Efeitos dos hits musicais


Tudo começou numa semana que antecedia o carnaval.

“Bota a mão na cabeça que vai começar o Rebolation tion, tion, Rebolation…”

Ah! Quanta tristeza era ouvir aquela música. Não obstante, olhei para lado e veio a infeliz constatação: ela ainda tem uma coreografia. Estava eu desatualizada com os hits do verão, tentando me manter purificada. Mas inevitavelmente eu haveria de me corromper aos desígnios da cultura massificada, como outrora acontecera com vários sucessos do axé e do funk. Ainda me vêm à mente todas as intempéries pelas quais tive que passar para aprender a velocidade cinco do “Créu”. Cheguei até a treinar sozinha em casa de frente ao espelho. Observava o meu quadril rebolar para depois olhar nos meus olhos e me perguntar: “Quem é você? Que diabos está fazendo aí?”.

E lá fui eu aprender a dançar “a nova sensação”, por uma “livre e espontânea” pressão dos meus clientes. Críticas à parte, devo confessar que a coreografia é até bem legal, e isso é tudo que salva da música. Mas não acho que isso seja um grande mérito da banda, porque gosto tanto de dançar que, no final das contas, não me incomodo tanto com o estilo musical. Tenho até um considerável repertório coreográfico, passando por músicas como “Single Ladies”, indo até um pouco de balé contemporâneo. Algumas dancinhas são meio cômicas, como quando resolvo imitar as bailarinas dos programas de auditório. Sei lá, talvez se eu não fosse tão baixinha, quem sabe não poderia trabalhar na televisão como aquelas assistentes de palco? Às vezes eu acho isso no mínimo um pouco constrangedor.

Mas voltando ao Rebolation, depois de ouvir 278.934 vezes, me desculpem, mas eu não suporto mais essa maldita música. A situação evidencia-se de maneira ainda mais trágica se considerar que, ao ouvir a música inteira, a parte “o Rebolation tion, tion, Rebolation”, que é um pedaço do refrão (equivalente a mais da metade da música), vai ser repetida pelo menos umas doze vezes. Bem aqui, valendo-se de toda a minha humildade, eu suplico: “Por favor, estourem os meus tímpanos antes de repetir mais uma vez essa música”.  Sei que parece dramático, mas eu realmente estou desesperada! Escrevo isso depois de ter dançado essa música seis vezes no mesmo dia, que provavelmente ainda me reserva outros tantos Rebolations. Tudo bem ser o hit do carnaval, mas nós já estamos em junho!

Fiéis a Lei de Murphy, meus clientes notam todo o ódio que acumulei pela música e por isso fazem questão de me ver dançá-la. Então, pessoal, por que vocês não ficam só metendo em mim, hein? Não seria mais prazeroso para as duas partes, inclusive? Por muito tempo me questionei isso, mas hoje notei toda a falibilidade dessa minha proposta. Bom, estava eu lá toda aliviada por estar apenas no sexo, naquele comum “papis e mamis”, quando um filho da mãe ligou o som. Perdi o tesão na hora. Acho que não preciso dizer qual foi a sofrível trilha sonora desse meu acasalamento…

(Sobre a autora, clique aqui)

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2 comentários sobre “Efeitos dos hits musicais

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