A saga da anti-heroína


Diante da minha insatisfação com algumas situações da minha vida, algumas pessoas – cujas intenções, acredito, sejam boas – trouxeram-me exemplos de histórias dramáticas que tiveram um desfecho bem-sucedido. São os heróis, não muito célebres, presentes em nosso cotidiano que batalharam contra adversidades muito piores do que aquelas que vivencio atualmente.  Se por um lado, esperam que eu tome algumas dessas odisseias como referência, por outro não se dão conta de que tais casos servem mais para demonstrar toda minha mediocridade e ainda carregam a ilusão de como os “bons valores” da sociedade são imperativos para se alcançar a felicidade. Isto é, se não me sinto realizada com minha vida é porque me falta força de vontade para tomar as decisões corretas, para transformá-la. Ora, o mundo é maravilhoso para as pessoas esforçadas, não?

Tem uma moça muito bonita, que veio de família pobre, estudou a vida toda em colégio público, conseguiu entrar na faculdade e hoje ganha não sei quantos mil por mês. Ah, e preste atenção neste detalhe: mesmo quando passava fome, ela nunca precisou se prostituir! Porque puta é aquela mulher que não teve a capacidade de desempenhar qualquer outra profissão mais “decente”. Para o nosso senso comum, sempre tão esclarecido, não há problema nenhum a moça trabalhar a vida toda como empregada doméstica, desde que não ofereça seu corpo nas esquinas de qualquer cidade. Assim, preservaria a sua honra, o seu orgulho; e isso vale muito mais do que umas comprinhas no shopping no final de semana. Como o objetivo seria fazer eu me sentir melhor, essas pessoas me passam a mensagem de esperança de que eu também posso vencer na vida, basta simplesmente largar a prostituição! Puta é feliz? Mito. É o caso desta putinha que não está mais irradiando contentamento.

Não creio nessas verdades universais, tantas vezes proferidas por pseudo-autoridades. Não raramente, os consumidores veem apenas o produto final e já acham que compreendem todo o processo produtivo. E no caso da prostituição, não estamos lidando com mercadorias padronizadas e já concluídas, mas sim com experiências dinâmicas que são reconfiguradas a todo instante. Com base nisso, aliado à minha determinação de quebrar paradigmas, estou buscando o meu equilíbrio extraindo prazeres até de relações conflituosas ou impessoais. Nessas horas, é exigido afastar certos sentimentos, porque inevitavelmente serei contratada por sujeitos incivilizados que não sabem respeitar uma mulher. Após anos na putaria, este se tornou um problema menor. Além do mais, não sou unicamente uma garota de programa! Talvez, se tivesse dado mais atenção a isso, a garota não estaria se sentindo mal.

(Sobre a autora, clique aqui)

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30 comentários sobre “A saga da anti-heroína

  1. Estava sentindo falta de um post mais político-social.

    Concordo plenamente com os dois primeiros parágrafos.
    Na nossa sociedade sempre há o “exemplo que deu certo” para individualizar a culpa pelas desgraças, que assim deixam de ser sociais para serem pessoais. Tudo para deixar a estrutura social intacta e culpabilizar os indivíduos, que não se esforçaram o suficiente, que não tiveram força de vontade etc. etc.

  2. Mulher a sua escrita é de uma “puta socióloga”, no bom sentido do termo.

    Seu artigo está muito bom. Mas vou provocar um pouco e colocar aqui uma mulher que para mim é uma grande “heroina”.

    Já ouviu falar na Dona da DASPU a “Gabriela Leite”?

    Estou citando essa mulher que para mim é um exemplo. Ou melhor, uma grande heroína contemporânea e brasileira. Uma mulher, filha da classe média, que abandonou o curso de “Sociologia” na renomada USP para seguir o mesmo caminho que você. Essa sim é uma mulher a ser admirada.

    O incrível é que ela deu certo. É uma mulher bem sucedida, em várias contextos da palavra. Essa prostituta (como ela mesma gosta de ser chamada) criou entidade em defesa da sua classe, fez discursos e até escreveu um livro.

    Olha só prostituta escrevendo um livro! Infelizmente, não tive a oportunidade de comprar o livro dela (pois sou mais um desses que não deram certo na vida e tenho que “carregar” minha culpa).

    Mas o que quero dizer é: Será que realmente as prostitutas são apenas vitimas, ou em algumas ocasiões essas mulheres conseguem romper e achar brechas nesse sistema que você coloca como normativo? Será que você está sendo pioneira ou seguindo o que outras mulheres de fibra (como você) já fizeram?

    OBS: Utilizo o termo vítima no sentido de não serem compreendidas no seu direito a utilizar o corpo da maneira que querem.

