Elas não querem ser putas


Nós somos mulheres prostituídas, contudo, ao que parece, nem todas se entregaram a mesma prostituição. Ora, o discurso hegemônico elitista faz questão de ressaltar as desigualdades, tanto que parece haver um oceano separando uma puta rameira de uma acompanhante de luxo. De modo geral, não faz sentido, afinal eu dou, ela dá, nós damos, elas dão; ou seja, o serviço é essencialmente o mesmo.

Por outro lado, a classificação da profissional varia conforme o preço do seu serviço, suas condições de trabalho e seu público-alvo. Pois bem, admito que como prostituta já passei do lixo ao luxo (bem como do luxo ao lixo). Em todos esses casos, fazendo sexo por 50 ou por 250 reais, eu me senti como uma vagabunda. Dessa forma, se fôssemos identificar meu posicionamento na escala gradativa de denominações para uma garota de programa, provavelmente eu estaria entre os valores mais baixos. É o que acontece por associar julgamentos negativos a mim.

Veja bem, eu concordo que sou uma vadia (no sentido sexual); uma característica profundamente condenada pela sociedade moralista, mas que para mim não se enquadra exatamente como uma ofensa. Em suma, minha condição de garota de programa está associada à vadiagem (que seja!). Contudo, se o objeto de análise fosse uma acompanhante de luxo, aí os julgamentos seriam bem diferentes. Elas são até bem respeitadas na sociedade, tanto que para se referir à sua atividade há quase uma unanimidade em asseverar que é uma profissão igual a qualquer outra.

Acredito que muitos deixam de completar o raciocínio que seria mais ou menos assim: “trabalhar como acompanhante é uma profissão como qualquer outra, exceto quando as mulheres (putas) ficam se expondo na rua, bêbadas, cheirando pó, dando para qualquer um, fazendo de forma desprotegida e depois entregando a maior parte do dinheiro para um cafetão”. Ok, essas são apenas algumas referências à prostituição, mas nem todas as garotas passam por isso (lembrando que é difícil uma acompanhante admitir certos detalhes da época em que trabalhava nas ruas).

Quando um político rouba dinheiro público, seja através de superfaturamento de obras, lavagem de dinheiro, empregando funcionário fantasma (etc, etc, etc…), é julgado como corrupto, ao passo que, qualquer marginal que roube uma carteira é tratado como bandido (e outros adjetivos equivalentes). No caso da prostituição, aquelas que atendem mais a burguesia são consideradas acompanhantes, enquanto as infelizes que fazem programas com vários segmentos da população são um bando de rameiras. É o destino que praticamente todas as moças querem evitar. Ainda que todas nós sejamos garotas de programa, nenhuma quer esse estigma de puta.

(Sobre a autora, clique aqui)

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Distorção de valores na prostituição

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8 comentários sobre “Elas não querem ser putas

    • Definitivamente, não sou uma garota de programa de luxo, tenho até uma certa aversão a esse tipo (não, não é invejinha ¬¬).
      Praticamente ninguém se refere a mim como acompanhante, tanto que até me causa certo estranhamento quando alguém usa esse termo. No meu caso, foi bem uma questão de costume; gostando ou não, qualquer pessoa me chamava de puta e coisas piores. Enfim, o que eu sei é o seguinte: eu sou garota de programa e me apresento como garota de programa. Isso já me basta. Por isso não me incomodo se me chamarem de gatinha ou de piranha.
      Mas com certeza isso é um tema para um próximo post.
      Beijinhos, Tricampeão!
      Fico contente por saber que você acompanha o blog! =)

  1. a prostituição é tão velha qto o pensamento das pessoas, eis que na passagem biblica todos apedrejaram o ser a sua imagem e representação…

    hoje acontece isso mas no sentido figurado… a sociedade usa palavras e leis no alto de sua moral… hipocrisia…

  2. Amiga! vc. tem toda razão. Acompanhante de luxo, garota de programa ou prostituta, todas elas vendem o corpo em troca de dinheiro. A questão de comportamento pessoal ou de oportunidade(ser da rua ou do ambiente alto) é do nosso capitalismo mesmo. Tem jogador que vive ganhando uma merreca em time de interior. Outros faturam milhões me grandes clubes. Todos jogam futebol. As oportunidades é que foram diferente. Hoje fazem um glorificação da garota de programa e uma humilhação da prostituta. A diferença é puramente ecônomica. Que Deus lhe ilumine.
    OBS: Não sou da profissão. Sou puta amadora! Ana Maria Rosa -e-mail a.maria@bol.com.br

  3. Oi Ayana , td bem? Sobre o estereótipo de puta devo dizer que é altamente preconceituoso e que não o aceito, até porque gosto de fazer massagens eróticas e tenho algumas amigas no meio. Faço questão de tratá-las como mulheres que são. com muito respeito. Quanto ao fato de fazerem sexo pago; não pode servir pra estigmatizá-las pois o que dizer de quem frequenta os apartamentos delas em troca de sexo, ou seja de quem as paga?? E o que se fala hoje; é que a “boa mulher deve ser uma puta na cama” com seu marido.Então tratar mulheres com rótulos é machista e preconceituoso; principalmente se o tratamento dado for pejorativo.

  4. …nisso, ayana somos opostas. tive 3ou4 meses d experiencia numa boate em 2012. so parei p ser mae ants dos 20anos(nasceu com 20a1m26d, mas ta valendo), qdo der p dxar o baby sem peso na consciencia volto e exatament o q vc diz “nao qro ser a puta”
    SE TEM QUEM PAGUE 400 PQ VOU DAR POR 40?
    gosto d sexo, mas ainda to engatinhando (ate 2ans atras, era virgem).

    AMO SEU BLOG, E SEU MODO D ESCREVER EM GERAL.

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