Algumas pedras guardadas na caixinha


Minha intenção não era continuar no mesmo assunto dos posts anteriores, tanto que havia começado a escrever outras experiências pelas quais já passei; ainda há muitas confissões que eu gostaria de compartilhar! No entanto, após ler os últimos comentários, não consegui pensar em outra coisa que não fosse os problemas pelos quais ainda estou passando. Subitamente, uma caixinha se abriu…

Comecei a escrever este blog no começo do ano passado, algumas semanas depois de decidir que iria parar de estudar. Se não estou enganada, houve uma época em que blogs eram associados a diários virtuais, o que para mim parecia bem contraditório, já que tinha o costume de registrar os meus segredos, em especial minhas fraquezas e inseguranças. Então, por que iria querer mostrar às pessoas os meus sentimentos mais sensíveis e amargurados? Não sei, mas agora estou aqui, continuando a sequência de posts dramáticos. Talvez porque estava ficando insuportável reter tantos problemas, na esperança de que uma garota ainda frágil pudesse resolvê-los. A princípio, acreditava que a autorrepressão bastaria para me sentir perdoada; foi quando pretendia destruir a minha vida. Eu sentia muita raiva de mim mesma, porque só atingia minha satisfação me envolvendo com práticas sexuais; por vezes agressivas, por vezes bizarras.

Logo fui acumulando o desprezo das pessoas, e isso gerava também um sentimento reconfortante, uma vez que me reconhecia nos julgamentos de vadia, vagabunda, puta e seus equivalentes. E como eu gostava! Frequentei várias e várias orgias. Dava para sujeitos estranhos que nem sequer trocaram palavras comigo. A minha vida era, sobretudo, um imenso bacanal. Eu tinha dificuldades para conversar com qualquer homem sem me insinuar, sem fantasiá-lo na cama comigo. Devido ao meu descontrolado apetite sexual, fui me dedicando cada vez menos aos estudos e talvez só não tenha me perdido completamente em meu mundinho de putarias, porque tinha interesse por outras duas atividades: ler e escrever, sendo um dos motivos para criar este blog. Só não investi tanto nelas porque nunca me geraram orgasmos.

Foi necessário preservar minha identidade para me sentir mais segura para escrever sobre as minhas confissões mais íntimas. A verdade é que tenho muito medo de encarar uma pessoa e deixar transparecer minhas aflições. Sinto-me envergonhada quando sentem pena de mim. Antes da prostituição, tive contato apenas com histórias bem estruturadas; gente rica, bonita e feliz. Que realidade era aquela? Só fui encontrar universos semelhantes ao meu, assim que conheci, superficialmente, o passado de algumas colegas de profissão. Mas aqui a gente só constrói relacionamentos superficiais, já que é terminantemente censurado demonstrar alguma fraqueza que possa indicar qualquer despreparo para exercer essa atividade. Não por coincidência, todas bebem, todas fumam.

Comecei a beber com quatorze e a usar drogas com quinze anos. As pessoas dizem que tenho uma memória sofrível por conta desses dois hábitos. Pode ser que elas estejam certas. O distanciamento da sobriedade afastava-me também de meus problemas e ainda me disponibilizava diversões inigualáveis. Tenho consciência dos riscos a minha saúde, mas dificilmente algo me trouxe tanta satisfação quanto esquecer certos erros e injustiças do passado. De fato, eu estava ficando viciada nessas substâncias que geravam uma solução imediata, porém temporária. O novo recurso a que recorri foi simplesmente ignorar o que se passou e tentar me concentrar nas menos problemáticas questões diárias. Nesse sentido, este pequeno diário me auxiliou a organizar algumas reflexões.