    • Oi, Observador!
      Sim, eu já conhecia um pouco da história da Gabriela Leite. Cheguei a ler algumas entrevistas dela, mas também ainda não tive a oportunidade de ler o seu livro.
      Mas respondendo a sua pergunta, eu procuro desconstruir esse sistema normativo que desqualifica as mulheres partindo de seus comportamentos sexuais (afinal, a sociedade machista se caga diante do potencial poder da sexualidade feminina). Mas eu não acho que eu esteja sendo pioneira diante de uma causa mais política e social. Tem muitas discussões mais avançadas do que minhas pequenas considerações de “putinha revoltada”! Ainda assim, obrigada pelo “puta socióloga”! ^^
      Um beijo bem grandão e até mais!

  3. Adorei o texto! E concordo com a colocação do Observador. Sua escrita é de uma “puta socióloga”!

    Acabei de pesquisar sobre a Gabriela Leite, que eu só conhecia de ouvir falar. Interessante saber que existem pessoas que conseguem, a partir de um sofrimento, dificuldade, fazer o bem a outras pessoas, como o caso dela, que fundou uma ONG em defesa das prostitutas.

    Ayana, como vc bem disse, é ilusão acreditar que os “bons valores” da sociedade são imperativos para se alcançar a felicidade. Ser feliz é tão simplesmente se sentir realizada. É quando vc faz o que gosta, da maneira que gosta. É quando se faz algo que dá prazer.

    Fiz oito anos de ballet. Se uma pessoa que ama ballet pode viver do ballet, fazer da dança o seu sustento, assim como um músico pode viver da sua música. Por que que uma mulher que adora sexo, não pode ganhar dinheiro com sexo??

    O sexo ainda é visto como algo impuro, quando é algo tão natural. Mas sexo é pecado! Dizem os moralistas. Então, se ganho dinheiro com sexo, sou imoral, uma pecadora?

    Eu vejo o mundo diferente. O que é certo pra mim, pode ser errado pra você e vice-versa. Eu tinha uma professora que dizia algo mais ou menos assim “Errado é tudo o que é diferente do que acreditamos ser o certo. Quem é errado? O japonês que come de pauzinho ou o ocidental que come talheres?”

    Você falou em quebrar paradigmas. Continue rompendo com os padrões, vivendo o que você acredita. Busque a felicidade sendo quem você é, se preocupando menos com o que os outros vão dizer. Buscando o seu espaço, o seu lugar no mundo. E viva o presente, saboreando cada momento. Se hoje você é puta, seja a melhor puta que você pode ser!

    “Na vida tudo passa
    não importa o que tu faça
    O que te fazia rir
    hoje já não tem mais graça
    Tudo muda
    Tudo troca de lugar
    o filme é o mesmo
    só o elenco que tem que mudar
    Que alterar pra poder se encaixar
    se não for pra ser feliz é melhor largar
    Então se ligue e busque felicidade
    pra existir história tem que existir verdade
    Numa estrela cadente o sonho se faz presente
    no compasso do batuque de um coração doente
    A fera tá ferida mas não tá morta
    Deus fecha a janela mas deixa aberta a porta

    Então se ligue
    Busque felicidade
    Pra existir história tem que existir verdade
    Então se ligue
    Pra existir história tem que existir verdade

    Porque o sol não se tampa com a peneira
    Pra quem já tá molhado um pingo é besteira
    Renovo minha força vendo o sol se pôr
    pensamento longe renovo meu amor
    Minha voz faz eco, tristeza que eu veto
    não importa qual o papo
    O papo aqui tem que ser reto
    E cada chaga que a gente traz na alma
    é a confirmação de que a ferida sara
    E se restaura, já foi cicatrizada
    eleve as mãos pros céus
    Que a tua alma tá blindada
    pois ninguém vive conto de fadas
    Prefiro meu degrau do que sua escada”

    (Tudo Passa, Nx Zero)

  4. O que é a felicidade?? Ela existe ou resume-se a momentos bons?? O que é ser uma pessoa feliz?? Será que pessoas como essa moça pobre que passou fome, et, etc são modelos de pessoas felizes??? Acho eu, que o problema não está no que fazemos (sexo,medicina,direito,pedagogia, etc); felicidade é uma coisa abstrata; sentimos ou não! Vejamos também o número de pessoas famosas que praticaram e praticam o suicídio: Florbela Espanca, pra citar um caso.Felicidade se é que existe, não tem fórmula nem receita pronta. Só nos resta viver!!!!

