Personalidade partilhada e partilhada


Minha primeira apresentação, diante de uma possível dominadora sexual que requisitava submissas para serem humilhadas, refletia um pouco de desespero, embora eu tentasse ser convincente de que tudo que eu precisava era de mais prazer. “Sou a garota perfeita para ser humilhada, porque a minha vida já está uma merda”, e em seguida comecei a descrever a imagem miserável que tinha de mim mesma como garota de programa. Isso foi em 2009, quando eu estava empenhada num processo de destruir a minha vida; não no sentido que levaria à minha morte, mas sempre direcionada para baixo, até atingir uma inferiorização tão profunda que talvez eu até perdesse consciência da minha humanidade. Imaginava se seria possível aproximar minha capacidade cognitiva à de um animal domesticado.

Para a minha surpresa, mesmo depois de eu ressaltar toda minha insignificância, ela se recusou a me humilhar. A partir desta rejeição, comecei a aprender algo fundamental que faria toda diferença na minha vida: separar as minhas fantasias sexuais da realidade do dia-a-dia. Para a maioria das pessoas, parece ser algo bem simples. Por exemplo, uma mulher aceita ser chamada de vadia na cama, mas não aceitaria que ninguém dissesse isso numa roda com outras pessoas. Neste caso, as diferenças contextuais estão muito bem delimitadas. As circunstâncias as quais me sujeitei após a prostituição sobrepujaram vários critérios que definiam o sexo como impróprio para determinados ambientes. Para mim, ainda é complicado perceber a sutil separação destes dois universos presentes num cotidiano tão sexualizado como o meu.

Durante muito tempo, eu mantive o sexo como relacionamentos à parte das convivências em sociedade. Então, eu precisava administrar várias personalidades “diferentes”, para que as atitudes de uma não contaminassem o universo das outras. Essa capacidade performática é natural do ser humano, que desempenha os papéis de pai, filho, empregado, patrão, amigo, namorado. Acontece que no meu caso, eu considerava que cada situação tinha uma personagem específica para vivenciá-la. Digo personagens porque pareciam pessoas completas, quando na verdade, eram apenas partes do meu eu mais complexo. Para se ter uma ideia, cada uma delas tinha um nome, sendo a Ayana o meu perfil mais pervertido e indefeso, e a Ínfima Princesinha (no começo era Filthy Princess) o mais depressivo e revoltado consigo mesmo.

Olha, garota, sinto-lhe informar, mas você é a conjunção de todas essas personalidades! Era hora de apresentar a imagem que tinha de mim mesma, em poucas palavras, a de uma vadia. Nestas fases de transformações, eu arrogava posicionamentos mais radicais. Então quando meu mundo impulsivo, sobretudo associado ao sexo, começou a dialogar com a minha realidade social e mais racional, ao invés de haver um movimento bidirecional, o primeiro passou a subjugar o segundo. Por exemplo, enquanto expunha minhas qualidades de meretriz para os meus colegas no cursinho, por outro lado, raras foram as vezes em que durante, ou um pouco antes de transar, eu me questionei se minhas atitudes eram adequadas, ou me preocupei em trocar uma ideia com meu parceiro para me aparentar mais do que um pedaço de carne.

Retomando o contexto dos primeiros parágrafos, aquela dominadora, chamada Maira, foi a primeira que se atentou para os meus sentimentos encobertos por vulgaridades. É comum um cliente bacana se interessar em me conhecer como mulher e não como prostituta. Juro que em quase quatro anos de profissão, nunca soube ao certo o que responder nestas situações. Jamais falaria pessoalmente para um estranho sobre os sentimentos que procuro manifestar aqui no blog. Não gosto de falar sobre este assunto, portanto escrevo. Se tenho que dizer algo sobre mim, então que seja sobre sexo,  já que é para isso que meu principal cartão de visitas está apontando.

Sei que cada pessoa faz uma leitura muito particular da realidade, mas tive uma surpresa muito legal quando, em meio a tantos paus, cus, porras e outras palavras grosseiras, a Maira disse que cuidaria de mim. Como é? Cuidar? Não, não, espere aí, deve haver algum mal-entendido! Ela queria humilhar alguém, e eu queria ser humilhada, “voilà”, mutualismo! Eu não queria acreditar (e continuo sendo teimosa), mas não precisava de mais prazer e sim de ajuda. E aquela pessoa pela qual eu tinha expectativas de que seria capaz de me destruir, por fim, trouxe de volta à vida uma garotinha tão apaixonada, que me sinto até com vergonha de admitir que ela também faça parte de mim mesma. Por isso, eu a deixo mais quietinha! Do jeito que sou boca-suja, é sempre mais embaraçoso falar dos meus amorzinhos!

