Agora com muitos beijinhos!


Nunca tive uma visão deslumbrada da prostituição, pelo contrário, parecia-me um ambiente muito sujo. As riquezas materiais jamais me seduziram, queria erotizar por completo a minha vida, porque naquela época eu havia perdido todas as outras identidades, exceto a de uma vadia. Durante alguns meses, resisti à tentação de recorrer ao sexo para gerar renda, mas eu juro que trabalhar num supermercado não foi uma experiência muito motivadora para a minha carreira profissional. Ora, já tinha várias referências de que era muito boa de cama, pois então, ser garota de programa seria brincadeira de menininha, para quem já se sentia o máximo da libertinagem.

Brincadeira de verdade era o que eu fazia nas licenciosas baladinhas: chupava alguns no banheiro e terminava num outro canto dando a xana e o cu. Agora, estava dentro do mercado (informal) de trabalho, e as regras não são mais tão flexíveis às minhas vontades. Pouco a pouco, perdi a posição de comando para ser subjugada, às vezes com alguma agressividade. Não vou julgar os meios! Interessa é que, no final das contas, eu me adaptei à atividade e me reconheci verdadeiramente como uma profissional do sexo! Conviria até uma comemoração! Incrivelmente, alguns velhos pudores foram reconfigurados para compor minhas fantasias sexuais.

Os critérios físicos não eram prioritários quando eu decidia com quem faria sexo. Se o sujeito não era bonitinho, pelo menos não era velho. Depois de me colocar no cardápio, muitos tiozinhos me comeriam, entretanto, geralmente era eu quem ficava com um sabor meio indigesto na boca. Confesso que, no início da minha carreira, sentia nojo de alguns clientes, principalmente da boca e do ânus. Adorava quando chupavam minha boceta, ficava um pouco aflita quando lambiam as outras partes do meu corpo e sentia uma enorme repulsa quando tentavam me beijar. Na época, não aceitava de forma alguma ser beijada, mesmo se meu parceiro não fosse tão horrendo assim.

Antes de sair distribuindo beijos calorosos para deus e o mundo, um exercício importante para alterar minhas representações de repugnância foi lamber e chupar alguns clientes, estendendo a área umedecida para além da região fálica. Às vezes, eram os pés, o bumbum, os mamilos e, quase sempre, o cu. Sério, sentia muito mais aversão por uma boca do que por um ânus! Era comum ser tomada pelo remorso, quando minha mente desenterrava alguns sujeitos que eu chupara. Esse sentimento ficaria me atormentando eternamente caso não redefinisse ou superasse minhas aversões. Pois bem, uma vez que estava na lama, agora tinha mais é que me sujar!

A partir daquele momento – isto é, quando um cliente charmosinho me contratou – aceitei beijar minhas companhias durante o programa. Não era tão ruim quanto eu previa. Na verdade, sempre que nossos lábios se tocavam, automaticamente eu fechava os olhos. E algumas vezes ainda tentava esquecer ou pensar que tudo aquilo era natural e que não tinha significação alguma. No entanto, era muito descarado o meu desconforto diante desse tipo de situação, ainda mais porque, depois, ficava mais difícil encarar meu parceiro. “Bom, você já colocou a boca em muita coisa, não?” Retoricamente, é um argumento bem falacioso e ao mesmo tempo muito eficiente. Ou então: “você já fez um monte de coisa muito pior!” Portanto, foda-se! “E não vai se esquecer de beijar bastante, viu?”

(Sobre a autora, clique aqui)

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16 comentários sobre “Agora com muitos beijinhos!

  1. Certa vez vi um colega relatando: “a prostituta me chupou gostoso, mas quando pedi pra me beijar ela relutou e depois deu uma disculpa esfarrapada” …
    Na êpoca não entendi. Pois, qual seria o motivo pra uma mulher chupar com toda a vontade. Meter a boca num pau sem medo, mas não querer um simples beijo? Talvez agora possa entender melhor a situação que meu colega falava. No seu caso (posso estar errado) você procura é justamente não ter uma intimidade com quem te contrata. Apesar das intensas relações sexuais, acho que foge um pouco das relações sociais.

