À espera do espírito do Natal


O Natal poderia ser apenas mais um feriado qualquer; o comércio ficaria vazio, e a indústria do sexo mais movimentada. O comportamento habitual é seguir a marcha do consumo irracional em direção ao endividamento. Mas economize com o presente das crianças, para poder marcar um encontro com a Mamãe Noel. Meu espírito de Natal concentra-se principalmente na personificação sexualizada deste ícone pagão. Existe um propósito bem sacana para eu usar essa fantasia: enquanto o bom velhinho distribui os presentes à garotada, sua esposa presenteia crianças bem mais crescidas, cujo comportamento ao longo do ano não necessita ser julgado. Se a época é de festas, o que todos anseiam é gozar intensamente para compensar tantos dias miseráveis que se passaram durante este ano.

O Natal poderia ser apenas um feriado qualquer, mas lamentavelmente fico pensando na minha família, ou quando menos pior, sobre minha concepção de família. Aquela gente de caráter incerto de quem herdei meus genes, inexplicavelmente, esforçava-se para haver, neste período, uma breve trégua e uma aparente concórdia. Quando criança, era fabuloso acompanhar os últimos minutos antes da meia noite para em seguida ganhar aquele presente cuidadosamente desejado. Nas minhas últimas reuniões familiares, a expectativa era de vir bem depressa a hora de todos irem embora. O ambiente na mesa de jantar era excessivamente desconfortável. Sob a minha perspectiva, parecia-me uma tremenda hipocrisia uma tradição cristã modificar em um dia o ordinário comportamento coletivo o qual passaria a manifestar um mínimo de compreensão e tolerância.

O Natal poderia ser apenas um feriado qualquer se não houvesse toda uma pregação de valores altruístas como a solidariedade, a generosidade, a fraternidade. Todos se apetecem em alcançar o perdão e seguir o unanimo sentimento de convivência em harmonia. Neste ano, passei o Natal com outras garotas de programa. Dediquei-me bastante para preparar a ceia, e as outras se encarregaram de organizar a decoração e trazer as bebidas e os baseados. Todo mundo se concentrou para celebrar alguma coisa, nem que fosse o nascimento de um tal de Jesus. Sentia-me pressionada a passar pelo bem-estar concedido por essas festividades, então houve bons momentos de descontração entre nós. Porém, quando propus que cada uma fizesse sua “oração” silenciosamente, ficou muito claro que estávamos mesmo apegadas ao nosso sensível universo particular. E compartilhávamos sorrisos encenados para não infamar a fantasia de um Cântico de Natal tão distante desta realidade.

(Sobre a autora, clique aqui)

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7 comentários sobre “À espera do espírito do Natal

  1. Na verdade, o Natal é uma época em que todos se travestem de alguma coisa que não foram durante o ano inteiro ou não são mesmo.Todos se acham solidários, com corações abertos, comida para quem tem fome ou Natal sem fome;(e o resto do ano, ninguém sente fome?) Hipocrisia pura e desencargo de consciência!! E os pobres perus,(falo das aves); ninguém os come durante o ano; só no Natal. Hoje eu estava pensando no Natal e cheguei a imaginar e comparar todos “os perus do mundo com um campo de concentração nazista”, onde cada uma das aves teriam um fim trágico. Pra não dizer que eu não falei: EU NÃO GOSTO DO NATAL!!!

  2. Eu passaria minha noite de Natal com essa turma, na boa. Dispensaria os baseados, obviamente, sem traumas.
    Ayana linda, escreva mais, se inspire mais, f… mais. Isso é viver e nos dá novas “confissões inconfessáveis”.

    – E elas, com ou sem blasfêmias, serão sempre bem-vindas.

  3. Olá. Leio o seu blog desde o começo desse ano de 2011, e agora, estou pensando aqui comigo…existem pessoas que se encontram apenas por sexo, o prazer dele e nada mais? Ja procurei muito na Internet e até agora nada…somente sites de relacionamentos que visam lucro…gostaria de saber se você conhece um forúm ou algo onde pessoas se conhecem apenas para sexo e seu prazer puramente dito…continue escrevendo! Bjs!

  4. Belo post!

    Gosto do tom, do distanciamento emocional, gosto mesmo da aparente frieza e da insensibilidade que tantos talvez lerão no seu texto. Mas ao contrário de muitos que se sentam em torno de mesas ao redor do mundo nesta data e repetem como autômatos o ritual a ser encenado no dia 25/12, você o faz com a autenticidade que te caracteriza.

    Não acho que deveria ser diferente. E nada contra as pessoas que realmente encontram nesta data o sentimento e o significado que professamos com tanto alarde, incluse nas matérias da TV, incessantes em dezembro. Se é sincero é bom, isto vale para todos, indistintamente.

    Faltam 2 horas para o ano novo. E de novo, uma profusão de votos serão feitos. Os meus já deixo aqui: muito pouco diferentes do que desejo cotidianamente pra ti, em dias de festas ou não, em dias alegres ou tristes, de tédio ou de prazer de viver: que você siga mais segura no seu caminho, o qual não é fácil e nem um pouco óbvio, ele é bem tortuoso; mas que avance sempre com mais altivez a cada passo (e eu sinto que você está conseguindo), mais leve, mais segura de si e do seu valor, e mais exigente com este mundo que se você deixar, só vai te maltratar.

    Que você tenha sempre inteligência para saber o que fazer nos momentos mais difíceis e serenidade para perceber a sua evolução, e se alegrar com isso, a cada dia.

    Um beijo carinhoso e um feliz 2012. Você só está começando!

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