Por uma prostituição mais solidária


Em meio a uma série de escolhas, a fator sexual sempre foi decisivo na minha vida. Era um porto seguro de que pelo menos sentiria alguma forma de prazer, de que estaria aproveitando instantes preciosos que poderiam passar em branco. Se havia várias possibilidades de gozar, por que não? Mas eu não poderia construir uma história pontuada entre quatro paredes com um parceiro na cama. O que me diziam é que era fundamental se preparar para a vida adulta, para a emancipação do colinho dos pais alcançada por uma carreira profissional. Só porque tinha uma vida sexual bastante dinâmica, não significava que estava me preparando para a atividade de meretriz; mas foi o que aconteceu.

Na época dos estudos – e já faz muito tempo – estava me organizando para seguir na área de medicina. Queria salvar vidas, sobretudo na África. Era o efeito de um sentimento, que ainda muito me persegue, de tentar minimizar algumas injustiças sociais. A boa vontade ainda persiste, contudo, não mais para tratar enfermidades africanas. Por mais que mudar o mundo parecesse mais fácil, fui impelida a me concentrar somente nos meus problemas pessoais. O quadro era crítico: problemas familiares, de relacionamentos, escolares, sexuais, com drogas, com a minha reputação. Melhor fechar os olhos, respirar fundo e recomeçar!

Afastar-me de todo esse caos, trouxe-me mais um problema: o financeiro. Pois seja bem-vinda ao mundo adulto! O objetivo agora é a estabilidade – financeira, no caso; é o que apregoam os pais. Simplesmente absorvi esta premissa e fui tomando muitas decisões baseando-me nos benefícios que obteria para minha atividade profissional. Quando foi que decidi que o meu malfalado oficio ocuparia a primeira linha das minhas prioridades? Não recusaria a premiação de melhor prestadora de serviços sexuais, porém com certeza isso não me traria a estabilidade que procuro. O percurso profissional não é a via mais importante na minha vida, caso o reconhecimento se traduza, principalmente, em cifras cada vez maiores. Depois de ter alcançado meu equilíbrio econômico, minhas ambições são muito mais voltadas para o meu bem-estar e a satisfação dos meus contratantes.

Tudo isso pode parecer um discurso demagógico – considerando que minha hora de trabalho está muito acima da média nacional -, ainda assim, não gosto muito de pensar na minha prostituição como um modelo de negócios. Afinal, quanto vale ter um orgasmo estimulando-se com o meu corpo? Só sei que é uma atividade que me agrada e que também me traz uma boa remuneração. Contudo, estes pormenores não me impedem de buscar um sentido a mais para comercializar relações sexuais.

Por que tantas pessoas gostam de se vangloriar pela quantidade de vezes que fizeram sexo? Ora, em nossa sociedade, o sexo concentra um enorme valor, seja visto como uma premiação, uma conquista ou uma recompensa. Depreende-se disso que a satisfação sexual deveria ser tratada como uma das prioridades quando se almeja a felicidade de alguém. Uma sociedade que realmente valorize o bem-estar de sua população deveria trabalhar para desconstruir todos os tabus sexuais. Assim, quem sabe um dia eu deixaria de ter vergonha de simplesmente agradar algumas pessoas.

(Sobre a autora, clique aqui)

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20 comentários sobre “Por uma prostituição mais solidária

  1. Buscar um sentido a mais para comercializar relações sexuais???
    Só se você começar a pagar dízimo do que ganha nessa atividade, meu bem! Sei lá, passando a contribuir com uma causa social, um lar de crianças carentes, para que outras meninas não tenham que se prostituir para ter o que comer… É uma boa causa.

    “Uma sociedade que realmente valorize o bem-estar de sua população deveria trabalhar para desconstruir todos os tabus sexuais. Assim, quem sabe um dia eu deixaria de ter vergonha de simplesmente agradar algumas pessoas.”

    Nisso eu tenho que concordar. O prazer sexual é tabu, pecado. A mulher que tem prazer sexual é mal vista. Vai uma mulher dizer que adora sexo anal, que sente prazer? Torna-se um escândalo!! Por que isso??? Por que uma mulher não pode se realizar sexualmente?? Já ouvi de muito homem aquela mesma frase do filme “Máfia no divã”, da cena em que o Psiquiatra pergunta: “O senhor tem esposa e filhos, e também tem uma namorada??” O Chefão da Máfia responde: “Claro que tenho namorada, como vou fazer sacanagem com minha esposa, a boca dela é a mesma que beija meus filhos”. Eu não entendo porque um homem casado, que se diz bem casado procura uma garota de programa… Realmente não entendo.

    Não acho que as pessoas se vangloriam pela quantidade de vezes que fizeram sexo. Acho que os homens se vangloriam com a quantidade de parceiras. Para o homem, ser pegador é sinônimo de virilidade. Para a mulher, é sinônimo de puta.

