Um chute para quem estava no chão


A última notícia que eu tive da Viviane era que ela havia apanhado bastante. Primeiro me disseram que o agressor era um cliente e depois me informaram que era o namorado. Recentemente, descobri que os dois são a mesma pessoa. Segundo os boatos, ele estava bêbado e suspeitava que ela havia roubado dinheiro de sua carteira. Ainda que esse covarde merecesse passar uma longa temporada atrás das grades, este caso nunca foi registrado na delegacia. Pelo menos, em nossa pequena rede de informações, já sabemos a identidade deste imbecil, para quem eu nunca irei dar… aliás, uma precisa voadora ninja em seu saco, muito provavelmente, eu daria!

Indiscutivelmente, a Vivi é a vítima da história, por outro lado, ela é outra que mereceria um chute no saco, caso ela tivesse um. Embora eu escreva todas essas bobagens, dificilmente teria coragem de empregar qualquer forma de violência contra alguém. Existem, todavia, exceções: tenho uma raiva acumulada especificamente por aquela puta, porque desde que nos conhecemos, ela sempre foi muito escrota comigo. Quando a conheci, ela era apenas mais uma idiota acreditando que eu não aguentaria ficar muito tempo na prostituição. E à medida que os meses passavam, eu ainda estava lá, por vezes disputando os mesmos clientes com ela. Admito ter participado um pouco dessas rivalidades imbecis entre garotas de programa.

Bastava a gente se cruzar para ela, prontamente, tentar me desqualificar com seu pequeno repertório de provocações. Uma vez nós discutimos numa festa, porque ela veio com a conversa de que os homens buscavam uma mulher de verdade, completa como ela e não uma pirralha brincando de dar a bocetinha. Geralmente não dou confiança alguma para os sermões os quais ela insiste em me passar, entretanto, naquele dia, como já estava estressada por outros motivos, respondi algo mais ou menos nessas palavras:

– Esses idiotas que dizem que você é completa não procuravam outra coisa além de dois peitos enormes.

Ela me chamou de vagabunda, piranha, vadia e retardada, enquanto eu fui bem mais sucinta e apenas a mandei tomar no cu. Um sujeito acompanhou a discussão e em seguida foi conversar comigo sobre a Viviane. Simplesmente lhe disse que ela era muito tosca e estúpida… para que? No dia seguinte, a senhorita incivilidade veio aqui em casa para me cobrar explicações a respeito das críticas sobre ela que eu estaria espalhando para seus clientes. “Que mulher deselegante!” – pensei. “Vai começar a baixaria só porque eu a chamei de tosca e estúpida?”. E o vexame poderia ter sido maior se a minha cafetina não tivesse intercedido antes que eu começasse a apanhar.

Nesse mesmo dia, ela me enviou pelo menos umas seis mensagens no meu celular só para me ofender e me ameaçar. Se a intenção era me intimidar, com absoluta certeza ela fora muito bem-sucedida, tanto que deixei de trabalhar em certos lugares onde costumava encontrá-la. Passei uns três meses fugindo desta puta transtornada, mas aí comecei a achar que estava ficando meio neurótica com todo este caso. Queria dar uma chance para a bendita reconciliação: provavelmente ela superou nossas divergências infantis e, quem sabe, poderíamos até nos tornar coleguinhas!

Eu mereci mesmo apanhar por ter pensado dessa forma. Sua índole, destituída de muitos méritos, continuava ordinária como de costume. Isso me deixou muito irritada, a ponto de mandar um foda-se para a senhorita malcomida e assim me concentrar unicamente no meu jeito de trabalhar. Em uma dessas festas onde nós duas trabalhávamos, conversei não mais de dez minutos com um rapaz aleatório até minha agradável colega de profissão me afastar dele. Ainda assim, trocamos alguns olhares durante a festa que nos guiaram para um canto onde transamos.

Já no final da noite, eu estava do lado de fora fumando e conversando com uma amiga, quando a vaca da Vivi chegou por trás de mim, puxou o meu cabelo e me derrubou no chão. A única reação que tive foi tentar me proteger desta mulher que agora estava em cima de mim, dando socos na minha cabeça e arranhando meus braços. Ela não parava de gritar comigo, mas só pude entender que havia muito ódio em suas palavras. Minha amiga foi me ajudar e acabou apanhando também de uma delinquente que acompanhava a minha agressora.

Quando outras pessoas conseguiram tirá-la de cima de mim, eu não tinha coragem de me levantar. Meu nariz e minha boca estavam sangrando bastante e também havia vários arranhões no meu braço. Insultos e ameaças ainda eram dirigidos a mim, mas diante de tudo que ocorreu, o melhor a se fazer era ir embora. Sinto que me fez bem chorar tudo de uma vez, para dissipar o susto depressa e conseguir me acalmar. Passei horas tentando dormir, mas havia uma voz na minha cabeça que não se calava: “Ela fez exatamente o que eu queria. Será que devo me arriscar outras vezes?”.

(Sobre a autora, clique aqui)

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12 comentários sobre “Um chute para quem estava no chão

  1. “Ela fez exatamente o que eu queria. Será que devo me arriscar outras vezes?”

    Ayana, por favor, responda-me, porque juro que devo ter entendido mal: você queria apanhar? Desculpa se minha interpretação foi o oposto do que você queria dizer.

