Mensagem não enviada no dia dos Pais


Gostaria muito de dizer nesse dia que tenho saudades da época em que vivíamos juntos. Mas a verdade é que não sinto nada por você. Durante muito tempo guardei algumas mágoas, porque eu não conseguia aceitar que, como sua filha, não lhe proporcionava nenhuma vontade de ser pai. Então chegou o momento em que rompemos nosso vínculo familiar e nos tornamos dois estranhos, que quando se encontravam se tornavam inimigos. Notei que minha existência próxima a você lhe causava incômodos, já que sua vida tinha bem menos preocupações antes de eu nascer. Para conter os prejuízos, contratou alguém para enfrentar os desafios – que deveriam ser seus – de educar uma menina. Era mais fácil você fugir das responsabilidades, principalmente quando eu as pus à prova.

Minha revolta contra você era realmente necessária, porque se não fosse isso, a gente não iria se interagir de forma alguma. A partir disso, nosso relacionamento limitou-se a discussões sem propósito provenientes de nossas implicâncias. Você queria que me comportasse, sem me oferecer nada em troca, nem que fosse sua maldita companhia. Ora, eu nunca iria te obedecer, até porque havia descoberto um universo prazeroso que me permitia fugir de seus fracassos como pai. Lembro-me que você sempre me alertava de várias tragédias que poderiam ocorrer, e admito que, quanto a isso, você estava certo. De fato, vivenciei muitas dessas situações, mas você nunca estava lá para me proteger, nem para cuidar de mim e nem mesmo para me ouvir.

Imagino que deva achar que sua única filha não passou de uma completa decepção, até mesmo sem saber das condições em que vivo atualmente. Talvez nem ficasse tão surpreso se descobrisse isso, já que nunca demonstrou nenhum interesse no caminho que eu seguiria no meu futuro. Não conhecia minhas habilidades, nem minhas limitações; nem as conquistas, nem os fracassos. Você só esperava que eu me tornasse uma pessoa bem diferente da que sempre fui. Também desejei que ocorresse toda essa transformação, mas infelizmente não consegui. Para compensar toda sua frustração, achei melhor desaparecer de sua vida e afastá-lo da minha.

(Faz quase três anos que duas pessoas deixaram de comemorar o dia dos Pais. Um por não ter mais uma filha; outra por ter não ter mais um pai. Mas talvez eles não tenham perdido nada, afinal pode ser que essa relação entre pai e filha jamais tenha existido).

(Sobre a autora, clique aqui)

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Mensagem não enviada no dia das Mães

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3 comentários sobre “Mensagem não enviada no dia dos Pais

