O falso atalho para a maturidade


Desde que comecei a ter sérios problemas familiares, decidi que deveria amadurecer o quanto antes. A intenção era sair de casa assim que completasse meus 18 anos, e foi exatamente isso que ocorreu. Só que na minha equivocada concepção, amadurecer denotava agir como uma adolescente maior de idade, ou seja, era quase um sinônimo de ir a baladas, me embriagar e fazer sexo. As responsabilidades ainda eram as de uma criança: basicamente tirar boas notas no colégio, sem me preocupar muito com meu comportamento ou com a frequência em que assistia às aulas. O fato de meus pais terem sido muito ausentes durante minha juventude ofereceu-me uma liberdade quase plena, muito embora diversos produtos e ambientes que eu consumia fossem restritos a maiores de idade.

A partir das vivências que tive com pessoas mais velhas, minhas ideias começaram a se distanciar bastante dos assuntos cotidianos discutidos pelas minhas amigas do colégio. Seus questionamentos a respeito de masturbação, virgindade e sexo oral me pareciam muito ultrapassados, dúvidas de menininhas imaturas que temiam experimentar a realidade. Na prática, elas simplesmente estavam respeitando o tempo certo para cada nova descoberta. No meu caso, não tive muitas boas referências de como deveria regrar minha vida. A que destino essa intensa exploração de festas, sexo, bebidas e drogas iria me levar? A longo prazo eu não estava certa, mas naqueles instantes, pelo menos, me distanciavam de alguns problemas.

Mesmo após fazer alguns pequenos programas, ainda rejeitava a ideia de me tornar prostituta, afinal nunca havia passado por problemas financeiros, nem tinha muita dificuldade de encontrar um homem disponível para transarmos. Muito simplório o juízo que tinha nessa época: “Essas putas só se interessam mesmo pelo dinheiro”. E eu era uma anarquista hipócrita que pregava o fim do capital, porque não enxergava claramente a maneira como me apropriava do patrimônio da minha família. Contudo, quando eu tinha 17 anos, meu pai cancelou minha conta no banco para evitar que eu saísse à noite. A atmosfera era de conflitos, e assumi essa ofensiva como uma oportunidade para provar que não necessitava de seu financiamento. Não pensei em nenhuma alternativa a não ser expor o meu corpo e vendê-lo..

(Sobre a autora, clique aqui)

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3 comentários sobre “O falso atalho para a maturidade

  1. Em todos os textos em que você faz referência aos seus pais, é sempre deixando clado que eles foram muito ausentes. É realmente complicado ter pais ausentes, mas acho que você ainda não conseguiu superar isso e perdoá-los. Acho que vai te fazer um bem enorme quando conseguir perdoá-los.

    Eu não posso reclamar de ausência. Meus pais sempre trabalham fora e muito, mas o lema lá em casa sempre foi “se não podemos dar atenção em quantidade, seja então na qualidade”. Meu pai sempre fez questão de jantar com a família e reunir todos, era o único momento que poderia ter todos reunidos. Eu não dava muito valor a isso, mas hoje vejo o quanto foi importante na minha educação.

    Meu pai não foi ausente, mas bem rígido.Quando ele fala não, esta é a palavra final, não tem espaço para argumento. Lá em casa, com excessão da minha mãe, a única que o desafiava era eu. E eu era taxada de revoltada. É muito fácil rotular uma pré-adolescente de revoltada. Já a minha mãe é o oposto, é meiga, terna, com ela sempre teve muito diálogo, sempre fomos muito amigas. Talvez se não fosse ela, eu teria sido muito mais revoltada.

    Meu pai nunca cortou meus cartões, minha mesada. Mas ameaçava sempre quando eu dizia que sairia de casa. Em todas as vezes em que disse que moraria sozinha, a resposta era sempre a mesma: “se sair, será por sua conta e risco”. Nunca tive essa coragem. E, quando saí de casa (hoje moro sozinha), foi com a bênção do papai. Achou que isso me faria bem, me daria responsabilidade, mas continuou pagando minhas contas, embora eu prefira ganhar o meu próprio dinheiro.

    Admiro você, sua coragem. Você escolheu o seu caminho e assumiu toda a responsabilidade por ele. Mesmo que de início você nem fizesse idéia do quanto seria difícil assumir a sua escolha. Nossa, escrevi bonito rs!

    Mas não podemos colocar a culpa dos nossos sucessos ou fracassos na família, até porque temos a liberdade de escolher o nosso próprio caminho.

    Você e eu acabamos amadurecendo muito cedo, pulamos etapas. Às vezes eu penso nas consequencias de algumas escolhas que fiz. Por outro lado, eu penso se faria algo diferente. E chego a conclusão de que se pudesse mudar alguma coisa no passado, eu nada mudaria. Porque aprendi, amadureci, mesmo pulando etapas, mas amadureci.

    Nossa, seu texto me fez viajar… já escrevi demais.

    Sempre fico impressionada com a sua forma de se expressar e de ver o mundo. Bjo da sua fã!!

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