(Sobre a autora, clique aqui)

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15 comentários sobre “Personalidade partilhada e partilhada

  1. Ayana quando lhe conheci não me importava com ninguém pois acredito que cada pessoa é responsável por seus atos de ontem de hoje e futuro eu vou sempre acreditar na possibilidade de você ser a pessoa gigante que você não enxerga no espelho em ternura e compaixão só vê quem conversa com você diariamente eu te adoro muito que se colocar em metros falaríamos em galaxias distantes

    • Antes de lhe conhecer, eu não me importava nem comigo mesma! Me encantou muito o seu comentário… e por aqui parece que fica mais difícil expressar o quanto adoro – talvez seja melhor o quanto amo – você.
      Muito bom encontrá-la quase todos os dias e até mesmo por aqui!
      Beijos com carinho!

  2. Sem cabeça para comentar por esses tempos, mas continuo lendo, me preocupando contigo, e torcendo para que você se encontre mais e mais. Muito interessante este post! Quanto aos recentes, gostaria de te lembrar que – conquanto bem poucos – existem sim homens capazes de querer te ajudar sem desejar nada em troca. Cuide-se bem!

    • Oi, amigo!
      Sei que tem homens que poderiam me ajudar sem desejar nada em troca, mas eu fico com vontade de retribuir sem saber como. Sinceramente, passa pela minha cabeça retribuições sexuais, embora não seja uma situação adequada. Eu não sei como agir diante de situações muito diferentes das quais estou acostumada.
      Beijos, beijos e muito obrigada por tudo!

  3. Ayana, seus textos continuam muito bons; cada vez que leio um deles; mergulho em um mundo que pode ser cruel, mas é humano. E vejo como é duro e maravilhoso o mundo do sexo com sua variações e desejos os quais só podemos chamar de “humanos.” Não cabe rotulações nem outros adjetivos.

    • Acho que qualquer assunto pode ser abordado com humanidade. Eu gosto de escrever assim, pensando no meu diário mesmo, porque embora o texto se torne mais pessoal, ele consegue se aproximar de uma realidade comum a todos nós, dentro ou fora do mundo sexual, ou seja, a de sermos humanos.

    • Oi, Laysa!
      Não sei dizer se é um erro sentir pena de mim… só não vejo necessidades para isso.
      Se eu sou feliz… bem, considerando a felicidade como um estado, e não exatamente uma qualidade, só posso dizer que no momento tenho passado por uma fase boa da minha vida. Continuo tendo alguns dos problemas de sempre, por outro lado, o sexo, que é muito constante na minha vida, me gera muito prazer e consequentemente felicidade.
      Bem, obrigada por comentar, seja bem-vinda e volte sempre!

  4. Bom dia querida Ayana,

    Ainda estou tentando decifrar o que sinto ao ler seus textos. Uma mistura de carinho, provocação, desafio, dúvida, dor, desejo. Resumindo: é bom. Enfim, resolvi sair da participação unilateral para expor minhas impressões a você !
    A primeira coisa que tenho a dizer é que embora acreditar na veracidade de suas dores, sentimento este contribuidor da inspiração de suas belíssimas indagações, também acredito que és circundada de muito amor.
    Sobre este post, acredito que as fantasias, neste caso as sexuais, existem para equilibrar ( e vivenciar) os sentimentos que são retritingidos e involuntariamente manipulados na sociedade estas quais: preconceito, amor próprio, carência, vaidade, culpa. Por isso é tão bom ter a fantasia para nos sentirmos livres, nem que seja no campo mental. Bom com relação a viver a fantasia, não acredito que todas sejam realizá-veis pois muitas vezes as pessoas não estão preparadas para enfrentar o “depois”.

    De qualquer forma esta é minha opinião, que pode estar em acordo ou desacordo com a sua ou dos demais participantes do blog.

    Espero que tenha um ótimo domingo,

    Grande beijo, com carinho,

    Tati

    • Oi, Tati!
      Sim, também existe amor na minha vida! ^^
      E aqui no blog muito carinho. Sou muito grata por isso!
      No caso das fantasias, elas trazem mesmo um sentimento de liberdade seguido de um peso na consciência, nos casos mais ousados. O que eu posso compartilhar é que, no meu caso, a vontade de realizá-las pesava muito mais na minha consciência do que certos arrependimentos subsequentes. Então, eu simplesmente percebi que compensava por esses desejos para fora.
      Obrigada por comentar! Beijinhos!

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