Acusação contra uma desordeira inocente


Ontem à tarde recebi a desagradável visita de duas vizinhas que vieram me acusar de promover uma algazarra em nossa rua durante a madrugada. De antemão, já declaro aqui minha completa inocência especificamente sobre este caso. Pelo que entendi a ocorrência se deu às quatro horas da madrugada, quando um grupo de homens bêbados ficou gritando palavrões e, vejam só, exclamando o meu nome. Este foi um dos indícios que minha vizinha usou para me incriminar. Coerente, admito. Só que depois ela esculachou com o debate civilizado dizendo: “porque quatro horas da manhã é o horário que a vadia volta da zona”. E logo acrescentou que ela tinha que acordar cedo, porque trabalhava dignamente, ao invés de ficar vendendo o corpo por aí. Bem nessa hora olhei para o seu corpo. Pois é, a indústria do sexo é bastante cruel com as mulheres que estão muito afastadas do padrão de beleza, então eu realmente a aconselharia a seguir com o seu “trabalho digno”.

Na hora não sabia como me defender, porque ainda me sentia bastante confusa com toda aquela situação. Além de não saber exatamente as circunstâncias do problema, estava também preocupada com o escândalo que as duas senhoras estavam promovendo em frente a minha casa. Quando fui fazer minha primeira objeção, no instante em que minha vizinha parou de falar para tomar fôlego, fui interrompida pela segunda inquisidora que começou a predizer todos os castigos divinos que me acometeriam. Entretanto, percebendo que as punições de deus não se manifestariam imediatamente, optou por me ameaçar recorrendo ao serviço da polícia. Ai, ai, mas que astronômica ingenuidade! Provavelmente, deus já vai ter me julgado e condenado às chamas do inferno bem antes de os policiais decidirem aparecer por aqui.

Seguiram-se várias injúrias contra mim – das quais pouco me recordo agora – por mais que eu insistisse em negar meu envolvimento nesse ruidoso incidente. Contudo aquelas refinadíssimas senhoras não notavam o seu protagonismo naquele escarcéu que se desenrolava em público. Logo outro personagem, que por lá passava, veio complementar a trágica peça. Sua função de mediador foi muito bem-vinda, porque me dispôs a oportunidade de me defender. Mas não foi exatamente isso que eu fiz. Sob pressão, disse a maior das bobagens possíveis: pedi desculpas por uma confusão em que não participei. Acho que foi por força do hábito e para tentar pôr um fim naquela situação tão chata. Um pouco depois disso, enfim, elas foram embora.

Fazendo uma autocrítica, é verdade que algumas vezes não me comportei adequadamente diante de meus vizinhos, basicamente pela minha pouca vergonha. Também tenho que me responsabilizar pelos ruídos eufóricos de alguns clientes distantes de sua sobriedade. Mesmo sem desconsiderar meus erros, já é praticamente institucionalizada uma perseguição que certos vizinhos têm contra minha pessoa; também contra o meu serviço, embora eles não saiam brigando com todas as prostitutas que habitam as redondezas. Como eles não conhecem tão bem as outras garotas, qualquer atentado à moralidade do bairro é de minha responsabilidade. Mas aí eu fico pensando: já que aquelas senhoras tiveram a iniciativa de se reunir para reclamarem de mim, por que não aproveitam para se mobilizar contra o lixo acumulado nas ruas, contra a ausência de espaços públicos para o lazer e contra o alto índice de violência? Não, elas preferem vir bater num agente mais fraco, que ameaça perturbar a ordem de um ambiente em constante caos.

(Sobre a autora, clique aqui)

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Fim de um amante desequilibrado

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2 comentários sobre “Acusação contra uma desordeira inocente

  1. Pois é, lembro do Ceni falando de uma vez que invadiram o vestiário (da portuguesa eu acho) armados protestando contra o jogo ruim .. contra corrupção ninguém tem toda essa indignação.
    Estranho como as pessoas (na verdade os brasileiros) protestam por bobagens, mas não sobre as coisas que realmente impactam na vida delas.

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