  5. Bem, vou deixar meu pitaco aqui e dizer que eu já me prostitui por pelo menos 5 anos trabalhando da forma que eu não gostava e fazendo isso apenas pela grana, que nem era tão boa assim. E ao meu ver, me submeter a isso é o tipo de prostituição vexatoria, pois sequer me rendeu algum prazer. Pensando dessa maneira, classifico meio mundo de trabalhadores de prostitutos profissionais, que se submetem igual eu me submeti. Mas, como vc mesma disse, se submeter assim é tido como ato de nobreza e nobre é algo que nunca me senti. Me sentia apenas um otario remunerado. Por outro lado, eu bem que poderia considerar tambem me prostituir em função do sexo, mas eu acho que não tenho tanta vitalidade para isso, alem de levar em consideração o fato das mulheres (em geral) serem MUITO mais exigentes e criteriosas que os homens, o que é mais um ponto para voces. E para fechar, em relação a voce, – que é nitidamente exclarecida a ponto de me fazer duvidar seriamente da sua pouca idade (20), – não se encaixa sequer nos termos obsoletos e hipocritas da opinião popular sobre a prostituição sexual. Existem as pessoas de baixo e alto nivel e alguns parametros convencionais para medirmos isso. Voce provavelmente está lá em cima, da sua propria maneira, pelo seu proprio interesse. Independente, é isso que voce é. E espero que continue sempre a ser.

    beijos

    • Olá, Alemão!
      Eu conheço muitas garotas de programa (não tenho muito contato com garotos) que têm essa mesma opinião sobre esta atividade. Diante de certas situações, eu sinto que exerço esse tipo de prostituição vexatória, não por me submeter ao dinheiro, mas sim por aceitar algumas humilhações. Ainda assim, acho que é a única profissão com a qual eu sinto identificação, não apenas pelo sexo, mas também por toda sua estrutura de poder.
      Realmente, eu procuro trabalhar a minha maneira, até para não me adequar muito a categorias pré-estabelecidas.
      Obrigada pelo seu comentário!
      Beijos e tudo de bom!

  6. Flor,
    como você foi parar nessa? Sou novato aqui. Mas vc tem valor sim. Tem critérios, sensibilidade, é profunda… Pd ser muita coisa e extravasar o que sente, lutar contra as mazelas da sociedade etc e tal. Ok, poder ser o que quer. Mas gostaria efetivamente de te ver livre o mais que puder ser (e isso implica, talvez, lidar melhor tb com seus dramas, obsessões e, principalmente, comportamento compulsivo). Espero que este blog seja a ponte que te permita vir a ser uma escritora, e, que, aí, esse maravilhoso mundo interior que existe dentro de ti, possa transformar tua vida social. O texto da calda de caramelo é lindíssimo. Eu entendo que vc queira ser (é) um tipo não convencional. Mas há outras maneiras. Jung diz “que ninguém se torna santo projetando imagens de luz, mas, isto sim, tornando a sombra consciente”. De certa maneira é o que vc começou a fazer aqui. Uma terapia nessa linha talvez ajude vc a se encontrar mais e determinar melhores rumos. Talvez seja uma expectativa/preocupação minha e vc se ofenda por achar que desejo interferir em sua maneira de ser. Não sou dono da verdade, eu sei. A sociedade é injusta sim. Mas não tenho como concordar com tudo e deixar de imaginar um futuro melhor para você. Vc consegue imaginar tua vida de outra maneira? Um grande, carinhoso, e fraterno abraço. Cuide-se bem.

  7. OBS: pra um blog de uma prostituta até que o papo tá bem intelectual. Jung, Florbela Espanca e por ai vai

    Brincadeira pessoal,

    Mas gostei desse espaço aqui, pois dá para se ter uma conversa de nível, com bons textos que são opiniões. Não é uma disputa boba, mas uma boa conversa.
    Mas, sinceramente, não encaro isso aqui como terapia…

    • Não, Observador, talvez não tenha conseguido me fazer entender: se por um lado entendo que ela torna, aqui, escuridão em conteúdo consciente; por outro, entendo que ela devia mesmo procurar efetivamente uma terapia para se compreender melhor (trabalho profissional). Ah! E sabe que não vejo o blog enquanto um “blog de uma prostituta”? É tão sensível, interessante (inclusive os comentários de gente como vc), que este espaço, como vc bem descreveu é algo que se permite “ter uma conversa de nível, com bons textos que são opiniões”. Mas, fiquei tocado e gostaria de vê-la em outra… (porém, de maneira alguma deixar de ler o que ela escreve!)…

  8. Amigo agora eu te entendi,

    Porém, eu vejo esse blog como de uma prostituta sim. A parte boa é que não é um bando de acadêmicos fechados numa igreja chamada universidade falando como o mundo deve ser ou então um monte de gente falso moralista.

