Um corpo e nada mais


Descobri minha sexualidade muito cedo, sem ter com quem eu pudesse conversar. Por um lado foi bom, porque não fui muito contaminada pela exaltação da castidade, mas também tem o seu lado negativo, por não ter aprendido que é essencial uma mulher se resguardar em determinados momentos. Depois das primeiras penetrações, decidi que teria uma vida sexual intensa. Com uns quatorze, quinze anos, fazia sexo com pelo menos dois rapazes diferentes por semana. E a média foi aumentando e aumentando. Tornou-se um vício que ainda me acompanha.

Para uma prática ou substância gerar dependência, é essencial que ela seja facilmente acessível. E a oferta de pessoas interessadas em transar comigo era enorme. Não apenas por eu ser mulher, mas principalmente por eu sugerir bastante erotismo. Pela minha aparência todos me viam como uma criança (ainda hoje me veem assim), e isso estimulava todo tipo de perversão. Me reconhecia na história da Chapeuzinho Vermelho, em que minha aparente ingenuidade incitava os Lobos Maus a abusaram de mim. Notei que eu era cobiçada pelos homens e desde então fico pagando de gostosa em qualquer ocasião.

Depois de ter minha aparência elogiada várias vezes, a tendência seria que me tornasse cada vez mais metida. Acredito que isso tenha acontecido, porque eu passei a priorizar apenas o meu aspecto visual. Contudo, para não parecer prepotente, tentava ser atenciosa com todo tipo de pessoa. Nesse caso, significou que qualquer um poderia me pegar (provavelmente essa foi minha pior decisão). Como era de se esperar, encarnei o papel de uma completa vadia, a ponto de ficar com todos os garotos em uma festa. De fato, não era nada além de um objeto. Os homens me pegavam sem trocar nenhuma palavra comigo. Eu era usada (muitas vezes rolava sexo) e depois repassada para o próximo. Satisfeitos, no final sempre fui descartada.

Antes de me tornar uma garota de programa, eu tinha a vida de uma grande vagabunda. Só que não tinha consciência da dimensão da minha promiscuidade. Sem perceber, estava destruindo minha vida e se eu não me contivesse, logo todos conheceriam a minha péssima reputação. Eu não era mais uma mulher tão desejada, porque não tinha nada para oferecer além do meu corpo. Sentia o desprezo de todos, até mesmo dos que me consumiam. Era apenas um corpo ignorante; achavam que eu não tinha sabedoria alguma, por isso quase nunca conversavam comigo.

Depois de fazer sexo com os quatro, um deles me pergunta:

– Você estuda, Ayana?

– Sim, eu estou no segundo ano.

– Já sabe o que vai fazer depois que terminar o colégio?

– Acho que sim. Eu penso em fazer medicina.

Disse num tom sério, mas eles interpretaram como uma ironia. Os risos que se seguiram despertaram em mim toda essa lógica que tentei expressar nesse texto.

– Acho que você se daria melhor trabalhando como prostituta.

Segurei um sorriso forçado até chegar em casa, onde desabei a chorar.

(Sobre a autora, clique aqui)

Também no blog:

Explorando a gostosura da prostituta

Pudores de uma despudorada

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8 comentários sobre “Um corpo e nada mais

  1. Olá
    Li alguns de seus textos para entender o contexto em que vive, e são bem escritos. Sou estudante de Jornalismo e me formo este ano. Estou meio trabalho de conclusão de Curso sobre o prostituição. É um relato fotogrrafico do dia-a-dia de garotas que escolheram esta profissão. Meu objetivo é mostrar que mesmo sendo uma profissão marginalizada as mulheres que a seguem tem uma vida cotidiana normal, igual a de qualquer outra mulher.

    Não sei o seu nome e não achei o seu contato no blog, acima está o meu email, se estiver interessada no tema por favor entre em contato comigo.
    Obrigada

    • Oi, Sádico!
      Não sei se estou escrevendo melhor, mas pelo menos perdi alguns receios.
      As coisas que faltam para compor a minha discrição estão sendo acrescentadas aos poucos, é porque eu teria muita coisa para falar. Acrescente também que ainda me sinto despreparada para escrever algumas coisinhas. Mas o blog ainda é recente. Espero que continue acompanhando para ver no que dá.
      Obrigada por comentar!
      Beijinhos

    • Hmmm… não sei…
      O blog ainda tem pouco público, acho que ninguém iria comprar uma obra escrita por mim. Você compraria? Espero que sim, eu faço um leve desconto.
      Por enquanto eu estou usando o blog para treinar. Se o pessoal continuar gostando dele, eu posso ficar mais ambiciosa. Quem sabe não faço um filme? ^^
      Obrigada pelo elogio (e pelo incentivo)!
      Beijos!

  2. a casa post que leio me encanto e descubro tanta coisa em comum ,,
    a diferença é que eu não consigo mais esconder o meu lado vagabunda
    todo mundo já sabe,
    por isso que nenhum namoro meu vai pra frente
    o jeito é virar puta mesmo

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