Prazer e arrependimentos recorrentes


Um dos requisitos básicos para explorar o plano sexual é ser maliciosa. Fui bobinha durante muito tempo até chegar à extraordinária conclusão de que os homens não têm boas intenções comigo. Eu me deixava conduzir numa boa: acompanhava-os nas bebidas, nas voltinhas de carro, nas conversas íntimas e até me dispunha a fazer sexo. Na minha inocente concepção, eu me configurava como uma companhia ideal para qualquer homem, até porque eu era bastante requisitada por eles. Contudo, “essa menina é uma vadia”! Pois é… e vadias não prestam; logo eles só queriam se divertir comigo. Era um objeto. Sem trocar uma palavra, eles me agarravam por trás, apertavam os meus seios e roçavam o pênis no meu bumbum. Nessas situações, eu só poderia sentir prazer, afinal qualquer outro sentimento me deixaria depressiva. Lamentavelmente, após a euforia manifestava-se o arrependimento, que se reproduzia nos dias subsequentes. Eram sempre os mesmo erros.

Comecei a aceitar esse papel de vadia que eu mesma me impus e que agora não conseguia descartá-lo. Eu me sentia incapaz, porque muitas situações que vivia confluíam para um contexto meramente sexual. Como sempre assumi uma posição passiva, minhas atitudes nada mais eram do que reações às investidas contra o meu corpo. Apenas este se comunicava. As poucas palavras eram sempre superficiais e só se aprofundavam quando o assunto era sexo. Havia muitos outros temas pelos quais eu me interessava, mas não sabia como abordá-los. Ora, em geral, as pessoas não esperam conteúdos muito interessantes provenientes de uma puta. Do meu ponto de vista, também acreditava que não me acrescentaria em nada trocar uma ideia com aqueles que me consumiam. A solução foi deixar um pouco de lado minha racionalidade e permitir que meus desejos sexuais conduzissem as minhas decisões. Talvez uma forma de me desumanizar na hora do sexo para sentir o prazer sem nenhuma culpa.

(Sobre a autora, clique aqui)

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11 comentários sobre “Prazer e arrependimentos recorrentes

  1. Oi princesinha!

    Sei bem como é essa situação, quando o desejo sexual se impõe à nossa mente. Isso aconteceu-me uma vez, e desde então que me venho culpando todo o dia por me ter deixado levar… Odiava aquele moço, tinha discussão com ele dia após dia. Bastou entrar numa sala de aula vazia para estudar sozinha (em meu colégio, salas estão sempre abertas!). O moço vinha atrás de mim, me agarrou, encostou contra a parede e começou a tocar em mim e eu, que o odiava, só sentia prazer com aquilo!! Bem que foi bom mesmo, mas senti-me uma vadia por me ter deixado levar. Nunca mais fiz isso não, tento sempre me controlar!

    Ora bolas, esse post é sobre você e eu ando escrevendo sobre minha vidinha sem interesse… Sou mesmo boba! :P

    Continua fazendo como faz, arcando com o prazer e esquecendo a culpa que sente ao se entregar. No seu trabalho, essa é a melhor opção. É um dilema mesmo, seguir o prazer ou a mente, mas a vida é demasiado curta para ficar ouvindo o “não devia fazer isso”. Um dia seremos ambas velhas e os prazeres de hoje serão recordações maravilhosas mais tarde! Vai ver que até se vai rir de tudo isso e de como aproveitou cada prazer que lhe proporcionavam!!

    Beijinhos
    Soraia

    • Olá Soraia!
      Eu acho bem legal você apresentar a sua “vidinha sem interesse”, porque eu sempre fico curiosa para trocar experiências com outras pessoas interessantes como você =)
      Num primeiro momento eu até tento resistir às investidas, mas geralmente não consigo porque isso já aconteceu tanto na minha vida que não parece que um a mais ou a menos não fará mais diferença.
      Eu concordo com você no que se refere à aproveitar o prazer (talvez este seja o pensamento básico da minha vida). Eu já me recordo de uma forma positiva algumas experiências tensas que eu tive na minha juventude. Pelo menos eu não deixei de fazer muita coisa que tive vontade. Enfim, temos mais é que aproveitar mesmo ^^
      Fiquei contente depois que li sua opinião, porque deixei de me sentir muito culpada.
      Novamente, fico grata pela sua visita!
      Um beijo carinhoso! E até mais!

  2. Olá Ínfima,
    Confeço que suas narrações me prendem a todo o seu mundo.
    Nunca conheci alguém tão admirável como vc (com exceção da minha mãe). No começo, quando comecei ler os seus posts, foi só por curiosidade, mas agora é diferente. Me identifico muiitissimo com vc, embora não tenha coragem de viver as experiências que vc já viveu, ma é como se fosse o meu eu oculto, alguém que quer fazer tudo o que vc faz, sem preconceitos e arrependimentos.

    Pode ter certeza que eu estarei sempre por aqui. Espero que nos tornemos boas amigas!

    Obrigada por confiar em nós, seus fiéis leitores.

    Até breve!

    • Oi, Ana!
      Fiquei muito contente com a sua visita e mais ainda com o seu comentário.
      Eu acho incrível que haja mulheres que se identifiquem com as minhas decisões, porque eu vejo muitas reprimirem seus desejos sexuais. Claro que eu não devo ser exemplo para ninguém, mas eu fico satisfeita de saber que as minhas experiências podem acrescentar alguma coisa na percepção de quem as lê.
      Bem, se depender da minha vontade, seremos sim boas amigas! Ficarei aguardando sua carinhosa visita por aqui mais vezes =)
      Beijinhos, beijinhos, beijinhos!
      E muito obrigada!

  3. Oi, vc conhece o poema A Tabacaria do Álvaro de Campos? Lembrei desse poema ao ler essa sua postagem. Principalmente dos versos :

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.

    Ou eu não entendi nada?

  4. Já parou pra pensar que fim teria levado sua vida caso a sociedade não fosse tão machista?
    Muito interessante o texto e sua densidade psicológica, já leio seu blog há algumas semanas e hoje resolvi ler textos antigos. Faço acompanhamento com terapeuta, e muito do que você relata me faz lembrar de mim mesma – de partes que eu até tinha esquecido sobre mim.
    Obrigada por compartilhar! Te acho sensacional pelo que li <3

    • Olá, Mey!
      Se a sociedade não fosse tão machista, eu não precisaria escrever anonimamente. Indo um pouco além… provavelmente eu também não estaria nesta profissão.
      Eu que lhe agradeço pela visita! É muito bom saber que há pessoas que se identificam comigo =)
      Beijinhos!

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