Será que dei para ele mesmo?


Andando pelas ruas, toda faceira e saltitante, sou abordada por um velho abandonado em sua embriaguez. Não me lembro de seu nome agora, mas não é a primeira vez que ele mexe comigo, sempre de uma forma extremamente desagradável. Acho que ele fica o dia todo sentado na calçada, acompanhado por duas garrafas de plástico: provavelmente uma de água e outra de cachaça.

Toda vez que vou à padaria, tenho o desprazer de encontrá-lo. Já se tornou um hábito: eu cruzo a esquina; ele me chama para a rua inteira ouvir (prestando, assim, um serviço ao padeiro que fica sabendo com antecedência quando eu vou comprar pão). Formas delicadas como “vem cá, meu amor!”, “vem cá, minha querida!” ou “vem cá, minha linda!”, ele desconhece. Nas palavras desse “Shakespeare marginal”: “Vem cá, minha menina do rabo guloso!”. Nas primeiras vezes, entendia que era “menina do rabo gostoso”. Era menos pior, por isso fiquei meio chateada com esse outro sentido.

Voltando à narrativa, dessa vez decidi passar por ele para conversarmos. Já havia feito suas brincadeirinhas de sempre, mas dessa vez lhe dei mais atenção. Antes de eu dizer qualquer coisa, o bêbado louco me pergunta todo zombeteiro:

– E aí, gostou da minha rola, minha capetinha safada?

“Ai, meu deus!”. Olhei entre suas pernas para constatar se havia alguma pouca vergonha explícita, mas, para o meu alívio, o pênis estava guardado na calça.

(Quando cheguei em casa, fiquei pensando: “Ele me chamou de ‘capetinha safada’ mesmo?”)

– Nem sei de rola nenhuma não, viu?

– Não está lembrada dessa aqui? – e já ia abaixar as calças.

– Ei, ei, ei! Não quero ver pinto de ninguém não, guarda isso!

– Mas gostou quando eu te comi.

– Ah, acorda aí, vovô! Eu não aceito pagamento em pinga! – falei como uma prostituta, e não acho isso legal.

– Eu te fodi lá no (nome do lugar)

– Está bem! Espero que tenha gostado, agora me dê licença que eu preciso ir.

– Um beijo, menina do rabo guloso!

Estava a uns cinco metros afastada dele, mas teria ouvido isso até mesmo se eu estivesse em casa (ouvindo música). Me despedi fazendo um gesto nada educado, mas que me serviu para transmitir um e outro palavrão que evitei dizer.

No caminho de volta para casa, fiquei pensando nas festas que teve no (nome do lugar), onde eu trabalhei, fiquei muito bêbada e drogada, e com amnésia recente no dia seguinte.

“Ayana, ayana… para quem você anda dando por aí, hein?”, questionou minha consciência.

Bem, concluí que apenas uma coisa é certa: na falta de juízo, é melhor mesmo não me lembrar de possíveis clientes indesejados.

(Sobre a autora, clique aqui)

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4 comentários sobre “Será que dei para ele mesmo?

  1. oieee…prometi e to deixando um recadinho rsrs….adoro ler aqui, to com saudade de falar com vc mas chego meio tarde trabalho, num shopping..beijoooo adoro ler suas coisinhas…rsrs sera q vc escreve qualquer dia de nossas conversas??

    • Oi, Camilla!
      Você sumiu mesmo, nem sabia que lia esse monte de besteira que eu fico escrevendo. Ainda assim, ficaria muito contente se voltasse mais vezes.
      Hmmm… escrever sobre as nossas conversas é bem delicado, ainda não sei como os leitores reagiriam. Mas não descarto essa possibilidade.
      Obrigada pelo comentário!
      Beijinhos.

    • Nada disso. Depois de tanto esforço tentando amenizar a repercussão dessas coisas que eu faço, não é aconselhável as pessoas leem minhas conversas no MSN. É aquele tipo de conversa que depois de algumas horas você se pergunta: “nossa, será que eu realmente sou assim?”. Muito me assusta isso.
      Beijos!

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