    Te compreendo, mas acho que o bom é realmente ser um blog de uma prostituta, que é pouco visitado e onde a gente possa ter boas conversas. Mas isso é apenas uma humilde opinião… pois tenho que adimitir: “sou fascinado por prostitutas”…

  9. Observador, o tema é realmente complexo e cheio de meandros, mas ainda assim – sempre de maneira civilizada e democrática – discordo de você (sem que isso estabeleça uma solução maniqueísta). Estou tentando enxergar o ser humano, ainda que ela exerça a atividade de prostituta neste momento de sua vida. Prostituição é a atividade; a pessoa é muito mais do que isso (e o blog vai muito além da atividade – em meu singelo entendimento). De certa maneira, no final deste blog ela mesma é quem diz: “Além do mais, não sou unicamente uma garota de programa! Talvez, se tivesse dado mais atenção a isso, a garota não estaria se sentindo mal”. Realmente não é unicamente isto. É uma pessoa e não é a sua atividade. Estou lendo o blog. Mas já vi que ela diz coisas parecidas em outras partes. Por exemplo, ela diz que aqui se permite ser sensível, extravasar, de ser diferente do que é em sua atividade. Então querer que seja o “blog de uma prostituta” pode implicar em até mesmo retirar a válvula de escape que lhe permite ser a pessoa que realmente é e tenta sair lá de seu interior. Ou quando, adolescente, um colega estúpido que não sabia porra nenhuma vida, disse a ela que ao invés de médica deveria ser prostituta. Eu vou insistir: a pessoa que escreve e demonstra o que ela demonstra pode ser o que quiser. Ok, eu bem sei dos entraves de nosso sistema capitalista. Talvez o certo seja dizer que ela pode cumprir atividades diferentes para questionar o sistema e romper com os paradigmas. Porque me parece claro ser uma pessoa que tem valor. Um “flor de lótus”. Não, Flor, você não é um lixo. Acredite. Você não é um lixo! Não é tua culpa. Acredite. Não é tua culpa.

  10. E vamos a nossa controvérsia caro amigo.
    OBS: Quero deixar claro que respeito muito você, pois mesmo sem concordar, dá a sua opinião de forma civilizada.
    Porém, vamos continuar o debate, o que eu gosto muito…

    1º – Quando você diz: “Estou tentando enxergar o ser humano, ainda que ela exerça a atividade de prostituta neste momento de sua vida.” Está se equivocando, pois todos temos um lado humano.
    As prostitutas tem seu lado humano, tanto quanto qualquer pessoa comum, a questão é que elas estão expostas a uma situação social bem “complexa”, como você mesmo caracterizou.

    Em nossa sociedade há muita gente que explora os outros. Veja as empresas com trabalho escravo ( ou também terceirizado que é quase escravo) só para o lucro de alguns. Isso é ser “Humano”? Pois é, esses ninguem aponta o dedo julgando, porém as prostitutas todo mundo maltrata.É a velha síndrome da Geni.

    2º – tem muita mulher (e homens também) que são dá dita boa sociedade e que já passaram por essa profissão. Veja as universidades!!! Estão com muitas pessoas que passaram por esse ramo para se estabelecer.

    A sua questão é que não vê a prostituição como um projeto de vida. O que em parte eu concordo.

    Concordo no sentido que não dá para ser a vida toda dignamente vendendo sexo do modo como esse mercado é organizado. O corpo tem limites, inclusive para ser vendido. Porém, se alguém quer viver isso, acho que é um problema da pessoa.

    Acho que a Ayana tem um bom nível intelectual, chego mesmo a desconfiar em algumas situação que esse blog seja apenas uma brincadeira. Porém, de qualquer forma, se uma pessoa escolher viver do sexo, é problema dela.

    3º – Valeu pela controversia amigo, pois é difícil achar hoje em dia alguem para expor posiçõe contrárias sem querer insultar o outro.

  11. Não penso que tenhamos todos um lado humano: penso que somos humanos. Por isso o que eu disse, logo depois do que você extraiu e reproduziu foi:

    Prostituição é a atividade; a pessoa é muito mais do que isso (e o blog vai muito além da atividade – em meu singelo entendimento).

    Ou seja, estou mesmo é preocupado com o ser humano, e o contexto era de não considerar meramente enquanto “blog de uma prostituta”. Ou seja, quero enxergar, por intermédio do blog, os conteúdos do ser humano. Aliás, na apresentação, à direita da página inicial, ela mesma fala que não é meramente o blog de uma prostituta, que retrata suas aflições.

