O poder para as meretrizes


Vossa excelência adentra o rústico prostíbulo para se aventurar com companhias desclassificadas. As aspirantes a um cargo de secretária ficam com os pelos da xana eriçados, já não se comunicam naturalmente; tudo é insinuação. Enquanto se apresentam, imaginam a carteira do sujeito roçando-lhes o clitóris. Não é apenas no baixo meretrício que vossa excelência é reconhecida por cortejar belas plebeias. Além de participar das fantasias de jovens medíocres e gananciosas, participa também de importantes decisões políticas no âmbito estadual. É um homem muito influente que decidiu conhecer o entretenimento sexual da massa que o elegeu. E agora? Como devo recepcionar tal digníssima autoridade?

A primeira vez que vi vossa excelência pessoalmente foi em uma festa liberal. Tendo em vista sua ocupação num cargo público importante, manteve certa discrição até um sujeito me informar sua verdadeira patente, que logo me seduziu. Para garotas de programa, o dinheiro é um componente bastante encantador e, naquela ocasião, todos os senhores eram charmosos, pelo menos em bens materiais. No meu caso, sinto atração por características mais subjetivas, por isso minha vontade de me relacionar com vossa excelência era um produto de sua posição privilegiada nas instâncias do poder. Naquela hora contive minhas ambições porque meu pretendente já estava muito bem acompanhado e eu ainda não havia definido se minhas intenções eram realmente legítimas.

Em nossa sociedade – cujos homens que pensam com a cabeça do pinto também são formadores de opinião – é incontestável que o sexo é um eficiente instrumento de poder. Esta sentença estaria destacada em letras garrafais na cartilha básica para profissionais do sexo. A fórmula mais elementar da profissão é ridícula pela sua simplicidade: abro minhas pernas em troca de um benefício. Pratico a prostituição mais tradicional, isto é, “dinheiro na mão, calcinha no chão”, porém existem formas de se prostituir que não envolvem, diretamente, transações financeiras.

Antes de conhecer vossa excelência, considerava a prostituição corporativa – quando acompanhantes são contratadas para influenciar as decisões de algum dirigente, ou para obter informações sigilosas – mais um artifício antiético para se beneficiar do poder. Por mais que seja uma política de bastidores – que, a propósito, é bem eficaz – algumas regras e estratégias são bastante claras: sexo pode ser um produto e, para tanto, pode ser negociado. Acontece que, às vezes, a via para a ascendência profissional é tortuosa demais; esforço e dedicação nem sempre são suficientemente reconhecidos, a menos quando empregados no famoso “teste do sofá”.

Aqui no privê, ninguém foi convocado para esta íntima avaliação. Não é necessário trabalhar com um contrato extraoficial de troca de favores para corromper uma puta; o mais cômodo seria simplesmente pagar pelas fornicações e, em situações excepcionais, dar um chocolate ou uma lingerie nos encontros subsequentes. Como vossa excelência queria tão-somente transar, o processo seletivo para contratar sua prestadora de serviços sexuais foi dos mais simplesinhos: bastava fazer uma apresentação. Uma habilidade que desenvolvi nesses anos de putarias foi me adaptar aos gostos do contratante. Diante de uma figura pública, acrescentei uma emenda no meu cartão de visitas assumindo o compromisso de preservar entre nós dois todos os “atos secretos” compartilhados no quarto.

Quando vossa excelência me escolheu, percebi que fora uma decisão política: talvez por eu garantir sigilo absoluto; talvez pela minha cara de garota sonsa sem qualquer malícia. Ainda bem que ele não tinha ideia do quanto eu desprezava  sua atuação na administração pública e também não suspeitava do meu interesse em corrompê-lo para ter acesso ao poder. Se soubesse, aí sim teria verdadeiros motivos para me foder. E ele me fodeu bem… se tivesse que avaliá-lo, daria uma nota sete! O programa em si foi bem mediano, sem nenhuma tentativa de elaborar qualquer conspiração. Foi representativo no sentido de criar algum contato, estabelecer vínculos.

Não concordo que todos os meios sejam válidos para se chegar ao poder, entretanto, não descartaria a possibilidade de usar a minha vagina para influenciar decisões, nem que seja apenas para debater com as autoridades, no sentido de favorecer populações mais vulneráveis. A aprovação de projetos públicos nada mais é do que o resultado de um longo processo de negociação. Como fichas de pôquer, alguns têm grandes empresas, latifúndios, igrejas, ou meios de comunicação. Eu só tenho o sexo, que não me permite apostar tão alto, mas pode, pelo menos, me deixar sentar à mesa, cruzar as pernas e esconder o jogo. Será que vossa excelência já ouviu falar das regras da pornocracia?

(Sobre a autora, clique aqui)

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18 comentários sobre “O poder para as meretrizes

  1. Belo texto, Ayana!

    Lembra da greve de prostitutas de luxo na Espanha?? Chegamos a conversar sobre… Com a crise na Espanhas, as putas de luxo ne negavam a fazer sexo com banqueiros… “As garotas de programa dizem que a paralisação continuará até que os banqueiros ‘cumpram suas responsabilidades sociais’ e comecem a oferecer empréstimos maiores à população. ‘Nós somos as únicas com capacidade real de pressionar o setor’, disse a principal associação de prostituição do país.”
    http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Acao/noticia/2012/03/com-crise-prostitutas-de-luxo-de-se-recusam-fazer-sexo-com-banqueiros.html

    • Nessas horas, me dá até vontade de ir a Europa para protestar ^^
      Eu tenho experiência, porque faz tempo que estou me negando a fazer sexo com todos os banqueiros que vem me procurar =P
      Obrigada pelo comentário, putinha! Estava com saudades!
      Beijinhos! =*

      • Olá, minhas duas princesas favoritas!! Que bom, este “ménage à trois” rs rs. Diria apenas que vcs tem muito mais poder do que imaginam, por isso que sempre me causa espanto a postura de submissão da maioria das mulheres… Sempre as incentivo a fazer valer este poder, seja via sexo, seja pelo charme ou pela sedução. Mas muitas ainda se colocam numa postura subalterna frente a nós homens… A Rafaella neste ponto é bem avançada. E vc Ayana pode conseguir muita coisa se impondo um pouco mais… Beijos, meninas!

    • Oi, Docinho!
      Obrigada pela indicação! Eu gosto bastante do site do Casal Sem Vergonha, mas eu não vou me arriscar em participar, porque eu acho que só estaria preparada para falar de sexo e, mesmo assim, para um tipo de internauta mais segmentado, por isso o meu blog ainda é meio “underground” =/
      Beijinhos!

  2. Não são só as prostitutas que se excitam com o status de poder de um homem. Todas as mulheres, ou as mulheres em geral também. A posição de poder em um meio social certamente é um dos maiores atrativos para uma mulher ficar com um sujeito.

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