    Quero te parabenizar pelo post e pela coragem de se abrir aqui. Me desculpe se eu estiver errado quanto a você, mas é o que penso.
    Espero ansiosamente pelo próximo post…
    bjs

    • Pelo post da infima princesinha não tem nada a ver com intimidade, mas com nojo mesmo.

      E eu entendo perfeitamente. Não foi uma nem duas mulheres que eu preferia fazer sexo oral nela do que beijar. Eu acho que pra ter vontade de beijar a gente tem que sentir mais tesão, ou ter uma atração forte, do que pra fazer sexo.

      • Não aceito concorrência no nick, kkkkkkkkk

        o primeiro observador a aparecer por aqui, até onde me lembro, fui eu. Portanto, vai buscar outra identidade.

        Mas voltando ao assunto. Acho que nojo e intimidade caminham juntos. É mais fácil sentir nojo de quem não se tem a mínima relação, pelo contrário quando você é intimo de uma pessoa, a sua percepção modifica
        Mas esse é um debate em aberto,

        até e mude o nick, rsrsrsrs

  2. Boa tarde… Pela 2ª vez por aqui… Gosto de ler tua inteligência em palavras… Admirável… Não somente pelas putarias (que adoro!), mas o fato de se mostrar através de palavras; seja quem for aí deste lado, está de parabéns…

  3. Vai Entender…
    Dá o CU e não beijar na boca.
    Pelo o que eu entendi faz Beijo Grego nos clientes mas não quer beijar na boca.
    Puta que não beija na boca é FODA.
    Demostração mais que esse de NOJO do cliente naõ tem.
    Rodrigão.

  4. Cai por acaso aqui e me sinto meio que fascinado pelo que eu li. Doses de franqueza com um dominio da escrita. Incrivel como soa algo verdadeiro, ainda que não seja. E ser ou não mal importa. O que importa é que esse blog é realmente muito diferenciado e interessante.

    Vida longa aos bons e as boas como voce!

    beijos!

  5. vc tem que virar escritora!é isso mesmo olha,vc escreve mt bem,vai fazer um filme nao digo pornô,digo filme mesmo,digo livros,novelas…Vc tem MUIIITO TALENTO!nao consigo acreditar que vc seja garota de programa……

    • Oi, Leviatã!
      Acho que prefiro fazer uma carreira como blogueira mesmo, só não pensei ainda como poderia ganhar dinheiro com isso. Não queria me tornar comercial, até para não expor muito a minha vida. Mas livros, filmes, novelas… hmmm… sei lá…
      Obrigada pelo seu comentário!
      Beijinhos e até mais!

  6. Acho que é uma questão de higiene corporal e também tesão por essa ou aquela parte. Cada pessoa tem suas preferências na hora do sexo; não dá pra questionar ou criticar; é uma questão de respeitar mesmo que não concorde. Por isso uma boa conversa antes de trepar é sempre salutar; e dá para conciliar; chegando assim a um bom termo para todos; não se estraga uma boa trepada com pormenores. Afinal, o importante é gozar, gozar e gozar. O resto é bobagem!!!!

    • Oi, Ari!
      Acredito que no meu caso, como eu já tinha umas preferências não muito comuns, foi bem mais fácil de aceitar as fantasias dos meus clientes. Mesmo que de início eu tivesse alguns receios, o fato de eu as aceitar me proporcionou novas formas de obter prazer. É sempre um movimento de se redescobrir nas relações sexuais ;)
      Beijinhos, beijinhos!

  7. Sabe Ayana, não costumo pensar em morte ou como irá acontecer a minha, prefiro curtir pra fazer valer à pena. Mas as vezes me pego pensando em como seria interessante que ao morrer de morte não-súbita pudesse pela última vez ter em torno de mim, todas as garotas com as quais trepei e com a aquelas que certamente treparei por muitos anos que ainda viverei. A verdade é que sinto um carinho muito grande por elas em grande maioria. Não veja como algo mórbido, seria apenas algo inusitado. Muita saúde e muito tesão! Beijos.