    E é aí que discordamos mais uma vez. Outras pessoas, estive lendo, até já disseram isso em mensagens. Mas este blog é um pedido veemente de socorro, de alguém sensível e extraordinário. De uma “flor de lótus” (aquela que vive no lixo, na lama…). “Linda Flor”, como ela prefere. Já vi que ela nega tal tese. Mas se não negasse, o eloquente pedido de socorro não seria inconsciente. Não quero ser o salvador de ninguém, mas, se possível, fazê-la tomar maior consciência de quem ela é, de que caminhou tomou, e, aí sim, ter mais elementos para trilhar por aqui ou por ali. Ela não diz que está em paz, que está feliz. E, a prostituição é somente um de seus problemas. Sim, eu disse pro-ble-ma. Problemas que ela precisa solucionar. O que a levou a isso tudo me parece doença. Doença social, física, e de comportamento. Passo a passo, desde o abandono da mãe, as crises com o pai imaturo, e o desejo de vingança para com eles, já se destruindo desde a adolescência, para chamar a atenção deles. Os processos inconscientes que a conduziram a partir disso são tão claros, levando-a a um descontrole físico (sua compulsão sexual desde cedo, em busca desesperada de um preenchimento afetivo, que, contraditoriamente, a assusta tanto, por levá-la de encontro a equações incompletas do relacionamento tumultuado com os pais); à cisão do que liga amor e sexo; à procura de dominadores porque acredita em uma dívida do passado, onde ter limites lhe evitaria isso tudo; à necessidade de ser humilhada, porque não sabendo lidar com a irresponsabilidade e imaturidade dos pais, interpretou isso como rejeição e não a digeriu, e, considerou-se diferente de seus amigos de escola que não passavam por nada parecido (e por isso mesmo tinha de ser diferentes, até porque não tinham vivência para interpretar algo tão grande), e, pelo que considera um grande fracasso não ter passado em uma concorridíssima faculdade de Medicina (quando, não por sua culpa, não tinha a menor chance de encarar a concorrência, que não era refém de tamanha instabilidade emocional, que não tinha 1/10 dos problemas que ela enfrentava, refém até de sua compulsão sexual e de uma sociedade hipócrita e cruel, que, ao invés de ajudar a reerguer tenta extirpar o diferente. Caramba! Passar como?). Salvo engano, até o tipo de prostituição em que ela se inseriu tem o aspecto de dominação. Parece claro que ela continua se punindo, ainda que inconsciente. Por que até para obter prazer quer ser punida? Não, Flor, eu insisto: VOCÊ NÃO É UM LIXO! VOCÊ É FORMIDÁVEL, LEVANTA E ANDA! Você tem valor, e, dentre outras coisas, a arte que produz aqui mostra isto! Infelizmente o tempo não volta, né? Se voltasse, eu gostaria muito de conversar com esse querido casal que te trouxe ao mundo. Mas o tempo não volta. Há uma coisa que Gandhi diz: “seja a mudança que deseja ver no mundo”. Você pode ser a mudança do teu mundo e romper com

  12. (continuação)… do teu mundo e romper com o círculo vicioso que se formou na tua linda cabeça. E, não é mais papai e mamãe que vão te resgatar. Agora é contigo e você é forte e corajosa para tanto sim! Você não precisa passar o resto da vida se punindo e destruindo para chamar a atenção deles. Não vai funcionar. Você já é bem mais do que aqueles dois imaturos conseguiram ser. Chega de vingança; chega de você ser o resultado destruído de sua vingança. Vai se matar com drogas, com atividades que destroem o teu corpo por que? Para se vingar do que eles não foram, e, que, se fossem, poderia ter resultado em outra Ayana. Então, você conseguiu uma maneira de não depender mais deles financeiramente. Parabéns! Levando em conta o cachê que cita do jogador de futebol, 100 homens por mês, descontadas as comissões, é realmente um belo salário de alto executivo. Tem mais paz, felicidade e projetos de vida que a pobre empregado doméstica que não tem como comprar no shopping final de semana, querida? Ou está torrando em drogas, se destruindo e dormindo/desmaiando no banheiro mesmo? Poxa, que vida normal, só um trabalho diferente e não reconhecido… Você quer enganar quem, moça aflita? Eu não vou lavar as mãos e simplesmente ver alguém afundando. E muito menos ser o teu salvador. É você quem vai se salvar.

    “Ninguém pode construir em teu lugar
    as pontes que precisarás passar,
    para atravessar o rio da vida
    – ninguém, exceto tu, só tu.
    Existem, por certo, atalhos sem números,
    e pontes, e semideuses que se oferecerão
    para levar-te além do rio;
    mas isso te custaria a tua própria pessoa;
    tu te hipotecarias e te perderias.
    Existe no mundo um único caminho
    por onde só tu podes passar.
    Onde leva? Não perguntes, segue-o”
    Nietzsche

