um homem excitado e não ter por onde escapar.

(Sobre a autora, clique aqui)

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