    Se a minha interpretação foi correta, por que você teria esse sentimento de que precisa de um castigo, que precisa de punição, purgar-se de algo que tenha feito ou deixado de fazer?

    Especificamente no caso dela, a violência e ignorância que ela exala devem ter atraído gente de mesma índole. Foi uma reação, um contra-golpe que ela sofreu, nessas linhas tortas da vida, onde nem dá pra imaginar onde os cruzamentos vão dar. Em suma, foi uma espécie de nêmesis que ela encontrou, e não sinta pena nenhuma, Ayana. De certa forma, justiça foi feita.

    Agora, se você tiver esse sentimento, essa ânsia por um purgatório, nossa, dá vontade de tomá-la no colo e perguntar onde, na sua vida, aconteceu algo que a tenha atingido e mudado-a de tal forma.

    Ayana, não somos certos, não somos errados, não somos justos ou injustos, somos humanos, e esse andar no fio da navalha que torna essa vida toda tão interessante. Mande as culpas irem se foder… Tem coisa mais judaico-cristã que culpa? rs rs

    Então, vamos mandar esse sentimento às favas!

    Beijão, e uma ótima semana!

    • Oi, André!
      Desculpe te responder com quase dois meses de atraso =/
      A resposta é: sim, eu queria apanhar, porque eu sempre busquei formas de me castigar, para provar que eu estava errada, que deveria ser diferente, até para me sentir humilhada. Claro que antes de apanhar eu tenho apenas uma ideia dispersa de como vou me sentir, até por se impossível medir as consequências. Neste caso, eu estava disposta a arriscar, tinha muito pouco a perder e era uma pessoa com quem não me dava bem, então não estava com motivação para evitar o conflito.
      Só de escrever um pouco sobre isso, já fico com a mente toda confusa.
      Obrigada por deixar este comentário; ele me trouxe algo muito bom!
      Beijos, beijos e até a próxima!

      • Acho que você se maltrata de mais e isso é uma realidade. Se essa história for realmente verídica, pois posso interpretá-la como uma abstração de uma menina e o seu alter ego, fica claro que a agressora tem uma imensa inveja da autora. Qualquer ação que brota através da inveja cria conflitos. Infelizmente, na história narrada, não teve como se evitar a agressão. Podemos dizer que a autora foi vítima do destino. Infelizmente vivemos em uma sociedade agressiva, somos todos vítimas de fatos similares. Te apoio!

  2. Acabo de ler seu post e vejo o quanto és corajosa e forte. Mesmo tendo sido vítima em potencial da garota, mesmo assim você a defende. Quanto às culpas; livre-se delas, querida; pois não vale a pena! Dispense essa herança herdada por nós da cultura cristã judaíca ocidental. Beijos.

  3. Eu, sinceramente, responderia com algum ato de crueldade inesperado e covarde… Daqueles que a fariam nunca mais se meter comigo (ou nunca mais conseguir falar FAROFA sem sair sangue pelo nariz).

    Em todo caso, não recomendo. Supere-a. Supere-se.

    Bj.

  4. Eu queria descobrir algo que te fizesse despertar um ódio ativo pela humanidade, que te fizesse bater em alguém com vontade, como a Viviane fez contigo. Algo que te fizesse sentir tanto prazer em causar dor em alguém a ponto de diminuir o prazer que vc sente quando alguém te faz sentir dor e te humilha.
    Sabe que eu já muito humilde anos atrás? Hoje eu tenho plena convicção de que humildade é atraso de vida. Ao primeiro sinal de ataque eu olho furioso nos olhos do agressor. Não preciso dizer nada: ele sente na hora meu desprezo. E é muito, muito bom mesmo ver o tom ameaçador se transformar rapidamente no olhar de covardia que no fundo é só o que este tipo de gente tem por dentro. São só isso: covardes.

    • Oi, Marcelo!
      Já existem muitas coisas que me despertam ódio pela humanidade, mas eu precisaria me engajar contra elas. Dificilmente eu chegaria a agredir uma pessoa, porque não vejo isso como uma solução, às vezes é melhor que a pessoa morra de uma vez, de causas naturais, de preferência.
      Depois a gente conversa mais sobre humildade! Beijos, beijos e até mais!

  5. Quanto tempoooooooooooo!!! Acredita que nao acavaais teu blog, estava com saudades, lembra de mim? Bruno, nos conhecemos no chat, sou gaucho q mora na costa rica, brigamos muitas vezes no msn, kkk. Quero voltar a manter contato, aco q em abril vou pra ai e quero t ver, me add d novo. Meu msn vai no email abaixo. Bjs e t espero.

    • Oi, Bruno!
      Não me leve a mal, mas sinceramente não estou interessada em me encontrar com você, porque a impressão que me passa é a de que, uma vez que vem ao Brasil, quer ter uma companhia. Se quer uma garota de programa, pague por ela, mas este tipo de encontro que está me pedindo é algo que se conquista. Dizer que sentiu saudades agora, parece-me muito conveniente e devo lembrá-lo que foi você que ficou insistindo para que eu o bloqueasse. E agora você vem com uma mensagem totalmente dissociada da nossa realidade. Para você, é mais conveniente dizer que brigamos muitas vezes, mas isso já passou. Calma aí, essa não é a mesma visão que tenho.
      Bom, você deixou outros comentários, então vou respondê-los também (não sei se todos).
      Beijos!

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