A projeção dos meus fantasmas


– Por que você não volta para casa?

Francamente, eu não saberia contar os detalhes do que aconteceu antes de ele me fazer esta pergunta. Fizemos sexo – isto é certo – e ele havia acabado de gozar. Eu estava nua, deitada na cama e olhando para cima, acompanhando o quarto balançar-se sutilmente. Meu cliente estava de costas para mim, sentado na beirada da cama e, provavelmente, mexendo no seu pau, quando me fez aquela pergunta. Em vez de responder, comecei a rir imaginando meu pai dizendo: “Viu só, você nunca me obedeceu e agora está aí se prostituindo na zona para sobreviver sem mim”. Meu deus, que pergunta mais estúpida! É evidente que eu jamais daria este generoso deleitamento ao meu querido papai.

– Porque a gente ainda tem alguns minutinhos, e quero passá-los com você!

Eu o abracei por trás e puxei seu corpo para se deitar na cama e assim voltarmos a transar. Estava em cima, de joelhos, com as pernas abertas e seu corpo entre elas, observando atentamente os seus olhos pela primeira vez. Juro não saber qual semelhança notei em seu rosto que me fazia recordar o meu pai. Talvez tenha até sido uma alucinação; não sei, não me interessa agora! Lembro-me de entrar num estado de plena consciência simultâneo a um questionamento: “E se este sujeito fosse o meu pai?”. Embora sua respiração estivesse bastante ofegante, ele mantinha o mesmo sorriso malicioso e os olhos concentrados nos meus pequenos seios. Sem conter sua avidez, começou a massageá-los e a roçar o pênis ereto no meu rego, enquanto eu permanecia estática e um tanto assustada.

– Vem cá! Quero te beijar agora!

Fechei os olhos e, ao sentir sua língua entrando em minha boca, disse a mim mesma: “Tudo bem, desta vez farei do jeito que o senhor quiser!”. Poderia jurar que uma hora eu o ouvi pronunciar o meu verdadeiro nome, mas isto não teria cabimento algum! Possivelmente eu estaria enlouquecendo, uma vez que não teria como ele saber quem eu sou. De fato, eu mesma também não sabia quem eu era. Apenas a menina forçada a fazer um boquete? Para mim, não era só isso. Engoli cada gotinha da sua minguada ejaculação e depois enxerguei graça e desprezo por aquele indivíduo. Não poderia acabar assim! Bati bem forte umas cinco vezes seu pênis semiereto no meu rosto, até o cliente tirá-lo da minha mão. Em seguida, ele me abraçou com muito carinho e beijou o meu rosto. Definitivamente, era a pessoa errada.

(Sobre a autora, clique aqui)

Anúncios

22 comentários sobre “A projeção dos meus fantasmas

  1. Está inspirada e produtiva literariamente no início de ano! E esses fantasmas, heim, moça?! Teu pai nunca te disse uma coisa dessas. Ainda é muito difícil de vê-lo enquanto um homem que também erra? Ele errou sim, várias vezes. Mas por que acha que os dois não podem resolver alguma situação sem levantarem cavalos de batalha? Querida, existem mais possibilidades no mundo do que viver na prostituição ou viver submissa na casa do teu pai. Você sabe que existem possibilidades onde você pode se realizar e fazer coisas das quais gosta. E, talvez, quem sabe, exista uma possibilidade de relacionamento adulto entre você e a tua família. E me parece simplista pensar que o sentimento dele se resume a um deleite de vingança. Talvez possam te ajudar a pegar outro caminho. Pessoas certas? Pessoas erradas? Salvadores? Não… A situação pode ser complexa, delicada, até difícil de resolver. Mas em todas as hipóteses, só quem realmente pode entender a fundo o que se passa, e dar os passos de encontro a alguma solução é você. De resto, com carinho, amizade, a gente tenta te dar um pouco de apoio, porque também não deve ser fácil tocar o caminho sozinha.

      • Vejo que tb precisa de amizade. Fico até surpreso com essa reação de vocês, porque escrevo de um ponto de vista conservador, a favor do ser humano, mas até mesmo sou contra a prostituição.

    • Olá, Amigo!
      Eu vejo o meu pai como qualquer outro ser humano, passível de cometer erros, mas ainda não consegui aceitar todas suas falhas. Quando morava com ele, eu poderia sugerir várias possibilidades de como a gente poderia se dar melhor, mas eu queria que este interesse partisse dele. Ainda fico revoltada ao pensar que eu deveria ter tomado a iniciativa e dizer, então, eu sinto falta disso e daquilo. Hoje eu estaria mais preparada para dizer, porém, toda vez que penso nisso, me vem em mente o quanto minha presença ao seu lado lhe incomodava. Ok, biologicamente, ele é meu pai… mas isso é realmente relevante? Na casa dele, eu era apenas uma estudante malcriada, agora sou uma prostituta. Sei lá, eu espero as piores reações dele e por isso ainda não estou preparada para reencontrá-lo.
      Não esperava desabafar aqui… acho que fiz isso por me sentir segura, vai saber…
      Muito obrigada por me visitar, Amigo!
      Beijos com carinho!

  2. Amiga querida!! Belo post!
    Concordo com o que o Amigo disse… Seria bom se vc tentasse uma reaproximação. Talvez eles nunca se aproximem, por isso o primeiro passo cabe a você. Não é voltar para casa, é perdoar, mesmo que eles nunca entendam suas escolhas.

    Mas imagino a situação de se lembrar do pai estando na cama com cliente… deve ser muito estranho!! Tenho quase certeza que existe um sentimento de vingança quando vc se prostitui… “olha no que me transformei, papai?? Sou uma puta! E a culpa é sua!”