    Então, linda, agora é a tua ora. E eu torço e acredito tanto em você.
    Você pode fazer por si, o que os outros não fizeram. Pelo menos use esse dinheiro com profissionais que possam te ajudar a reconstruir e seguir. Talvez uma equipe multidisciplinar, para que você recupere a tua condição física, que se entenda em seu comportamente com um tratamento psicológico, que um psiquiatra possa dar a você os remédios necessários para você controlar e entender melhor essa compulsão em um primeiro momento (e depois se livrar dela). É difícil, eu sei, mas perdoe os teus pais. Alguém precisa romper esse círculo vicioso estúpido. Aquelas duas crianças estúpidas, mimadas e ensimesmadas foram – também e em algum momento – vítimas de uma não estruturação familiar. E mais difícil ainda FLOR! Sim, eu sei que é muito difícil!!! MAS PERDOE-SE! PERDOE-SE A SI MESMA!!! Você merece o teu próprio perdão e seguir. Não se maltrate mais. Você não é um lixo. Acredite. Não é tua culpa!

    “Responsabilidade não é culpa, medo ou mesmo o compromisso social (que existe e é importante). Responsabilidade é saber que você é a razão da tua vida. Que, há tempos ou mesmo existências, você convive forças e fraquezas para melhor explorar o enorme potencial humano que existe em você.”. (Morrison)

    E me perdoe, também. Por ser tolo, por ser conservador, por ser um grande babaca se quiser. Mas não consegui nem mesmo trabalhar ontem e hoje, tão desconcetrado que fiquei com isto aqui. Precisa dizer. Você mesma reconhece que tua amiga “Larissa” tentaria mudar tua atual direção e atividade. Porque amigos fazem isso, e é como amigo que não pude me conter. Se é um fake, “brincando” na internet, uma provocação intelectual, então, parabéns porque você monta um retrato psicológico tão complexo, que faz Machado de Assis parecer brincadeira de criança. E, em tal hipótese, o que disse, passa a servir para todas as outras que foram prostituídas, e que se chama a atenção aqui. Mas acho que você diz a verdade. E, mesmo não sendo o dono da verdade, tinha de dizer a minha verdade nua e crua para você. Tudo de bom. Cuide-se bem. Querendo conversar, você sabe como.

    Um grande, carinhoso, e fraterno abraço!

    • E para você, caro Amigo, segue o texto que originou minha amizade com a Ayana:

      Filosofia e Prostituição.

      O filósofo, desiludido dos sistemas e das superstições, mas ainda perseverante nos caminhos do mundo, deveria imitar o pirronismo de trottoir que exibe a criatura menos dogmática: a prostituta. Desprendida de tudo e aberta a tudo; esposando o humor e as idéias do cliente; mudando de tom e de rosto em cada ocasião; disposta a ser triste ou alegre, permanecendo indiferente; prodigando os suspiros por interesse comercial; lançando sobre os esforços de seu vizinho sobreposto e sincero um olhar lúcido e falso, ela propõe ao espírito um modelo de comportamento que rivaliza com o dos sábios. Não ter convicções a respeito dos homens e de si mesmo: tal é o elevado ensinamento da prostituição, academia ambulante de lucidez, à margem da sociedade como a filosofia. “Tudo o que sei aprendi na escola das putas”, deveria exclamar o pensador que aceita tudo e recusa tudo, quando, a exemplo delas, especializou-se no sorriso cansado, quando os homens são, para ele, apenas clientes, e as calçadas do mundo o mercado onde vende sua amargura, como suas companheiras seu corpo.

      Cioran | Breviário de Decomposição

  13. !!!! …. Ayana, depois de tantos posts, comentários, comentários dos comentários, etc, etc… apareceu uma análise mais “profissional” do que se passa contigo e da história que você vem escrevendo desde março do ano passado. O Amigo aí em cima te deu um grande presente. Espero que você leia, releia e reflita bastante. Aí está um exemplo concentrado do tipo de interpretação que um profissional te proporcionaria numa terapia. É mais ou menos isso que várias vezes te sugeri procurar. Mas ler e refletir não basta, viu?

    Caro Amigo, no início, bem no início, também considerei a hipótese do “fake”, de um provocador intelectual como vc tão bem definiu, mas pode acreditar, como eu acredito: ela é real e as experiências também. Imagino que eu deva ser um dos acompanhadores mais antigos do blog, estou aqui religiosamente todos os dias desde abril/10, e depois de emails, comentários e conversas no MSN com ela, me sinto muito à vontade para concordar contigo: é mesmo um flor de lôtus! Uma pedra preciosa garimpada em toneladas de areia e rocha dura.

    Você fez um belíssimo painel da trama familiar, social, afetiva e psicológia que define a Ayana, o que me leva a crer que você seja um profissional (psicólogo talvez) estou correto? Ou se não é, conhece ou já teve um contato mais próximo com questões de comportamento, estuda ou lê sobre o tema por interesse intelectual.