Possivelmente, ele não seja mais tão diminuto assim, a ponto de considerá-lo somente um refúgio para aliviar os males das minhas angústias. Sentia-me mais leve após deixar qualquer pequena confissão por aqui, contudo, inesperadamente, também tive contato com outras sensações mais incríveis, geradas pelas mensagens de desconhecidos, sendo que alguns, aliás, já me são bem familiares. E não há como contestar: essas pessoas me fizeram muito bem. Talvez por reconhecerem algum pedido de ajuda nas minhas entrelinhas. Sou verdadeiramente grata, mas gostaria de esclarecer que não procuro resolver os meus problemas escrevendo tão pouquinho em um blog. Na realidade, a intenção era criar o meu cantinho solitário que, felizmente, me trouxe ótimas companhias.

(Sobre a autora, clique aqui)

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20 comentários sobre “Algumas pedras guardadas na caixinha

  1. Menina! torço para que voce se dê bem em tudo e que tudo o que voce desejar, esteja ao teu alcance. Gostaria de te dar força; de te ajudar com palavras de conforto, de incentivo a uma vida saudável e que esteja dentro de tuas expectativas. Não me dou muito bem com as letras e/ou digitação. Se houvesse a possibilidade de falar com voce ao telefone, eu seria muito mais objetivo e creio que te daria muita força, pois voce sabe que as palavras ditas; ouvidas, tem muita força . Abraço amiga invisível….rsrsrs ( brincadeirinha)

  2. Querida (sim, és bem querida, apesar de nem te conhecer. A vida moderna é assim interessante. Fazemos “amigos” nos lugares e momentos mais esdrúxulos, nos menos esperados :-)
    Confesso que não vi especialmente um pedido de ajuda nos teus textos Não tenho essa clarividência ou sabedoria. Eu vi uma pessoa que tentava genuinamente expor os seus sentimentos – embora protegida pelo anonimato confortável da Internet. Vi uma pessoa que, ao compartilhar coisas profundamente pessoais conseguiu que outros sentissem empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro), interesse (vontade de experimentar, talvez), simpatia (desejo de assumir gosto semelhante), nojo (reação de rejeição gutural, embora não suficiente para simplesmente desligar e ir embora, mas suficiente para escrever e falar sobre o assunto…),excitação (desejo), enfim, uma miríade de reações. Vou até te confessar uma coisa: por não te conhecer pessoalmente eu até me confortei com a fantasia que tu não és nada do que dizes dizer. Imaginei que serias uma mulher mais velha, escritora genial com uma capacidade sem par de nos envolver numa narrativa de tirar o fôlego. Houve momentos que pensei que podia ser um homem mas depois disse para mim mesmo que só o Chico sabe escrever como uma mulher, assim. Engraçado, não é?
    Que sejas ou não sejas quem dizes ser, não é o mais importante aqui. O que me pareceu importante é que toda a vez que alguém escreve algo tão denso, é porque quer gerar alguma reação. Seja para que o assunto seja debatido, seja para lhe ajudar a juntar alguns pontos, nunca é para provocar gratuitamente. E quando o assunto é sexo então…xiii, tu sabes quanto as sociedades ocidentais (ditas civilizadas) são estupidamente obtusas. Tens “problemas” por resolver? Quem não tem? Provavelmente alguns dos teus leitores te ajudaram a resolvê-los? Parabéns! Ajudaste a resolver alguns dos nossos? Parabéns! A grande função dos blogs (para mim) é precisamente e unicamente o compartilhar ;) Uma palavra que ainda não é medida no seu devido valor. Querias apenas o”teu cantinho solitário”? Vamos ser sinceros até ao fim. Eu escrevo muito também (blogs, músicas…). Mas quando escrevo para mim, uso um arquivinho de word que fica no meu computador e que ninguém leu até agora ;)
    Beijão, querida. Escrevi demais :D

    • Oi, querido David!
      Eu nunca tive muita preocupação em provar se sou ou não uma garota de 22 anos que se prostitui. Ainda não deixei de ver esse blog como o meu diário, então a primeira reação que quero produzir é em mim mesma. Já repensei minha vida muitas vezes a partir dos post que escrevi e dá até para notar que algumas das minhas ideias amadureceram nesses quase dois anos. Mas também, eu fico feliz de propor alguns debates a partir das minhas experiências. E realmente, me interesso em desconstruir algumas percepções medievais sobre o sexo.
      Mas compartilhar ideias, experiências é o que mais me motiva a escrever. Como você disse, eu poderia produzir esses mesmos textos e deixar num documento do word (na verdade, eu ainda escrevo muita coisa e deixo guardada só para mim), mas aí eu não conheceria pessoas tão queridas =)
      Obrigada pelo recadinho!
      Beijos, beijos, beijos!

