Esclarecimentos de como era minha vida


Algumas pessoas ficam intrigadas com a minha decisão de me entregar à prostituição, ainda mais se considerarmos as minhas origens: uma família da elite brasileira. Tudo bem que essa história pareça bastante trivial, mas como se trata da minha vida não vou ficcionar os detalhes para deixá-la mais interessante. Já ouvi o passado de algumas outras colegas de profissão e em boa parte dessas histórias consta a ocorrência de algum conflito familiar. Bem, no meu caso, penso que essa especificidade fora determinante para eu me envolver na indústria do sexo.

É praticamente uma heresia: uma garota, que tinha todas as oportunidades de construir uma carreira bem-sucedida em alguma profissão renomada, optar por trabalhar na marginalidade. As minhas primeiras motivações surgiram a partir de uma revolta imatura de uma adolescente. “Se meus pais não se importam comigo, então farei todas as coisas erradas que eu puder”. É uma declaração perigosa, porque eu tinha condições de financiar meu consumo de festas, álcool e drogas (sexo era possível obter de graça em cada esquina). Mas o que mais facilitou minha inserção na libertinagem foi simplesmente a ausência de alguém para impor alguns limites. E este já foi o tema de muitas e muitas brigas.

Bom, minha família sempre foi bastante desestruturada, durante alguns anos eu era o único elemento que mantinha meus pais unidos. Foi só eu ficar um pouco mais velha para a minha mãe resolver ir embora. Pouco mudou. Antes disso, eu já passava a maior parte do tempo sozinha em casa. Não me lembro muita coisa dessa época, porque não acontecia nada de muito marcante na minha vida. Suponho que eu achava natural ficar sozinha, já que toda minha criação sempre foi um pouco distante dos meus pais.

Mas ainda poderia me distanciar bem mais, e isso foi quando comecei a passar a maior parte do meu tempo na rua ou na casa de outras amigas. Só retornava à minha casa para dormir e às vezes para almoçar. Bom, acontece que essa situação não produzia nada novo. Afinal, a minha intenção não seria me afastar do meu pai? Pois então, não adiantava nada me ausentar quando ele mesmo não estava presente. Então o melhor horário para que ele pudesse notar a minha falta era a partir das dez horas da noite. E foi nas madrugadas que eu encontrei a perdição.

(Sobre a autora, clique aqui)

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9 comentários sobre “Esclarecimentos de como era minha vida

  1. Uau, simplismente amei teu Blog… super envolvente, inteligênte, encantador; mesmo dentro de um contexto polêmico e complexo à minha ótica.

    Parabéns, este estará entre meus favoritos agora. rsrs

    1 Beijo e muita sorte.

    Fabiana.

    • Oi, Fabiana!
      Ainda que seja um tema complexo e polêmico para boa parte da sociedade, eu tenho a intenção de expressar de uma forma diferente, bastante pessoal, os meus sentimentos referentes a sexo, prostituição e afins. Agora que o blog está entre seus favoritos, tentarei deixar de ser um pouco preguiçosa e darei mais atenção a ele ^^
      Seja bem-vinda e volte sempre!
      Beijinhos! =*

  2. Já conversei bastante contigo no msn sobre sua relação familiar, sua história e confesso que ela é intrigante. Passaria horas conversando contigo sobre isso, então eu sempre gosto quando você fornece mais informações. Acho meio “voyerismo” de minha parte, mas sou fascinado por comportamento humano e por constatar o quão longe algumas pessoas podem chegar (no caso, me refiro à relação de seus pais contigo, que classifico como desastrosa). Não estou aqui emitindo sentenças, condenando ou absolvendo, apenas constatando o fato. Eu fico pensando como seus pais passam seus dias e quais são as estratégias que eles adotam pros momentos em que caem em si: “não falo com minha filha há anos…. o que ela está fazendo?…” Porque, tenha certeza, em algum momento este pensamento passa pela cabeça deles, não importa o quão traumático tenha sida a separação de vocês, ou o quanto de ódio que ela fez aflorar (no que particularmente não acredito, não sei te dizer porque, apenas pressinto…). Enfim, acho que escrever sobre isso é ainda mais íntimo, mais revelador do que suas experiências sexuais. E fico sempre torcendo para que você conte mais sobre isto… mas, claro, entendo se você não quiser se abrir assim.

    Beijos!

    • Oi, Marcelo!
      Bem, eu queria acreditar que meu conflito com meus pais terminou quando eu deixei a casa deles e decidi não procurá-los mais. Só que eu vejo, por meio dos vários textos em que faço referência a els, que isso é um assunto muito mal-resolvido na minha vida. Eu imagino que eles devam pensar em mim, mas não sei se realmente eles me reconhecem como uma filha. Também não tenho ideia do que pensam sobre mim, porque na época em que mantínhamos contatos eu estava mais interessada em atacá-los do que entendê-los.
      Bom a gente pode conversar mais sobre isso se você quiser e ainda pretendo escrever outros posts sobre a minha família.
      Obrigada por se atentar à minha história familiar desastrosa! Beijinhos e até mais!

  3. Nossa, eu estava procurando informações sobre pessoas que leem o jornal Le Monde Diplomatique – pretendo fazer assinatura da versão impressa, odéio ler em mídia eletrônica, sabe?! -. Mas encontrei o seu blog também, muito legal. Você escreve muito bem, viu. Você deve gostar de leitura. Então é isso. Com muita consideração ao seu Blog, abraço. Sucesso.

    • Oi, Marcelo!
      Eu adoro o Le Monde, mas eu tenho que lê-lo em doses homeopáticas para não me dar dor de cabeça. Ultimamente eu tenho lido a versão na internet, já que eu passo boa parte do meu tempo de frente para o computador.
      Pelo que eu vejo pelos mecanismos de busca, muitas pessoas descobrem o meu blog de maneira inesperada. E surpreendentemente, algumas delas, como você, voltam outras vezes. Poxa, isso é muito legal, viu!
      Obrigada por vir prestigiar o meu cantinho!
      Beijos, beijos e até a próxima!

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