Felicidade de uma prostituta privilegiada


(Não gosto quando o texto fica muito grande, mas o que vou contar merece mais detalhes)

Há dois meses, num final de tarde, minha cafetina me ligou dizendo que havia uma mulher que gostaria de me conhecer. Isso não me pareceu muito estranho, considerando que alguns casais já me procuraram para compor um “ménage”. A possibilidade de sexo a três me deixou animada, tanto que até caprichei um pouquinho a mais na minha produção. Quando são homens que querem me conhecer, não tenho lá essa preocupação; já fui até de pijama me encontrar com eles (claro que minha cafetina ficou furiosa). Mas dessa vez estava indo no estilo “femme fatale”, o preferido dos casais. Foi nessa circunstância, meio incômoda, que eu conheci a dona Helen.

Dona Helen fugia completamente do estereótipo de esposa que deseja surpreender o marido com uma fantasia. Não tinha as feições de uma amante; era a perfeita representação de uma mãe. Não tardou para as aparências confirmarem a realidade. Aquela senhora viera solicitar o meu serviço para o seu filho, chamado Pedro. Era visível o ar de extrema insegurança daquela mulher. Imagino que deveria ser delicado para uma mãe estar nesse ambiente em companhia de mulheres tão desavergonhadas. Foi aí que descobri que seu estado de tensão não era exatamente consequência da má impressão que eu passara – até porque nem havia falado muito –, mas sim porque ela não tinha certeza se era certo pagar para o filho ter a primeira relação sexual. Bem, já tiveram alguns pais que pagaram programas para os filhos e…

– É porque o Pedro tem Síndrome de Down.

Ah, inesperado. Agora também fui contagiada pela sua insegurança. Decidi que seria melhor conversar com aquela mãe sozinha, porque minha cafetina não teria o mínimo de sensibilidade para tratar um programa além da perspectiva financeira; seria um como qualquer outro. Em contrapartida, para mim, seria uma experiência mais do que especial (por isso me sinto muito confortável em escrevê-la aqui). Sei lá, essa era a oportunidade de me sentir mais humana. Não precisaria reprimir tanto os meus sentimentos para concordar com os adjetivos agressivos que muitos me impunham. Seria uma ótima maneira de ressaltar que estou viva e valorizar essa minha passagem.

Todos aqueles meus sentimentos (descritos aí em cima) tomaram de uma vez a minha mente mesmo antes de conversar com a Helen. Só que naquela hora, eles se confrontavam com várias preocupações, afinal eu nunca tinha lidado diretamente com uma pessoa Down. Estava com medo, mas tentei mostrar alguma segurança a partir de certos conhecimentos que eu tinha sobre o comportamento das pessoas com essa deficiência. A mãe ficou mais tranquila; aparentemente eu estava bem preparada, mas na verdade transpareci apenas uma falsa impressão sobre mim mesma.

Consegui convencê-la de que seria bom para aquele jovem passar um tempo comigo (não imaginava, contudo, que para mim seria ainda melhor ficar algumas horas com ele). Acredito realmente que indivíduos com qualquer deficiência não devem ser segregados a um universo próprio, por isso admirei muito a atitude dessa mãe por proporcionar que seu filho vivencie o sexo como naturalmente ocorre com qualquer adolescente.

Descobri vários detalhes sobre o Pedro. Ele tem 23 anos, já beijou algumas garotas, nunca teve uma namorada, pediu uma menina chamada Isabela em casamento, era apaixonado pela Luciana (Alinne Moraes) de “Viver a Vida”, comprou escondido a Playboy da Cacau do Big Brother, consumia bastante vídeos pornográficos principalmente orgias e lésbicas e era meio “homofóbico” (por falar muito mal de gays). Sua mãe me contou muitas outras coisas a seu respeito, o que me deixou fascinada mesmo sem tê-lo visto.

Depois de passar três vezes pelo processo seletivo de dona Helen, enfim fui me encontrar com seu filhote, já bem crescidinho, eu diria. Estava com uma roupa bem comportada e ao mesmo tempo sensual. Não apenas por causa das minhas roupas, sentia-me muito diferente, a ponto de não me reconhecer. Como eu me parecia, jamais conseguiria descrever. O meu jeito estava bastante transformado, até porque era uma situação excepcional. Sem dúvidas foi um dos programas que me deixou mais apreensiva, e ainda bem que a mãe compartilhava esse sentimento comigo.

Logo Pedro e eu fomos para o quarto do casal, onde a mãe nos garantiu que teríamos completa privacidade. Porta fechada. Seguiu-se o silêncio. Sentado na cama, trêmulo e ofegante, observava-me com admiração. Estávamos os dois acuados, inseguros. Mas eu teria que ser a primeira a superar isso, afinal já havia arquitetado várias possibilidades do que poderia ocorrer. Então, valendo-se de todo meu excesso de delicadeza, sentei-me ao seu lado e confessei:

– Sabe, Pedro, eu estou um pouquinho tensa essa noite.