  3. Oi amiga, vc sabe o quanto eu te admiro, vc é forte, mas também sensível.
    Como bem disse o David, seus textos tem a capacidade de nos proporcionar as mais variadas sensações e consigo me identificar com muita coisa, mesmo não tendo experimentando 1/10 daquilo q vc já vivenciou..

    Mesmo de certa forma anônima, é preciso coragem pra se abrir, expor fragilidades. Vc é sensível, tem fraquezas, contudo te vejo muito forte. As dificuldades nos fortalecem, não é mesmo?

    Não vejo o seu blog como um pedido de socorro. É apenas uma forma de desabafar, de partilhar angústias, sentimentos. Isso é legal. Legal essa interação. Muito legal os comentários do seu post anterior. Legal como seus escritos provocam tanta reação.

    Acho que vc tem consciência daquilo que te traz sofrimento e destruição. Das coisas que não são boas e só prejudicam. Reconhecer isso já é uma mudança, mas isso só não basta. Espero que vc mude alguns hábitos e q as coisas melhorem pra vc. Guria, vc é pessoinha maravilhosa, que merece tudo de bom.

    Beijo da amiga de te adora

  4. Conheço seu blog há pouco tempo, mas o post anterior a este tinha me parecido não exatamente um pedido de socorro, mas um desabafo agoniado, pedindo pras pessoas pararem de julgá-la, mesmo que esse julgamente venha em forma de sugestões que a colocassem em uma posição inferior.

    O que me motivou a me inscrever nas atualizações do blog (coisa que nunca faço, mesmo), foi ter me surpreendido com uma garota, que me parece tão culta, contar sua vida, as angústias e os prazeres dos programas, do sexo, e isso transpirar uma humanidade tremenda, um desabafo, aquele que os católicos fervorosos faziam aos padres, dentro de um confessionário, sem rostos, sem nomes, onde toda a carne fica exposta.

    Continue com seus belos posts, mesmo quando desapontada, pois de outros inúmeros lados vai encontrar eco, em mentes, em corações. Só espero que não vire evangélica, hein? rs

    Mais uma vez, parabéns pelo blog.

    E fica uma sugestão: faça um email ou msn, para criar um canal mais dinânico de contato com seus leitores. Isto é, se você quiser um contato mais dinâmico. Pode ser que não.

    Beijos!

      • Rafaela, se a Ayana está se destruindo, ou não, só ela pode dizer. Minha opinião não qualifica, de forma verticalizada, se isto é destrutivo, ruim, mas, sim, como uma fase, de onde ela vai colher e o está colhendo grandes aprendizados.

        Vamos parar de nos confrontar quando encontramos uma pessoa que não acredita em salvação pelos dogmas, pois a falta de professar esta ou aquela fé não implica em não ter ética, ou não ter princípios. Aliás, pessoas extremamente terríveis que conheço foram ou são religiosas.

        Pelo que já li, venho tenho uma enorme simpatia pela Ayana seja ela explorando os prazeres do sexo, seja ela desabafando aqui no blog, refletindo sobre sua vida. Não vamos agoniá-la com mais um estereótipo, no caso, o de “convertida”. Estamos aqui para escutá-la e termos uma troca de ideia, não para descermos mais uma roupagem que só atrofiaria as habilidades e sentimentos dela.

        Abraço!

