O vaso que não se quebrou


As vezes em que me entreguei sexualmente, sem restrições, a dominações sadomasoquistas se passaram nos meus frequentes períodos de crise autodestrutiva. As dores e as humilhações compensavam minhas frustrações por ser rejeitada pela minha família, por muitas pessoas com as quais tive relações sexuais e por mim mesma. O limite entre prazer e repressão era muito tênue, e muitas vezes esses sentimentos manifestavam-se simultaneamente. Uma grande contradição, afinal as lágrimas não poderiam ser recompensadas por um orgasmo. A intenção era me reeducar, porém minha natureza masoquista sempre me pressionava a tomar decisões irresponsáveis. E assim, exprimia toda a minha revolta… contra mim mesma – foi o que descobri recentemente.

Eu estava muito próxima a um dejeto humano, sentia que o meu corpo jamais estaria limpo. Consciente do meu pertencimento aos estratos mais inferiores, não raramente, sentia-me incapacitada até mesmo de servir às atividades mais degradantes, como lamber os pés da minha dona quando estivessem sujos. Eu era a vadia, a drogada, o verme, o lixo, a merda. Sinceramente, não sei se ela realmente me desprezava, ou se tudo isso fazia parte de uma fantasia muito realista. Pela sua forma de falar comigo, sentia que guardava algum ódio pela minha miséria, que era traduzido em sessões de torturas físicas e humilhações. Eu estava certa de que um dia ela iria me machucar e, ansiosamente, esperei por este momento.

Só me sentiria realmente castigada se minha dor proviesse de algum ferimento. Era uma convicção de que não sentiria qualquer prazer e caso ficasse traumatizada, pelo menos, não iria incorrer os mesmos erros. Na verdade, eu não tinha uma noção razoável do mal que poderia infligir contra meu corpo. De certa forma, eu o repudiava, como se ele fosse o responsável por toda minha desmoralização. Mas mesmo com todo esse sentimento destrutivo, também sentia muito medo dos possíveis desfechos trágicos. Só que o medo também estimula meu prazer, tanto que, quando era mais jovem, fantasiei algumas situações de estupro. Contudo, dizem que vaso ruim não quebra, e isso me trazia alguma segurança. Também se quebrasse, não faria falta a ninguém.

(Sobre a autora, clique aqui)

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16 comentários sobre “O vaso que não se quebrou

  1. Eu acompanho seu blog desde abril do ano passado, ou seja, quase desde o começo. Neste período dá pra contar nos dedos os dias em que não o visitei. Já li todos os seus posts, alguns várias vezes. Já conversamos bastante no msn. De tudo isso, acho que posso dizer que te conheço relativamente bem, mesmo limitado a este mundo “virtual” que usamos. Pois bem: a sua capacidade de formular um discurso cheio de conteúdo auto-analítico é admirável. Este post é só um dos inúmeros exemplos. A forma como você se vê e sua habilidade em se expressar com rigor, sem escapismos auto-indugentes, é uma das suas maiores qualidades. Eu fico realmente incomodado com o fato de você não aproveitar isso numa terapia com um profissional sério e capacitado. Veja bem: você não precisa ser “curada”, mas você pode ter um ganho enorme de qualidade de vida quando um profissional competente te mostrar que esta sua associação de prazer com humilhação, que descamba inclusive para a agressão física, não tem porque perdurar. Como quase tudo em nossa vida, e isso vale pra qualquer pessoa, isso é uma percepção da sua mente, do seu modelo mental. Acredite: você muda isso com mais facilidade do que você possa imaginar e mais: sem que você sinta que você estará abdicando de um prazer; que se você deixar de gostar de se humilhar ou de se mutilar isso implicará em uma “diminuição” do prazer que você sente fazendo isso. O que uma terapia te mostraria é que, mudando alguns comportamentos, a sua percepção, ou mais tecnicamente, teu modelo cognitivo, também mudará e aí as coisas que te darão prazer não serão mais vinculadas com estes atos que te machucam (física e psicamente). Mas outros mais saudáveis à sua integridade física e emocional plenas. E isso não tem nada a ver com, por exemplo, deixar a prostituição.
    Cara, na boa: pensa nisso. É mais simples do que você pensa. Você já me disse que não viu muita vantagem numa experiência anterior com terapia. Mas existem terapeutas e “terapeutas”. Como em tudo, profissionais sérios e charlatões. Não descarte a priori esta ideia. Tenho certeza de que mais perto do que você imagina, tem um profissional sério que ficaria impressionado com o teu caso. Sua experiência é riquíssima em termos psíquicos. E você passaria a enxergar coisas que estão a um palmo do teu rosto, mas que simplesmente teu modelo mental não permite enxergar.