  8. CRÍTICA *****COMO O SEXO E SUA PRÁTICA SÃO IMPORTANTES NA VIDA DE QUALQUER PESSOA.
    por Pablo Villaça
    Dirigido por Ben Lewin. Com: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, W. Earl Brown, Adam Arkin, Ming Lo, Rhea Perlman.
    Graças às religiões, a mais natural, comum e necessária atividade envolvendo adultos que se sentem atraídos um pelo outro se tornou um tabu pavoroso. Basta observar que um filme pode conter pessoas sendo dilaceradas por balas e executadas a sangue frio para receber uma classificação indicativa “16 anos”; inclua um pênis em cena ou uma franca simulação de sexo, porém, e apenas maiores de 18 anos poderão entrar no cinema. A lógica deturpada parece ser a de que é mais aceitável provocar dor do que prazer em outro ser humano.
    Isto nos traz a este As Sessões e à história (real) do poeta Mark O’Brien (Hawkes): vitimado pela poliomielite e preso a um pulmão de ferro por décadas, o sujeito levava uma existência miserável e solitária por natureza, observando o mundo sempre de lado a partir de sua maca enquanto datilografava seus textos com o auxílio de assistentes ou de um pedaço de madeira preso pelos dentes. Sem jamais ter experimentado o sexo, O’Brien finalmente decidiu que poderia fazer algo a respeito quando se viu chegando aos 40 anos de idade e percebeu que seu “prazo de expiração” se aproximava – mas mesmo então (ao menos, segundo o belo roteiro do diretor Ben Lewin) precisou primeiro lidar com sua própria culpa católica antes de permitir que seu debilitado corpo sentisse algum prazer.
    Envergonhado por perceber o próprio tesão, o sujeito inicia sua trajetória escrevendo um artigo sobre deficientes físicos que encontraram maneiras de explorar as possibilidades sexuais que muitos julgavam fora de seu alcance, sendo admirável a maneira franca e adulta com que o filme lida com estas questões, evitando o sensacionalismo sem, contudo, fugir da realidade de seus personagens (chegando a incluir deficientes reais na narrativa, o que é admirável por fugir da tendência de Hollywood de maquiar as histórias que aborda através da fantasia).
    Assim, quando Mark procura o padre local para pedir permissão para suas “aventuras”, é comovente reparar como o pároco coloca sua humanidade à frente do dogma, buscando oferecer conselhos que realmente ajudem o rapaz em vez de confundi-lo ainda mais através da culpa ditada pelo credo. Vivido com imensa sensibilidade por William H. Macy, o padre Brendan é um homem essencialmente bondoso que se vê numa situação difícil: por um lado, não quer proibir Mark de pagar pelo sexo; por outro, sente que a religião que professa não poderia permitir tal “pecado” – e sua resposta é tocante justamente por representar um sacrifício tão patente diante de sua formação e de suas crenças.
    Enquanto isso, John Hawkes, tão habituado a viver tipos ameaçadores ou simplesmente bizarros, aqui compõe um personagem absolutamente frágil e vulnerável: sibilando ao respirar, conversando com a voz sempre sufocada e mantendo o corpo imóvel em uma posição arqueada de paralisia, o ator evoca com talento a insegurança, o medo, o desejo e a curiosidade de Mark, estabelecendo uma química eficiente com Helen Hunt, que aqui vive a “terapeuta sexual” Cheryl Cohen. Hunt, aliás, demonstra coragem e entrega em um papel que exige sua nudez bela e madura, sendo notável como sua postura em cena, repleta de segurança e carinho, afasta do espectador qualquer impressão equivocada de que sua personagem seja uma prostituta mesmo sendo paga para fazer sexo com um cliente.
    E é motivo de alegria perceber como um homem como Mark O’Brien conseguiu explorar a própria sexualidade mesmo enfrentando a mais brutal e cruel das amarras: não sua doença, mas a crença religiosa.
    6 de Outubro de 2012

    (Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2012.)

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