    Acredito também no desconcerto de “2 dias” que o blog te causou. Se eu chegasse agora, como você chegou, e lesse tudo de uma vez, acho que passaria uma semana “chapado” com a overdose! Não conheço nada semelhante com este nível intelectual da Ayana por aí.

    (um parênteses: eu também tenho uma imensa curiosidade pelo “querido casal” que a trouxe ao mundo!)

    Eu ainda preciso ler melhor o que você escreveu, mas pouco tenho a objetar. Espero que continue por aqui e que contribua bastante! Tenho certeza de que como eu e muitos outros leitores, você ficou sinceramente tocado pela Ayana e pela sua história de vida.

    Ayana, cultive este leitor, e se ele permitir, claro, gostaria que me passasse o email dele. Você se importaria, caro Amigo?

  14. Acho que essa discussão vem em um momento oportuno… Acredito que o processo já estava deflagrado; que algo andava diferente na cabeça dessa escritora. É evidente que, se andava confusa, mais confusa ainda ficará com isso tudo, mas acho que é um bom indicativo de que não está sozinha, de que tem apoio e de que esse pode ser o caminho. Questionar é o caminho. Questionar-se, então, nem se fala, é crescer.
    Sua angústia me alegra (falando agora diretamente). Chegar aqui e encontrar um texto sobre aventuras sexuais me desanima, é no mínimo superficial. Trabalhar no campo da angústia e da dúvida, sim, faz fluir sua enorme sensibilidade. Espero que permaneça por aí, na zona do desassossego – não por querer vê-la mal, mas por querer vê-la crescer. Desassossego, por sinal, é uma palavra linda.

  15. Querida Ayana, eu precisava ler melhor o seu post e os comentadores para chegar a isso aqui:

    É muito comum pessoas bem intencionadas sacarem seus exemplos edificantes para sugerir mudanças de rumo e lições de superação aos perdidos da vida. Quase sempre o roteiro é este que vc resumiu: moça pobre, mas séria, esforçada, tem pensamento positivo e é trabalhadora, sofre desde pequeninha, mas é digna. Geralmente acredita em Deus e que o sofrimento por que passa tem um sentido de superação e recompensa certa em algum momento do futuro, afinal Ele é justo e fiel. Persistente, estuda. Entra num emprego medíocre, mas paga suas contas. Na sequência ela se casa, pare uns coitadinhos para realimentar o ciclo e quando ela morre vai pro céu, afinal foi batalhadora, teve uma vida digna. E ah, claro, poderia ter faturado bem mais se desse por aí, afinal era bonita e atraente, mas resistiu e viveu seriamente: só deu uma vez pro chefe, que a ameaçou demitir, mas sempre se culpou por isso e achava que no fundo ela deveria ter aceito a demissão e não sucumbido (o padre lhe falara na confissão que ela havia pecado) e, claro, durante anos deu pro marido escroto, mas quase não gozou porque isso era coisa de vadia.

    Eu te admiro por não seguir o modelinho, e como você bem disse, os desgostos que inevitavelmente encontra se prostituindo são hoje um problema menor. Aliás, totalmente equivalentes àqueles que as pessoas com seus empregos “normais” encontram por aí. Claro que elas não percebem que aguentar a humilhação diária proporcionada por um chefe maluco, por exemplo, é tão ou mais desconfortável quanto um cliente embriagado e violento ou pouco asseado. Eu costumo dizer abertamente pra alguns amigo(a)s: se eu fosse mulher, bonita, atraente, que chamasse a atenção dos homens, eu iria usar SIM este poder e provavelmente ganharia dinheiro fazendo sexo com eles. Este mundo é tão ostensivamente machista e nós homens usamos de todas as armas de que dispomos para exercer o poder, que me espanta que ainda tantas mulheres não despertem para o fato de que elas podem usar o sexo, a sedução para contrabalancear este jogo a favor delas SIM!

    A metáfora que você faz quando diz que o senso comum esclarecido julga o produto final e se esquece da cadeia produtiva que o engendrou também serve para os modelos edificantes: é chavão olhar para um exemplo de sucesso socialmente aceitável e imaginar que este produto é consequência de toda uma linha de produção que se aplicaria a todos, sem exceção, bastando seguir as operações da linha de montagem: se deu certo pra ele, porque não daria pra você?