    Beijos e te cuida, pombas! E correção: tu não é vaso ruim não, é porcelana fina. E muito diferentemente de vaso ruim, quebra sim com muita facilidade. Não quebrou ainda por pura sorte. E olha: vai fazer falta pra muita gente sim… seus leitores estão aí pra não me deixar mentir.

    • Mpborges, concordo em gênero, numero e grau. Não poderia ter dito melho. E o seu comentário sobre haver terapeutas e “terapeutas” me lembrou uma vez que eu ia experimentar uma terapeuta nova e logo na primeira (e única sessão) percebi que ela tentava me converter para a religião dela (sou agnóstico) como solução de todos os meus “problemas”. Eu quase gargalhei, agradeci educadamente e ela nunca mais me viu…

      • Pois é, David, a que ponto a coisa chega, não? Infelizmente este é o nível de uma grande parte dos “profissionais” da área… Isso sem falar de um monte de outros espertos vendendo ilusões. Nada contra religião, esoterismo, auto-ajuda, terapias alternativas, etc desde que se dê o nome correto pras coisas. Você fez o certo: neste caso não existe uma segunda chance.

    • Oi, Marcelo!
      Eu devo ter lido esse seu comentário pelo menos umas dez vezes e ainda fiquei muito tempo refletindo. Eu estou pensando seriamente em buscar ajuda de um terapeuta. Antes eu achava que não era mais necessário, porque eu estou vivendo uma fase da minha vida muito boa se comparada a outras épocas. Contudo, eu ainda sinto que meus sentimentos são bastante desequilibrados. Confesso que eu não busquei ajuda antes, porque mesmo quando eu passo por experiências mais destrutivas, existe uma associação ao prazer. Não sei se quero perder isso, mas espero que a terapia me ajude a clarear um pouco mais as minhas ideias.
      Agradeço de coração o seu conselho (elas já me acrescentaram muito). Para retribuir também vou te dar uma dica: você deveria trabalhar menos, porque sinto falta dos seus comentários e das nossas conversas =P
      Beijos, beijos!

      • Fico muito feliz que eu te faça refletir e volto a dizer, sem qualquer conotação de pressão, é você que tem que sentir esta necessidade: procurar um terapeuta no teu caso independe de estar “bem” ou “mal”, melhor ou pior do que no passado. Provavelmente hoje vc está mesmo melhor do que há alguns anos. É muito mais para falar. Isso mesmo: falar. Parece simples de mais, não? Mas para mim é bastante nítido que você não tem interlocutores no seu cotidiano que estejam abertos a te ouvir, aceitar e se interessar genuinamente pelas suas experiências. É com um terapeuta que você poderia explorar muitas coisas da sua personalidade que são muito ricas. E te ajudar a encontrar este equilíbrio de que falou. Suas experiências atuais e do passado são realmente complexas e é natural o teu sentimento de desajuste. Além disso, as pessoas “normais” não estão mesmo preparadas para conviver com a tua singularidade. Não vou entrar no mérito se nossa sociedade é atrasada, moralista ou rígida. Eu acho que é, mas é inútil lutar contra isso na esfera individual: ninguém sozinho muda o mundo. Os outros são, numa única palavra, muitos. Quanto ao medo de perder as associações que você faz entre destruição e prazer, ora… isso nem de longe deve ser um programa de terapia. Esta é muito mais complexa do que isso e o seu desenvolvimento se dá da interação entre o falante e o terapeuta (perceba que não usei a palavra paciente) que juntos definem os objetivos que irão buscar. Tenho certeza de que te fará muito bem.

        E você e o David estão certíssimos: trabalhar demais não leva a nada. Agradeço muito a atenção. :-)

  2. “as lágrimas não poderiam ser recompensadas por um orgasmo”.

    É realmente muito contraditório, mas vai explicar? É muito estranho, irracional sentir prazer através da dor. Não apenas dor física, porque humilhação também causa dor.

    “…E assim, exprimia toda a minha revolta… contra mim mesma – foi o que descobri recentemente”

    Acho que a resposta está no autoconhecimento. Quanto mais a gente se conhece, mais entende os motivos pelo qual tomamos certas atitudes. Nunca fiz terapia, mas às vezes dá vontade de fazer.

    Há pouco tempo eu descobri porque me prostituo. Ou talvez, apenas a “ponta do fio do novelo”. Apesar de todo o amor dos meus pais, um amor talvez até “exagerado”, que me fez ser tão mimada. E meninas mimadas são sabem ouvir não, não aceitam rejeição. Ser rejeitada pelo meu primo (meu primeiro amor), me tornou uma menina cruel. De tanto que ele me usou, eu resolvi que usaria também, faria dos homens apenas objetos. Mas na verdade acabei sendo cruel comigo mesma, pois quem usa acaba sendo usada. Comecei a me prostituir na intenção de correr e contar pro primo… “olha o que vc fez, olha no que me tornei… não era isso o que vc queria? agora sou uma puta de verdade”.