        • André,
          Se ela acreditasse em alguma religião teria pelo menos a chance de se salvar em outra vida. Porque nesta ela está perdida. Esta menina tem sérias dívidas com o Criador e isto será um dia cobrado!
          Para cada religioso que você conhece que são “terríveis” eu posso citar uns 10 descrentes que só pioram este mundo com sua falta de fé.
          Acho que a conversão daria a ela uma razão mais sólida pra viver e não ficaria se perdendo em drogas, sexo e comportamento imoral. Estas pessoas que só ficam a elogiando, em vez de ajudá-la, só pioram a situação dela.
          Ou você acha que esta postura de compreensão e “empatia” não a faz se achar que está correta?

          • Bom dia Marcos! A facilidade e a arrogância com que você julga a vida dos outros (particularmente da Ayana) é absolutamente estarrecedora, além de incoerente com os seus dogmas. Onde está a sua clemencia, compreensão, tolerância, desprendimento, amor e respeito? Não vou discutir quem está certo ou não em acreditar em deuses, sejam eles quais forem. A mesma liberdade que lhe garante o direito de exercer a sua fé, garante aos demais o direito de escolher outros caminhos fés, inclusive de ser ateu, agnóstico, humanista etc. Apenas apelo para o ser inteligente que você parece ser e peço que seja coerente: “Não julgueis, para que não sejais julgados”(Mateus 7:1). Ou você apenas obedece às partes que mais lhe interessam?

            Abraço.

            David

          • Foi apenas eu fazer um voto sincero de que ela, independente do caminho que escolher, não caia nesses fanatismos, pra aparecer o pessoal santo pra descer o sarrafo…

            Ao dizer tudo o que você disse, Marcos, apenas corrobora com a minha tese de que grande parte dos religiosos são de caráter deplorável. Ao invés de vir falar do tema, ou se dirigir à Ayana, com alguma palavra positiva, veio apenas calcar mais essa posição que os crentes (aqueles que acreditam em algo) de colocarem-se como superiores aos outros.

            Se for pra aparecer aqui falando que ela está condenada, e esse blá-blá-blá de salvação, melhor não dizer nada, pois ela mesma já disse, em outros tópicos, que está farta de gente como você. Ao fazer isso, a despeito dos pedidos da Ayana, você está sendo um tremendo troll.

            Se for pra ter essa salvação que você apregoa, o inferno não deve ser tão ruim assim, então…

    • Para você ver André; não precisa ser uma pessoa extremamente religiosa para ser humana e ter bons sentimentos. A espiritualidade de um ser humano como Ayana, transcende dogmas religiosos e vai além do que nós podemos imaginar..

    • Oi, André!
      Bem, eu já não me incomodo tanto com o julgamento das pessoas, o que me afeta mais são os meus próprios julgamentos.
      Não se preocupe, porque eu não tenho intenção alguma de me tornar evangélica, por mais que já tentassem me converter. Na verdade, não tenho interesse algum em seguir qualquer religião.
      Sobre um canal mais dinâmico para entrar em contato comigo… bem… não é um problema no canal, mas sim com a receptora. Eu sou muito enrolada para responder as mensagens dos leitores (tanto que faz mais de um mês que você me mandou esse comentário). Tem esse e-mail: minhasconfissoesmaisintimas@hotmail.com, mas eu acho que e-mail é ainda menos dinâmico. De qualquer forma, caso queira me mandar um, prometo que responderei! =)
      Obrigada por vir! Beijinhos e até mais!

  5. Olá Ayana
    Tudo bem com você?
    Adoro seu blog e o seu modo de ver a vida.
    Tenho uma Boutique Erótica e um blog relacionado a sexo e relacionamentos.
    Gostariamos de saber se você estaria interessada em nos conceder uma “entrevista”?
    Mandariamos perguntas via email para você e você responderia apenas as que desejar. Sobre de como ve sua vida, sua profissão, seu futuro, seus relacionamentos pessoais, o que se passa nos bastidores da sua profissão.
    Ou se desejar você mesmo pode nos mandar um texto.
    O nosso email: malaguetabe@hotmail.com
    Obrigado pela sua atenção.
    E independente da sua resposta continuaremos a ler o seu blog.
    Um beijo para você que você tenha um otimo final de ano e que em 2012 todos os seus desejos se realizem.

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