Delicadamente, peguei uma de suas mãos e coloquei em cima do meu peito.

– Está sentindo como o meu coração está acelerado?

Fez um gesto concordando e sorriu para mim.

– Agora é a minha vez de sentir o seu – encostei minha mão em seu tórax – é, o seu também está bem disparado.

Sorriu de novo. Puxei assunto. Com uma dicção meio enrolada, ele começou a me falar de suas amigas (inclusive falou de seu pedido de casamento para a Isabela). Aos poucos começou a ficar mais à vontade. Ficava acariciando-o de leve para encorajá-lo a tocar em mim, até que passou os braços pela minha cintura. Pouco tempo depois, já estava ficando meio taradinho: começou a apertar minha cintura e passar a mão no meu bumbum. Como de costume, decidi fazer uma provocaçãozinha. Levantei-me e disse:

– Pedro, eu vou rapidinho lá no banheiro tomar um banho. Mas eu não demoro, viu?

Tirei minhas roupas no banheiro e deixei a porta entreaberta até a metade. Essa parte foi bem engraçada! Típico de alguém bem curioso, a todo o momento ele ficava espiando e rindo. Então, repentinamente, eu me virava para ele que, assustado, escondia-se para segundos seguintes voltar a bisbilhotar.

– Eu sei que você anda me observando, viu? Então entre aqui para me ajudar. Eu não estou conseguindo esfregar o sabonete nas minhas costas. Esfrega para mim?

Fiquei de costas, joguei meus cabelos para frente e deixei que me limpasse meio descoordenado. Depois agradeci dando-lhe um beijinho no rosto, o que o deixou meio envergonhado. Infelizmente, dessa vez, eu tinha me esquecido de trazer algum hidratante para ele passar no meu corpo, então, mal sabia ele, teve que se contentar em apenas pentear os meus cabelos. E fez isso muito direitinho, eu admito.

Ele me perguntou se eu iria me maquiar. Eu realmente não tinha isso nos meus planos, até que ele me entrega um batom vermelho da sua mãe. Gostei muito da ideia. Passava bem forte o batom nos meus lábios e deixava várias marquinhas de beijo no seu rosto. Meu penúltimo beijo foi em sua boca, mas ele não gostou de ficar com batom nos lábios e logo limpou. Dei outro selinho, e ele ficou bravo comigo. Também me entregou o perfume que sua mãe usava, mas obviamente, para evitar as desconfianças de dona Helen, recusei.

Em seguida fomos para a cama, onde começou a passar a mão pelo meu corpo. Era um bom rapaz; sempre pedia permissão antes de tocar em algum lugar ou de uma forma diferente. Acariciava-me com bastante cuidado, o que me fazia sentir cócegas às vezes. E lá ia eu pegar na mão daquela criança para ensinar direitinho como fazer. Aprendeu rapidinho ao nível de enfiar o dedo no meu cu sem que eu desse nenhuma instrução. “Que tipo de pornografia será que ele anda vendo?”, pensei comigo. Pouco tempo depois, tirou seu pênis para fora da calça. Não esperava isso: masturbei-o um pouquinho só, e ele gozou. Bem, por causa disso, achei melhor deixar a penetração e o oral para outro encontro. E terminamos abraçados na cama, com meus cabelos sendo acariciados.

Gosto muito de me recordar dessa nossa primeira vez. Sinto-me privilegiada por ter vivenciado esses e outros momentos lúdicos que tivemos. Com certeza é uma realidade ingênua que contrasta demasiadamente com as experiências que tenho no meu cotidiano. É por isso que fico tão encantada. Certamente o Pedro é uma das poucas pessoas capazes de resgatar alguma pureza dentro de mim e me guiar para uma fantasia tão sentimental como aquela. Nessas horas, senti uma enorme felicidade, contudo não é esse tipo que está ao meu alcance. De qualquer forma, certas marcas permaneceram e são suficientes para sempre melhorar o meu ânimo. Por isso…

Sim, sim, sim, estou bem feliz! =)

(Sobre a autora, clique aqui)

Também no blog:

A carência por trás das gentilezas

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12 comentários sobre “Felicidade de uma prostituta privilegiada

  1. Lindo esse seu relato, Ayana! Com seu trabalho ajudaste a uma pessoa especial, tanto quanto você. Ser feliz talvez seja isso mesmo! Difícil de explicar, mas fácil de sentir! Viva a vida. Beijos Ayana.

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