    Por que será que a gente acaba alimentando esses sentimentos autodestrutivos e até se escravizando? eu me pergunto… se uma relação me faz mal, por que continuo envolvida? Se eu sei que algo me faz mal, porque eu continuo usando?

    Ayana, me identifico tanto com o que vc escreve, já disse isso, né? Mas é verdade. Como sempre, parabéns pelo texto!

    • Oi, Rafa!
      Bom, eu acompanho todos os posts do seu blog e eu acho que a gente compartilha de sentimentos muito similares, por mais que tenhamos motivos diferentes para se prostituir. Eu sempre gosto de fazer comparações (não no sentido qualitativo) e quando você escreve que decidiu se prostituir para depois contar com o seu primo, eu penso que, no meu caso, eu quis muito que o meu pai soubesse sobre os ambientes que eu estava explorando. Hoje não tenho essa vontade. A intenção era que ele se sentisse responsável, mas não, como você escreveu, somos nós que acabamos por nos machucar.
      Admiro muitíssimo (íssimo, íssimo) você, minha linda!
      Beijos, beijos, putinha! =*

  3. Ayana, sabes que ao ler o livro de que falei em algum dos meus comentários anteriores (acabei de o ler, inteirinho, e aconselho), descobri que muitas mulheres têm a fantasia do estupro. Fiquei inicialmente abismado. Como uma mulher pode fantasiar com um ato tão hediondo? Alguns ingredientes do ato eu até consigo entender: o perigo, a força, a dor, o sentimento de estar à mercê – todas sensações que tenho aprendido ultimamente ser fonte de prazer sexual. Mas com o decorrer da leitura das fantasias percebi uma coisa importante: na fantasia a mulher tem o controle. É uma fantasia, uma historia ou contexto imaginário criado voluntariamente para estimular o orgasmo. Contrariamente ao que aconteceria se o ato acontecesse realmente, na fantasia ninguém se machuca, morre, engravida. Mas foi interessante conhecer essa fantasia partilhada. Eu não fazia ideia.

    • Olá, David!
      Pode ser impressão minha, mas você sempre se atenta aos detalhes mais polêmicos. Aí eu acabo escrevendo demais e me comprometendo. =P
      Obviamente, estupro não é uma prática sexual, mas sim de violência. Bom, a verdade é que certas vezes, eu me senti violentada durante as relações sexuais, por não aceitar algo e, sendo mais fraca, sendo vadia, eu não tinha como reagir. É um situação horrível. Fato. Falando por mim, mesmo diante disso, houve momentos de prazer. =X
      Enfim… obrigada, mais uma vez, pela visita! Beijos!

  4. O Mpborges falou tudo e mais um pouco. E, reitero o que ele disse, usando a tura frase “consciente do meu pertencimento aos estratos mais inferiores”. Ou seja, aí está a prova de que não estás tão “consciente” assim. Por teus desejos sexuais “estranhos” ou tua profissão, te consideras de um “nível” inferior? Bem, só na tua cabeça. E, mudando a mentalidade, como disse o Mpborges, muda esse teu conceito sobre si mesma, e, daí pra diante, são só poucos e pequenos passos. Porém, tudo tem de partir de ti mesma, se quiseres, conseguirias. E, mesmo achando que não conseguirias, não custa tentar.

  5. Estão levando a literatura dela muito ao pé na letra. Digo isso sobre o pertencimento aos ‘estratos inferiores’… Não signifique que ela realmente ache isso da forma como foi escrita. Figura de linguagem existe minha gente.

  6. Oi princesinha,

    Como muitos já aqui referiram, também eu concordo com Mpborges. Não vou comentar muito mais porque acho que ele disse mesmo tudo. No entanto, queria dar um conselho: leia o livro “Onze Minutos” de Paulo Coelho. É uma história (penso que fictícia) de uma rapariga que foi para a prostituição. Nada a ver com o seu caso, ela nem sequer gostava de sexo, foi enganada pensando que ia ser modelo. O que me leva a aconselhá-lo é que lá fala muito bem de como ela se sentia com o masoquismo. Um cliente pediu para a maltratar e ela adorou. A partir daí há uma longa explicação do assunto que aborda até o que realmente nos motiva ao masoquismo e o que realmente ele é. Sim, é uma fonte de prazer, mas às vezes damos por nós tão machucadas que já nem sentimos dor e apenas uma espécie de tranquilidade. Faz uma pessoa pensar, acho que deveria ler. ;)

    Muitos beijinhos para você, princesinha, se cuide!! Gosto muito de você!
    Soraia

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