Relacionamentos recônditos do pai e da filha


Quando eu tinha uns doze anos de idade, minha mãe foi trabalhar na Espanha e fiquei morando apenas com meu pai. Ela me visitava a cada dois meses, e geralmente íamos juntas fazer um programinha mais feminino, isto é, passear no shopping. Era legal sua companhia porque me ajudava a escolher minhas roupas, a prender o meu cabelo, a me maquiar… enfim, detalhes bobos que eu tinha que resolver quase todos os dias sem a sua ajuda. Fora isso, ela não me fazia tanta falta. Aliás, no primeiro ano em que minha mãe foi morar fora, até senti bastante saudade. Só não fui morar uns dias com ela, porque tinha muito medo de viajar de avião. Depois de um tempo, simplesmente perdi o interesse em visitá-la.

Até hoje eu não sei explicar exatamente por que razão meus pais ainda não se divorciaram. Talvez fosse apenas uma formalidade, afinal ambos mantinham uma vida descomedida de solteiro, como se não tivessem uma filha para educar. No caso do meu pai, frequentemente chegava de madrugada em casa e às vezes eu ficava dias sem vê-lo. Abusava sempre da mesma desculpa: “tive que ficar até tarde no trabalho”. Nunca soube onde passava as noites, mas aos poucos fui descobrindo que nunca ficava desacompanhado. Tomei conhecimento de sua primeira amante ao ler as mensagens que ela deixava no celular do meu pai. Aos poucos esse aparelho foi me revelando outros pormenores. O meu pai ligava para sua amante quase todos os dias depois das oito da noite, provavelmente o horário em que realmente deixava de trabalhar. Em suas mensagens sempre havia um tom de erotismo ou vulgaridade. Era detestável ler certas baixarias que ele escrevia; com o tempo, já havia perdido todo meu respeito e nem mais o considerava como pai.

Contudo, a mensagem que me marcou não era sexual: “Acabei de brigar de novo com a minha filha. Não vou poder te encontrar hoje”. E na mesma noite a cadela respondeu: “Amanhã à tarde, leva ela no parquinho, porque à noite quero você só para mim!”. (Querida, com os meus 16 anos, eu não queria ir ao parquinho, mas me faria bem ir lá na sua casa meter a mão nessa sua cara de vagabunda!). Bom, de fato a sugestão da amante do papai me deixou ainda mais indignada em plena minha fértil temporada de rebeldias. Voltei a discutir com meu genitor, porém agora usava a figura de sua amante vadia para sustentar minhas críticas. É bem verdade que o adultério nem era tão constrangedor, mas as intimidades do casal expressas naquele celular certamente causavam um intenso mal-estar. Utilizei-me, indevidamente, de alguns termos expressos naquelas mensagens, e assim a discussão descambou para um nível abissal.

Consequentemente, ele começou a ser mais cauteloso com seus relacionamentos extraconjugais; ao menos deletava as mensagens comprometedoras em seu celular. Tudo bem, não faria muita diferença, afinal o estrago já estava feito. Assim, por conveniência, fomos nos afastando ainda mais: ambos não queriam ser questionados sobre as ocorrências que protagonizávamos nas madrugadas. Ele com sua amante; eu com meus relacionamentos casuais. Talvez seja meio inapropriado nos comparar especificamente nessa questão sexual, porque eu passava por situações bem mais graves do que o meu pai, sendo que ele praticamente não soube de quase nada que acontecia comigo. Nós tínhamos muitos segredos para esconder um do outro, mas nesse momento, bem que ele poderia estar lendo tudo isso…

(Sobre a autora, clique aqui)

Anúncios

9 comentários sobre “Relacionamentos recônditos do pai e da filha

  1. Oi Ayana. Densa a sua síntese. Nossas vivências com os pais não são de fácil tradução; sentimentos incoerentes e adjetivações impróprias. Por isso o que importa é o que está emergindo em nós e os motivos pelos quais queremos falar sobre eles. Vc gostaria que ele estivesse lendo, ok. Mas há muitas formas de linguagem quando queremos, mesmo inconscientemente, expressar nossas emoções. Vai amadurecendo o assunto.
    Muito legal !
    Abração,
    D.

    • Oi, Dimittri!
      A minha história com o meu pai ainda está muito mal resolvida e, por algum motivo, ultimamente isso tem me incomodado. Acho que porque atualmente eu não nego as minhas falhas como filha.
      Para ser sincera, a única coisa que quero agora e não pensar tanto nele. Não é a hora de consertar isso…
      Fico muitíssima agradecida com a sua contribuição para o meu diariozinho (e para minha vida). ^^
      Um grande beijo!

  2. Realmente, você escreve muito bem.
    Palmas para a palavra “genitor” no momento certo (aquele em que você deixou de considerá-lo pai).
    Reconheço um talento quando o vejo.
    A sua hora vai chegar. Pode apostar.

    • Oi, Ricardo!
      Eu acho que seria bom ter um reconhecimentozinho mais quando eu parar de trabalhar, já que eu não tenho ideia do que farei depois. Provavelmente, continuarei escrevendo, mas não sei se realmente vou ter tanta aceitação assim. Por enquanto, estou muito satisfeita que pessoas como você gostaram do blog. Venha me visitar mais vezes, sim?
      Um beijão e obrigada por comentar!

Compartilhe também sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s