    Amiga, você não deveria se envergonhar, pelo contrário. O que as pessoas buscam é ter prazer em todas as áreas da vida. Infelizmente, a vida profissional ocupa tanto a vida de alguns, que falta tempo para se realizar em outras áreas. Ele(a) não consegue dar prazer à esposa(o) tampouco consegue se realizar sexualmente… Você escolheu vender sexo como atividade profissional. Se através do seu trabalho, você consegue ter prazer e dar prazer, que mal tem??

  2. OI…Voce é uma pessoa maravilhosa. Eu a considero uma mulher muito especial. Eu gostaria de contactar com voce. Desculpe se manifesto-me através deste espaço, pois não sei de que outra maneira o poderia fazer.

  3. Eu confesso q descobri seu blog hoje simplesmente ao digitar “submissa” no google. Vim parar aqui e ja devo estar aqui há umas duas horas, lendo trechos de posts ou eles inteiros, vendo a maneira como se coloca e como se expressa. Como vc é humana em suas palavras, algo raro, pois a maioria escreve de maneira ascética. Vc sabe se expressar e escreve muito bem, mas repito que o que me encantou em seu blog foi sua humanidade. A temática do blog em si é um mero detalhe. O que importa é a mulher que escreve. Parabéns Ayana

    • Oi, Crom!
      Então, o meu blog é cheio de palavras-chave referentes à sexo, mas acho que não traz o conteúdo que o internauta realmente estava buscando. Felizmente, entre aqueles que chegam de forma inesperada por aqui, alguns resolvem voltar =)
      Espero que volte mais vezes!
      Beijinhos e até mais!

  4. Ayana, você está arrependida, ou profundamente arrependida, dos rumos que tomou? Pensa que o que faz, fez ou deixa e deixou de fazer a fazem uma pessoa pior? Tenho medo de que caia numa baita depressão, embora pareça que já tenha enfrentado esse problema, pelo que percebo nos posts. Só não quero que entre novamente, e acabe fazendo alguma besteira. Mesmo não sabendo nem como é seu rosto, os laços que criou com seus desabafos fizeram e fazem com que haja pessoas que se preocupam com você.

    Se quiser tomar outros rumos, seguir uma carreira, isso não vai ser difícil, pois sinto que você tem potencial de sobra. Parece que você está numa jornada mais dedicada de reflexão, conhecendo a si mesma. Essa jornada leva a vida toda, não cessa nem no leito de morte, mas tem épocas em que temos que tirar umas férias do mundo, e sentarmos conosco mesmos. E parece que é este o seu momento, agora.

    Continue nos presenteando com seus ótimos textos, e não esmoreça, menina!
    Avante, sempre!
    Beijão!

    • Oi, André!
      Eu não me arrependo de ter direcionado minha vida neste sentido. Tenho até muita dificuldade para imaginar outra possibilidade.
      Momentos de depressão podem vir, e besteiras algumas vezes eu ainda faço, com o diferencial de que passados esses problemas, eu tenho a sensação de me sentir mais viva =)
      Eu pretendo seguir outra carreira profissional, entretanto, não encontrei nenhuma alternativa interessante.
      Recentemente, andei tirando umas férias, não programadas, para refletir sobre mim mesma, tanto que deixei até o blog de lado.
      Obrigada pela agradável visita!
      Beijos, beijos!

  5. Fico cansado com tanto puto que aparece aqui pra dizer como que “beleza, se racionalizando assim você se sente melhor”, ou “descubra Jesus e se salve enquanto é tempo”, e bobagens diversas, que levaria anos pra transcrever.
    Ayana, manda esses calhordas se catarem, pois nenhum teve a coragem de fazer as coisas que tem vontade, e de encarar a vida de frente, e o melhor, superando os problemas que aparecem pela frente. Meus parabéns, Ayana, por ser essa pessoa forte que é!

  6. Muito bom seu post, Ayana! A prostituição faz um bem danado à humanidade pois é nela que encontramos sexo na verdadeira acepção da palavra. Sem tabus, sem preconceitos e com muito prazer. Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?Entre as muitas “fomes” e “sedes” da humanidade; o prazer sexual é um dos mais relevantes.

    • Oi, Ari!
      Eu acho que nós, garotas de programa, fazemos um trabalho que as pessoas, principalmente os consumidores, sabem que é fundamental para a sociedade, mas dificilmente admitiriam isso. Em nossa sociedade, as profissões ligadas a sexo sempre foram delegadas como sub-emprego. Independente disso, alguém precisa atender esse enorme mercado!
      Beijinhos e apareça mais vezes!

  7. A prostituição é tratada com mta hipocrisia. Penso q deveria ser legalizada de uma vez. Só assim se acabariam com as mazelas q hoje seguem as marginalizadas. As casas legalizadas iriam recolher impostos, as(os) profissionais teriam direitos trabalhistas, a vigilância sanitária faria controle diminuindo a propagação de DSTs, com a fiscalização a exploração de menores seria melhor combatida. É uma profissão regida pela lei de mercado, enquanto houver demanda haverá oferta. Só os políticos hipócritas, os pseudo-religiosos e as mulheres de orgulho ferido é q fingem não ver. São os maridos, correligionários, os fiéis, os digníssimos q movimentam esse mercado. Se querem demonizar então q façam no personagem certo: os clientes.

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