Animais não podem se sentar à mesa


Alguns dos conhecimentos inaproveitáveis na minha vida foram adquiridos nas aulas de etiqueta que tive quando tinha uns 14 anos. Antes de começá-las eu realmente acreditei que seria importante algumas noções de bom comportamento, mas logo percebi que as aulas eram muito chatas, com única exceção: as de etiqueta à mesa. Talvez tenha sido o estômago o responsável por suscitar essa minha preferência, uma vez que nessas aulas sempre havia comidas gostosas para a gente praticar.

Depois de aprender a comer banana com garfo e faca (na mão direita) e repetir exaustivamente o movimento de limpar os lábios com o lenço para não marcar o copo, já poderia jantar ao lado de uma realeza sem passar vergonha. Mas fora dos círculos aristocráticos, minha realidade contrastava demasiadamente com todo esse glamour. Isso porque anos depois eu me entreguei a uma vida de submissa, regrada ao desapego aos códigos civilizados.

Veja só, sou uma excelente cozinheira. Tão boa na cozinha, quanto na cama (mulher perfeita, hein?). Então fiz um jantar espetacular para a minha esfomeada domme. Minha intenção era de que fosse um jantar mais romântico, que seríamos um casal apaixonado e coisas desse tipo. Tanto que preparei uma mesa tão sofisticada, que seria necessário um manual de instruções para explicar a função de cada talher. Fiz ainda uma decoração especial para cada prato (salada, prato principal e sobremesa). Não é que eu tinha talento para isso?

Assim que ela se sentou à mesa, com poucas palavras desconstruiu toda minha elegância de anfitriã. “Tira a roupa, sua vagabunda!”, será que eu ouvi direito? Logo a ordem foi repetida. Sim, eu tinha entendido muito bem, mas não queria acreditar. Será que ela tinha noção do tempo que demorei para me arrumar? Fiquei completamente nua, inclusive sem brincos, pulseiras e anéis. Só poderia usar um acessório: uma apertada coleira em meu pescoço.

Hora de servir o jantar. Os pratos que eram para mim ficaram na cozinha. A refeição foi servida à la “chienne”, ou seja, equilibrava o prato nas minhas costas e, de quatro, levava-o até a mesa. Enquanto ela comia (usando os talheres errados), fiquei embaixo da mesa lambendo seus pés, que logo ficaram encharcados de tanto que eu salivava de fome. Quis demonstrar isso, fazendo barulhinho de cadela chorando e mordendo de leve os dedos do seu pé. O resultado foram alguns chutes no meu rosto e o prato de sobremesa para eu lamber.

Sem comentar nada, nenhuma crítica, nenhum elogio, nadinha, nadinha; ela disse:

– Pode ir embora, cadela!

E com toda a minha humildade:

– Mas, senhora, eu estou com um pouco de fome…

“Atenciosa”, ela colocou um prato no chão, esfarelou dois pedaços de pão de forma, derramou leite por cima e empurrou o prato com o pé para perto de mim.

– Está aí! Pode comer…

Pessoas que têm bons modos no jantar comem em silêncio. Foi o que fiz. Por outro lado, estava nua, de quatro e metendo o rosto num prato de pão com leite para me alimentar. A “high society” deve ter se sentido profundamente denegrida e envergonhada pelo papel que eu estava representando. Mas nem tudo estava perdido: pelo menos eu poderia servir muito bem como cadelinha de madame.

(Sobre a autora, clique aqui)

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5 comentários sobre “Animais não podem se sentar à mesa

  1. “(mulher perfeita, hein?)”.

    Sim, sou faltou colocar o menu do jantar….

    fiquei curioso, com detalhes…. qual o molho da salada … a riqueza dos temperos do prato principal e o acompanhamento..

    :D

    beijos

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