    De tudo isso fica claro para mim que ser prostituta não é um problema (e aí eu discordo do Amigo que afirmou que este também seja um). O que não te desculpa das posturas auto-destrutivas que você assume na atividade. Não precisa ser assim. E eu vejo um nítida evolução no seu comportamento no sentido de se impor mais, ou pelo menos em se conscientizar do seu valor. No seu blog temos exemplos de GP`s que se colocam numa postura altiva, de controle e não se deixam explorar. Ao contrário: impõem regras, se valorizam e de certa forma assumem o controle. Sei que pra você isso não é o natural, o mais fácil, mas quem disse que a vida o seria? O Amigo elencou uma extensa lista que são a gênese dos seus reais problemas. E eu concordo com ele. Mas para mim, a etiologia perfeitamente descrita pelo comentário do Amigo se aplicaria muito bem, por exemplo, também a um workaholic que sobe rapidamente na estrutura de uma empresa. Este teria direcionado toda a carga de seus traumas, insatisfações, frustrações, culpa, para o trabalho numa corporação. Já a Ayana adota um comportamento auto-destrutivo na atividade de prostituta. A sociedade vê o primeiro como um herói empreendedor; a segunda, por ser puta, como uma fracassada problemática.

    Mas eu não vou focar no comentário do Amigo que considera a atividade de prostituta da autora, um “pro-ble-ma”. Tudo o mais que ele disse é esclarecedor e seria uma absurdo não considerá-lo. O próprio autor admite a possibilidade de ser “conservador”, é natural portanto tal posicionamento, o qual eu respeito, diante que estou de alguém bastante esclarecido, pelo que depreendo do texto que produziu.

    Excelente post, Ayana. Você me disse que ele te foi inspirado pelo meu comentário no post anterior, o que me deixou mais feliz ainda pela sequência que ele gerou. Você ainda tem dúvidas do ser humano excepcional que você é?

    Beijos!

    • Discordo Marcelo,

      No contexto da nossa sociedade a profissão de prostituta é sim um “problema”. E digo isso tendo sido amigo de algumas e conhecendo de perto essa profissão. Não é um problema moral, mas uma profissão que carrega tal estigma na sociedade, que não se pode colocar em currículos, que não se pode contar aos outros, que tem vida curta, acaba sendo um problema sim para quem exerce a profissão. Estou falando das que fazem disso seu ganha pão, e não as que fazem como fetiche ou pra conseguir uma grana extra.

      • Perfeito, Caos (gostei do trocadilho! rs)

        Mas percebe que você acabou de descrever o “problema” que a SOCIEDADE tem com a prostituta? E que estigmatizá-la é portanto o problema DA sociedade? Óbvio que não dá pra ser romântico e negar que este é um problema para as prostitutas contornarem. Mas a prostituição em si não o é.

        E quero crer que seu comentário sobre as que exercem a profissão por fetiche ou para ganhar um extra não é de desapravação, estou correto? Porque se o for, você está emitindo uma opinião moral.

        • Minha opinião moral sobre a prostituição, seja daquela que tem a exerce como ganha pão ou daquela que a exerce por fetiche ou para ganhar um extra é a de que, comparada com muitas, muitas profissões por aí, ela é mais digna e mais benéfica á sociedade.
          O Amigo no comentário via a prostituição como um problema, na minha leitura, no contexto social em que ela se insere (problema para quem exerce essa profissão, devido às consequências do estigma para essa pessoa). Por respondi seu comentário. O psicólogo tenta ajudar a pessoa a viver nesta sociedade. Quem quer mudar a sociedade é o revolucionário. O Amigo estava escrevendo da perspectiva do psicólogo.

  16. Te conheci através do CSV…
    Acho que li quase todo o seu Blog…

    Algumas palavras pra “te definir”…Intrigante…doida… interessante… compulsiva…honesta consigo mesma…complicada… escreve muuuito bem… Fascinante!!!

    Parabéns!!!!

  17. Nossa!! Li seu blog todo, do primeiro post ao último. Não tenho muito para dizer, mas acho que vc é mt madura para a idade que tem, e mais, sabe muito bem o que quer. Se alguma coisa tem de mudar em sua vida, vc sabe muito bem o que é, e mais, sabe como fazer essa mudança.
    Desejo-lhe toda a sorte e felicidade do mundo.
    bjs fica bem ;)

  18. Ola tudo bem?

    Adoro seu blog e o acompanho a algum tempo ja!

    Gostaria muito que você participasse da entrevista para o “blog da semana”!

    Você gostaria de participar?
    É onde os leitores podem conhecer um pouco mais da pessoa que compartilha seus prazeres com eles!

    Divulgarei seu blog como blog da semana, juntamente com a entrevista

    Oque acha?

  19. Post muito interessante e comentários também! Adoro ler análises psicológicas sobre essa atividade da qual também me ocupo no momento.
    Estou fazendo psicanálise. Mas as respostas demoram a chegar, embora estejam aos poucos chegando… Porém eu, ansiosa que sou, estou sempre a procura de análises psicológicas onde eu possa, quiçá, descobrir-me um pouco mais, mesmo estando ciente de que cada indivíduo é único, assim como sua história.

    Amigo, simplesmente adorei essa citação de Nietzsche!

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