Penalidades por dormir na aula


Minhas aulas do terceiro ano começavam às sete horas, mas já eram quase oito e meia quando cheguei ao colégio. Visivelmente acabada devido à noite anterior, com um ar embriagado, ficaria apenas dormindo no fundo da sala até começar os dois últimos horários, reservados para duas provas de física. Como já havia estudado, acredito que me sairia bem nessa avaliação, só precisaria descansar um pouco para passar o efeito alcoólico.

Na aula de física que antecedia a prova, antes de o professor resolver os exercícios, ele me acordava para perguntar qual fórmula deveria ser usada. É claro que eu não soube nenhuma, nem mesmo sabia o que estava no enunciado da questão. Tentei me manter acordada e copiar alguma coisa, mas sempre era vencida pelo cansaço. Meus colegas começaram a achar graça da minha involuntária provocação ao professor e por causa disso fui parar na diretoria.

Ligaram para o meu pai comparecer ao colégio, já que eu recaía várias vezes nesse erro de dormir nas aulas. Sabia que meu responsável demoraria umas duas horas para chegar, por isso pedi para que a diretora me deixasse fazer a prova enquanto ele não chegava. Isso me foi negado sob a alegação de que não estava em condições para resolver os cálculos de hidrostática. Seguiu um longo tempo de sermão, mas não saberia reproduzir suas palavras, porque não absorvi nada do que foi dito. Ela ficou me questionando sobre como havia sido minha madrugada, e eu apenas dava a desculpa de que não estava conseguindo dormir direito nesses últimos dias.

A verdade é que minha noite havia sido muito longa. Conheci três rapazes em uma festa e logo eles me levaram para o seu apartamento onde bebemos em excesso. Os três abusaram de mim de todas as formas possíveis, sendo que meu entorpecimento me impedia de reagir. Consumiram o meu corpo até amanhecer, foi quando eu me liguei que minha aula começaria daqui a pouco. Os outros dois rapazes já estavam dormindo, então pedi ao que ainda estava me agarrando se poderia me levar para casa.

– Fica aí! Você não vai conseguir estudar nada mesmo.

– O problema é que hoje eu tenho uma prova importante… Ah, deixa para lá, eu vou chamar um taxi.

Quando comecei a me desprender de seus braços, ele me agarrou ainda mais forte e me jogou contra a cama.

– Me larga agora!

– Você só vai embora depois que eu comer mais uma vez esse seu cuzinho.

Desgraçado! Dei um chute em sua coxa e como reação levei um tapa no rosto. Abri as pernas e as apoiei em seus ombros, logo ele começou a me penetrar por trás. Inerte, ficava olhando o ponteiro dos segundos mover-se lentamente em meu relógio. Muita dor, vontade de chorar. Droga! Termine essa porra logo, eu só quero ir para casa! Demorou mas enfim senti a hora em que ejaculou dentro de mim. Virou-se para mim com um sorriso insensível em sua expressão, bateu mais uma vez no meu rosto e disse que poderia ir embora. Peguei um taxi, fui para casa e logo em seguida para o colégio.

Quase no final da manhã, meu pai apareceu no colégio para me pegar. No caminho de volta, depois de ouvir todas as minhas falhas como estudante, ele me perguntou:

– Você saiu ontem à noite, não saiu?

– Não, fiquei a noite toda no meu quarto, onde você esteve?

– Você ainda está fedendo cigarro e álcool!

– Não quero falar disso, tive uma noite péssima…

Ficou me pressionando para eu contar o que havia feito à noite. Foi aí que comecei a me recordar o que aqueles garotos fizeram comigo e logo perdi completamente o equilíbrio. É aquela hora em que se analisa mais friamente o passado e identifica as situações horríveis por que se passou. Chorei muito e mesmo assim meu pai não se calava. Não suportava mais ser coagida, por isso disse qualquer coisa.

– Aconteceu que eu fui a uma festa, bebi muito e passei mal.

– Ótimo, agora você não sai mais de casa.

E não falou mais nada.

(Sobre a autora, clique aqui)

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5 comentários sobre “Penalidades por dormir na aula

  1. Esse tipo de relato é um dos que eu acho mais interessantes. E esse deixa bem claro bastante coisa sobre seu passado. Minha curiosidade, e não sei se ainda vai escrever sobre isso aqui, é, qual foi o gatilho? Quando começou a ter esse tipo de vida? Foi algo derrepente ou foi algo que aconteceu vagarosamente?

    • Pois é, eu tive uma adolescência meio conturbada, então ainda tenho até bastante coisa para escrever sobre ela. É bom apresentá-la porque aí não é tão necessária aquela típica pergunta: “Mas por que você se tornou garota de programa?”. Ora, são muitos motivos. Mas enfim, não me lembro exatamente se houve algum acontecimento que marcou toda minha mudança de comportamento, até porque não fiz tudo aquilo apenas por revolta contra meus pais. Mas, sim, como um bom (?) diário, eu penso em escrever minhas motivações para agir daquela forma.
      Fico grata pela sua interação com o blog!
      Volte muitas outras vezes, todas as vezes, sempre que puder!
      Beijos, beijos!

  2. ao ler lembrei legião Urbana…. essa passagem e resposta sua para o “Bondagista” me lembrou de uma

    …. e mostra que vc viveu intensamente a juventude… LINDOOOOO AMO O AR DA JUVENTUDE…

    porém trocaria essa música por essa:::::: :D

  3. Princesa,
    First things first: voce escreve muito bem e seu texto é uma delicia de ler.. trata do assunto, sem baixaria e narrando de tal forma que prende até o final.
    Dito isso, gostaria muito de conversar com vc. Podemos? Qualquer dia desses que estiver sem fazer nada, me procure pls. Temos bastante a compartilhar
    bjs
    Felipe,
    vadiando por aí…

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