  1. Olá, princesa.
    Imagine a seguinte hitória: um guri de 14 anos que perde o pai , de forma repentina. Um certo dia, ele amanhece reclamando de dores no abdomen e não vai trabalhar; passa dois dias em casa, com muitas dores, tomando tudo o que é tipo de chá, até resolver permitir que o levássemos ao hospital.De onde não voltou vivo, três dias depois.
    A gente não é nada.
    Fui privado da companhia do meu pai, aos 14 anos, em um momento em que ele era fundamental na minha vida. Não apenas por ser o único provedor de nosso lar – e isso leva a outra estória, a da mulher leoa que se vê só no mundo com quatro filhos, mas isso já é outra coisa – mas por ser também, lá do jeito casmurrão dele, o meu melhor amigo.
    Meu pai era chato pra caralho. Eu tirava um sete de matemática, suando até a medula durante a prova e antes dela, com toda a preparação e tal, e o camarada me fazia uma cara de vômito. ” Muito bem, Sassikinha. Mas você foi um pouco destraído nas duas questões que errou, não é mesmo?”
    Um dia, ele me bateu.Foi só uma vez. Tem gente que diz que isso é bom, que forma o caráter da gente, mas não foi assim comigo. O cara era tres vezes maior do que eu e me bateu. Um tapa na cara, desses que faz “slapt!”. Porquê? Porque eu estava irritado com ele, não tinha sido presenteado como gostaria no meu aniversário e mandei uma resposta atravessada pra ele, em meio a uma admoestação qualquer. Levei o tapa, mas não chorei. E continuei a encará-lo em desafio: ” bate mais forte, seu viado” , eu dizia com os olhos. Minha mãe interveio e mandou-me pro quarto. “Obedece a sua mãe!!!”
    Naquele dia eu queria ser grande, pra sair na mão com ele.
    Mas tinha as coisas boas, também.
    Como no dia em que, perto da data em que morreu, foi me ver jogar na escola. E eu via o jeito que ele torcia, berrando, quando eu pegava na bola: ” Vai , menino”!
    O bicho era torcedor fanático do Corinthians. Eu tinha só um aninho e pouco na época, mas a minha mãe me disse como foi a sua reação durante o jogo contra o Palmeiras , na final do Paulista de 74. Nesse dia, ele ouvia o jogo com o meu tio, palmeirense. O Corinthians não ganhava um título desde 1954. Vinte anos de jejum. Pois bem, o Palmeiras ganha o jogo, um a zero. Ele vai para a varanda em silêncio, e começa a regar as plantas. Meu tio, constrangido com a cena, já que estava feliz com o título, vai atrás dele, para reconfortá-lo, para dizer que não havia razão para ficar tão acabrunhado, mas não consegue abrir a boca. Meu pai, sem olhar pra ele, mas com os olhos marejados e uma expressão de tristeza, apenas ergue o braço direito, a meia altura, com a mão espalmada. Meu tio vai embora arrasado pra casa dele.
    Do meu pai herdei o amor pelo futebol e pela família. A exemplo dele, ando descalço pela casa quando acordo. Sou meio casmurro também, especialmente quando acho que estou “certo”.
    Enfim, contei essa história toda porque sinto muita falta dele. Muita. Quando a coisa aperta, as vezes me pego tentando adivinhar como ele agiria no meu lugar. A gente não pôde ter esse convívio de pai e filho adulto. Eu não pude ter isso.
    O que eu quero dizer e me perdôe se isso sôa como uma intromissão – não é essa a minha intenção – é que , por mais divergências que vocês possam ter, há um momento em que as coisas retornam ao que é essencial. Ele é o pai, você a filha. Não é maravilhoso, mas ninguém disse que seria assim. Todos temos nossas divergências. Nossas implicâncias. Talvez você não sinta amor por ele, hoje. Mas isso vai mudar, em algum momento. E a mudança não vai partir dele, mas de você. Acho que a relação entre pais e filhos é ditada pelos filhos, não pelos pais. São os filhos que respondem ao sentimento que lhe é transmitido . Os pais sempre acham que estão nos protegendo, projetando suas metas, seus planos, nos filhos. As vezes, a gente consegue deixá-los felizes. As vezes , não. As vezes, a gente sente amor da parte deles. As vezes, não.
    Mas, lá do jeito deles, eles amam a gente, sim. Talvez eles não nos aceitem como somos, mas a recíproca, na maioria das vezes, é verdadeira.
    Desculpe pelo cometário imenso, mas percebi que não falava sobre o meu pai há muito, muito tempo. Acho que exagerei.
    Li várias coisas do seu blog e adorei.
    Já tá nos meus “favoritos”.
    Vou te visitar, sempre que puder.
    Um beijo.

    • Olá, Fortim!
      Eu fico meio revoltada em datas como o dia dos Pais e por isso sinto vontade mesmo de escrever de uma forma um pouco mais agressiva porque se fosse para ele ler eu gostaria que o texto estivesse nesse tom. Ele nunca recebeu o último presente que comprei, porque nesse dia dos Pais ele não estaria comigo, sem soube quando ele voltaria.
      Depois que eu li o seu texto – e eu me emocionei bastante mesmo -, fiquei muito tempo pensando nas horas que passei com meu pai, tentando comparar um pouco com a sua história. Mas, sei lá, parece que eu só me recordo de nossas brigas, porque era essencialmente isso que a gente fazia juntos.
      Dessa vez eu até pensei em me reaproximar dele, mas se antes ele já não me aceitava, agora muito menos. Tudo bem que ele pode me amar de uma forma introvertida, mas eu não tenho a segurança de garantir isso. Não sei, se ele gostasse de mim, passaria mais tempo comigo, mas ao contrário, ele sempre me evitava. O problema é que ainda hoje eu não tenho maturidade para encará-lo. Tentar entendê-lo sem me deixar levar muito pelas minhas emoções. Além de tudo isso, por enquanto, é melhor ele não saber nada sobre minha vida.
      Bem, eu também acho que escrevi até que bastante, mas me sinto melhor depois disso. Gostei muito mesmo do seu comentário, por favor, não deixe de escrever por aqui.
      Obrigada pela sua visita!
      Beijos, beijos!

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    Parabéns pelo seu Blog!!!

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    Um forte abraço,
    Dário Dutra

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