    • Oi, Rafa!
      Quando eu comecei a fazer sexo casual, uma das minhas motivações era produzir uma certa vingança contra o meu pai. Ele nunca soube, mas eu sentia que estava lhe agredindo por outras vias. Eu acho que eu estava esperando ele se interessar pela minha vida e nessa hora, talvez eu contasse tudo. Isso nunca aconteceu e essa minha “vingança” foi uma grande bobagem.
      Beijinhos, querida! =*

  3. Pois é, as relações familiares podem ser tão complicadas né? Mal comparando, porque o contexto não é sexual, vou falar do meu pai. Ele morrreu não faz um ano. Hoje me pego pensando que nunca tivemos uma relação de pai e filho, como a que se espera de uma família “normal”. Não tenho absolutamente nenhuma imagem na minha mente dele me falando algo do tipo: “filho, nesta situação, faça isso…” ou “Marcelo, cuidado com…etc etc” Brigávamos? Não. Nos amávamos? Também não… Posso até dizer que nem convivemos. Saí de casa muito cedo pra trabalhar e estudar e por isso passamos a nos ver esporadicamente até a sua morte. Por que estou contando isso? Pra dizer que sob todos os aspectos, sendo sincero, ele falhou no que deveria ser o papel de um pai. Mas como eu poderia me magoar com isso? Não poderia… Simplesmente percebi muito cedo que acabei invertendo a relação. Amadureci muito rápido e com isso o referencial do pai foi ultrapassado. Buscá-lo acabou significando olhar para trás. Acho que algo parecido ocorreu contigo. Vc é uma pessoa absolutamente singular e deve ter sido um desafio enorme para ele, com o que ele não soube lidar. Simplesmente ele não estava preparado. No seu caso, a coisa acabou em agressão mútua e ruptura. Reconciliar é difícil. Mas infelizmente (ou felizmente, talvez) a iniciativa só poderá partir de você, que é o ser humano mais evoluído desta relação com certeza. Mais obrigação pra ti?, vc pode me perguntar. É… conhecimento só traz dor, querida Ayana e vc já conhece muito. A Rafa e o Amigo estão corretos. Talvez hoje isto ainda não esteja claro pra ti, mas acho que um dia vc vai perceber que estender a mão pra ele (e pra sua mãe também) vai te fazer um enorme bem. E acredite, pra eles mais ainda.

    Beijos!

    • Oi, Marcelo!
      Hoje eu resolvi responder esses comentários antigos e confesso que fui pega de surpresa por virem tantas reflexões sobre a minha relação com meu pai. Eu bem que gostaria ter lidado com essa questão da mesma forma que você, mas no meu caso, a ausência dele só me gerou muita revolta. E isso ainda não está resolvido e nem vou resolver agora. Eu tento ser racional, mas não dá. Isso me deixa tão incomodada, que prefiro parar de pensar nisso agora.
      Enfim, que resposta é essa que estou dando?
      Beijinhos e obrigada pela visita!

      • Ayana, aos poucos, vc consegue entrar em contato consigo mesmo. Já o está fazendo, de certa maneira, por aqui. Talvez uma boa psicoterapia para conseguir falar sobre isso e organizar as idéias, quem sabe? Já que não está conseguindo chegar a tais conteúdos “sozinha”. De qq maneira, vc compreendeu algo importante: que a vingança da adolescência foi uma bobagem (em verdade virou-se contra vc). Como já disseram aqui (acho que o Marcelo…), era complicado para o teu pai lidar contigo, pq vc é muito inteligente, mais do que ele, com um tipo de crise existencial que ele não conseguia lidar. Não é uma crítica a vc! Vc não deve mudar o que é em essência. Ser inteligente e lidar com a crise existencial que tu tens, “guriazinha”, SE BEM CANALIZADO, como na hipótese da literatura, pode significar coisas bem legais na tua vida. Mas ele era meio básico e imaturo. E ainda entrou a questão da tal “vingança” para chamar a atenção, e, se não estou enganado, com uma compulsão sexual – que precisava ser tratada e não julgada. Foi muito para ele; ele se perdeu; e vc mais ainda. Mas insisto, querida, existem outras maneiras, além da prostituição e da hipótese de viver submissa na casa dele. Se não quer abrir a questão da prostituição, acho que te entendo os motivos. Mas pode conversar que amadureceu, que levou porrada da vida, que compreendeu que nem você e nem ele são perfeitos e que erraram muito em um momento conturbado da vida de vocês. Sim, porque acredito que teus pais tb pd ter amadurecido um pouco nesse meio tempo. E que possam a te ajudar a pegar outro rumo – o tal curso em outro país, como tem muita gente fazendo agora. Ou a publicar teu livrinho “fictício”… Ou teus livros… Ou curso de jornalismo aqui mesmo… Tantas coisas. Vc precisa se fortalecer, pq aí consegue atingir seus objetivos.

  4. Esperava encontrar aqui mais um blog de sexo… porém cada vez mencanto mais com seus desabafos.

    Não… Não sou cliente seu. Parabéns pelo post. Excelente literatura. Quer um conselho? Catalogue sua vida. Sua aposentadoria pode ser um livro.

    • Respondendo…
      Financeiramente: ainda bem.
      Profissionalmente: tens tempo de sobra para corrigir, se essa for a tua decisão.
      Sexualmente: haverá dias bons e dias maus. Os segundos ajudam-nos a apreciar os primeiros.
      Socialmente: a isolação, salvo algumas excepções, é normalmente uma construção interna.
      Afetivamente: join the club. It’s called “almost everybody” and we meet at the bar :)
      Psicologicamente: olha que bom! A maioria dos terráqueos tem essa parte bem desorganizada. Aproveita!
      Conclusão: parece-me que estás acima da média ;)

Compartilhe também sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s