Gananciosa, mas não é uma puta


Toda semana, eu via a Marcela andando abraçada com um homem diferente. Agora não mais; recentemente ela se casou com um senhor bem mais velho e, detalhe, bastante endinheirado. Provavelmente, não voltarei a vê-la e talvez agora algumas pessoas deixem de nos comparar. Tudo bem, tínhamos algumas semelhanças: ela é um pouco mais jovem do que eu, se veste de forma provocante e fica com vários rapazes numa mesma noite. Até onde a conheço, acredito que não trabalhava como garota de programa; era uma singela vadiazinha muitas vezes referida como puta. Para mim, era uma moça bem mal-educada, característica constatada em sua desagradável reação (quis me bater) quando me viu beijando seu ex-namorado. Veja bem, é importante esclarecer: ele estava me pagando.

A notícia do casamento de uma das minhas inimizades chegou até mim mais ou menos nessa construção:

– Já arrumou algum gringo otário para se casar?

– Ainda não. Daqui uns 15 anos eu começo a procurar algum pretendente e espero que não seja nenhum gringo otário.

– Você deveria correr atrás disso. A Marcela se deu bem, casou-se com um velho cheio da nota.

– Ela quer ter uma vida de casada, e eu continuar com minha vida de prostituta.

– Agora ela virou mais puta do que você, está sugando toda a grana do velho.

– Que nada, apenas eu sou uma puta.

E depois dessa declaração, fui desenvolvendo um argumento que daria uma discussão pertinente se eu estivesse conversando com alguém mais interessado. A partir de toda essa contextualização, agora passo o assunto para este blog!

Considerando a prostituição como um serviço remunerado, sinto-me injustiçada quando associam a minha profissão a atitudes antiéticas. Defendo que uma mulher casada por interesses financeiros não deve ser comparada a uma garota de programa. Ora, a minha ocupação na vida de um cliente é meramente sexual, nem precisa envolver sentimento, que deveria ser o principal requisito para se casar. Prefiro julgar as mulheres que priorizam as riquezas numa relação a dois como interesseiras ou gananciosas. E muitas prostitutas são assim, especialmente quando exploram algumas práticas menos ortodoxas a taxas aparentemente convidativas. Excetuando esses casos, é louvável na prostituição a formalização do interesse pelo dinheiro, sem que seja necessário recorrer a intenções imorais para obtê-lo. Sem dúvidas, é muito mais honesto do que recorrer a um casamento!

(Sobre a autora, clique aqui)

Anúncios

10 comentários sobre “Gananciosa, mas não é uma puta

  1. Oi Ayana,
    esse tema é extremamente difícil, pois há um limiar muito tênue entre ambas as situações, a gananciosa e a profissional do sexo. Nas duas o processo emotivo transita pela afetividade, por mais profissional que seja uma GP. Nessa teia complicada de emoções forma-se um espaço muito propício para projeção das carências, e é nesse palco que a GP se comporta como a “gananciosa”. Difícil estabelecer diferenças, mas não desacredito de vc, tampouco de outras garotas exclusivamente profissionais. Noutro ponto, querida Ayana… tenho visto cada coisa… algumas GPs “mega-profissionais” na arte da coptação, vis-a-vis, exploração. São muito competentes em tocar a carência do sujeito e alimentar a confusão emocional ali existente.
    Adoro suas polêmicas,
    mil beijos,
    D.

  2. Preciso ler este blog inteiro para compreender como uma GP, cuja a idade é sentenciada pelos 21 anos, com formação apenas no ensino médio, pode compreender francês, escrever tão bem e ainda, ser deliciosa na cama. O que há? Quanto mais tento compreender o mundo, mais novidades encontro pela internet. Que fascinante!

    • Oi Chevalier!
      Já leu o blog todo? Por favor, não deixe de fazer isso o quanto antes, ok? =P
      Isso porque nem mesmo eu consigo me entender direito. Logo, continuo a escrever até sair um resultado razoável.
      Não vou fazer uma autoavaliação da minha habilidade de escrever e fazer sexo, mas eu admito que são duas atividades que eu faço com frequência. Ando investindo nisso, porque por enquanto é o que me dá um feedback mais positivo (como o seu comentário). Poxa, muito legal!
      Bom, “gracias” por comparecer ao meu blog!
      Beijos, beijos, beijos! E até breve!

  3. Ayana, descobri teu blog recentemente e tenho gostado bastante. Escreves bem e de forma limpa sem redundâncias ou exageros. Também tenho muita estória pra contar sobre este “sub-mundo”, mas nenhuma delas se compara as tuas.

    Parabéns pelo blog!

  4. Caraca, meu, isso tá ficando estranho pracaralho: tô com a casa toda bagunçada, cheia de coisa pra fazer e não consigo parar de ler… bicho, cê acabou de dizer o que eu penso: puta é puta (ou seja: uma profissional batalhando sua grana com honestidade) e mau caráter… é mau caráter mesmo e merece meu desprezo. #prontofalei!
    Sorte e saúde pra todos!

Compartilhe também sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s