Efeitos colaterais do dinheiro


Às vezes, atendo ilustríssimos senhores favorecidos pelas riquezas produzidas por seus empreendimentos. Independentemente do recinto onde manifestam sua digníssima presença sempre solicitam tratamento privilegiado, que na minha concepção significa que ficarei mais tempo me socializando e menos tempo mantendo relações sexuais. À primeira vista, pareceria um serviço cômodo, entretanto, como estou servindo um segmento de consumidores mais exigentes, abastados de frescuras, o trabalho exige que adapte minha forma de agir à fantasia do sujeito, sendo que nem sempre esta está formalmente explicitada.

A fortuna de Marcos deveria ser proporcional a sua prepotência. Para se ter uma ideia, se essa regra fosse realmente válida, esse sujeito seria multimilionário. Não bastasse esbanjar dinheiro, também falava como se fosse uma celebridade. Para o seu descontentamento, foi contratar justamente uma garota de programa ignorante, que não acompanha as colunas sociais do jornal. Quer dizer, para mim, não passava de um homem medíocre que se dava ares de grandeza. Ora, ora, um sujeito tão renomado jamais poderia ser pego frequentando o meretrício, acompanhado de rameiras ordinárias como eu. Não o conhecia e agora lamento tê-lo conhecido. Ficou fazendo mistério sobre sua identidade até perceber que eu estava farta de fingir interesse por alguém tão idiota.

Fui levada para a suíte de luxo de um motel bem reles. Teria direito a tomar banho quente, ligar o ventilador de teto e pegar uma cerveja no frigobar (estava incluída no valor da hora, assim como as teias de aranha dentro da gaveta do criado). Por mais mofado que fosse o lugar, faço sexo sem muitos problemas, já que não tenho nenhuma alergia. Ainda assim, se pudesse escolher, acharia mais convidativo transar na rua. Bom, de imediato, fiquei me questionando sobre a opção por um muquifo e cheguei a duas hipóteses: ou ele era rico e gostava de ambientes de pobre; ou ele era pobre e gostava de se passar por rico. Fato é que a elite tem mais excentricidades, e nesse caso uma delas foi o cliente se trancar no banheiro para tomar banho e, ainda por cima, dispensar minha companhia.

Quando saiu, foi minha vez de entrar. Jamais tomaria banho de porta fechada, mas assim que entrei no banheiro, ele me pediu para fechá-la. Logo vi que ele havia deixado sua carteira no balcão da pia. Há momentos que sou enxerida mesmo, então abri a carteira e vi que tinha muito dinheiro (mas não contei quanto) e só dinheiro. Dando um bom exemplo para mostrar que nem toda puta é ladra (nem ingênua), deixei aqueles mil reais em couro e cédulas no balcão e fui tomar meu banho. Ao sair do banho, na maior boa intenção, avisei o cliente para não se esquecer de pegar sua carteira no banheiro. Curiosamente, ele me pareceu um pouco desapontado com a minha reação. Comecei a cogitar se ele tinha interesse em ser roubado, quando recebi uma oferta:

– Você quer aquele dinheiro para você?

Tentador? Veja bem, todos os clientes pagam antecipadamente para a minha cafetina, então eu nem ando com muito dinheiro na bolsa. Se aceitasse seu presentinho, que era muito maior do que o valor do meu programa, não teria como explicar de que forma eu consegui toda aquela grana, caso alguém me pegasse. Tudo bem que não estaria fazendo nada de ilícito, mas tomando como verdadeira a hipótese de que o sujeito queria ser roubado, talvez o próximo passo dessa fantasia estúpida fosse chamar a polícia. Nessa situação, meu amigo, quem se fode no pior dos sentidos é a puta. Desconfiada de suas intenções, não aceitei os programas que poderia deixar de fazer se tivesse aquele valor na minha conta. Depois disso, não aconteceu nada de interessante; fizemos apenas um sexo chocho. Aliás, ainda teve uma última provocaçãozinha:

– Da próxima vez que você me contratar, vou aceitar seu pagamento extra para levá-lo a um motel com hidromassagem e ainda compro um vinho para a gente não ter que ficar bebendo cerveja.

(Sobre a autora, clique aqui)

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4 comentários sobre “Efeitos colaterais do dinheiro

  1. QUERO INVERTER OS PAPEIS: NESSE MOMENTO NARRADO NO POST; VOCÊ ERA A CELEBRIDADE, ELE O ORDINÁRIO! ACHO DE BOM GOSTO, QUE O CLIENTE TRATE A GAROTA COMO SER HUMANO QUE É; E QUE NÃO FIQUE TENTANDO-A COM OFERTAS ESTRANHAS OU TENTANDO HUMILHA-LA. TODO CLIENTE DEVERIA ENTENDER QUE ACIMA DE QUALQUER COISA, ALI ESTÁ UMA GAROTA; MUITAS VEZES UM SER HUMANO MARAVILHOSO E BOA COMPANHIA E QUE EM QUALQUER SITUAÇÃO OU TRABALHO, CARINHO E O RESPEITO SÃO IMPRESCINDIVEIS!!!!

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