A mamãe na versão da madrasta


O fim do relacionamento com a minha primeira namorada deixou dois vazios: um buraco afetivo e um túnel sexual. O primeiro logo foi preenchido quando comecei a namorar uma garota da minha sala, ainda hoje o amor da minha vida. Minha satisfação escorria pelo segundo, sentia-me revigorada por algumas horas e depois novamente o vazio. Ficava na masturbação, no sexo virtual e, algumas vezes, arrumava alguém para me foder. Eram medidas paliativas necessárias enquanto não encontrasse alguém para uma relação BDSM. Mantinha contato com vários praticantes, e embora não fosse muito exigente na hora de avaliar as qualidades de cada um, não abria mão de um requisito: teria que ser uma mulher.

Conheci a Aline numa sala de bate-papo. Ela parecia mais uma caricatura de dominadora: só escrevia com letras maiúsculas, exigia que eu escrevesse senhora no final de cada frase, me chamava de cadela sem me conhecer e ainda queria partir logo para o sexo virtual. Já fui enganada muitas vezes na internet por sujeitos se passando por mulher. Aos quinze anos, suspeitava que fadas e duendes não existiam e também que a Aline era um homem punheteiro e fetichista. Bom, se era só para ficar no mundo da fantasia, pouco interessa o sexo alheio. Mantivemos contato por meses, e ela sempre me dominava de alguma forma. Em uma de nossas conversas, ela me pediu para sempre usar a palavra mágica “mamãe” para me referir a ela.

– Eu imploro, mamãe!

– Me perdoe, mamãe!

– Obrigada, mamãe!

Mamãe, mamãe, mamãe! Isso não saía da minha cabeça! Se antes tudo era mera fantasia sexual, depois disso, meus sentimentos tomaram vastas proporções. Eu queria que ela fosse minha mãe! Por favor, era tudo que eu mais queria! Mas e se fosse tudo uma ilusão? Sentia sua falta e a procurava em outras pessoas e em outros lugares:

Hush now baby, baby, don’t you cry (Acalme-se agora, bebê, não chore)

Mama’s gonna make all of your nightmares come true (Mamãe irá fazer todos os seus pesadelos se tornarem realidade)

Mama’s gonna put all of her fears into you (Mamãe irá colocar todos os medos dela em você)

Mama’s gonna keep you right here under her wing (Mamãe vai manter você bem aqui sob sua asa)

Toda vez que ouvia Mother do Pink Floyd começava a chorar. Vejo minha mãe na letra desta música, com todas suas falhas e virtudes. Ela estava naqueles versos, mas a quilômetros de distância de mim. “And of course, mama’s gonna help to build the wall”. Sem saber, a Aline estava destruindo este muro. Por isso, ela não podia ser real, por favor, não! Isso me deixava apavorada! Era para ser um passatempo, nada além de sexo virtual. Ela me castigava, eu começava a chorar. Não por causa da dor, mas porque depois ela escrevia “muito bem, meu bebê!”. Como queria abraçá-la, esconder meu rosto no seu ombro, sentir sua mão acariciando meus cabelos! Don’t you cry…

Ela era real. Nunca acreditei em deus, mas agradeci a ele com as mãos unidas e olhando para o teto. Meses depois eu o amaldiçoaria. Quando começamos a nos encontrar, ela me castigava por qualquer besteira. Um destes castigos foi me proibir de chamá-la de mamãe e não mais me chamar de bebê. Para ela, eu não fazia nada para merecer este tratamento familiar. Foi então que prometi: “Farei tudo que a senhora quiser!”. Nem tudo me dava prazer, como se podia notar nas fotos e nos vídeos de nossas sessões. Por que aceitei que registrasse quase tudo? A verdade é que sempre esperei ouvi-la dizer “muito bem, meu bebê”. Ora, entendo que boas mães jamais abandonariam suas filhas! Ela estaria sempre aqui para cuidar de mim. Foi minha grande ilusão! Não pude deixar de me sentir enganada e uma idiota por alimentar aquela fantasia virtual. Não era, nem nunca chegou a ser real, por mais que tivesse feito todo o possível para que fosse…

(Sobre a autora, clique aqui)

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13 comentários sobre “A mamãe na versão da madrasta

    • Caos, belo comentário sobre um post profundo e extraordinário! Não sei quando ela tomou consciência, mas é um belo passo para ela conduzir sua vida, ao invés de ser conduzida por ela. Antes de tudo, a “Linda Flor” é um belo ser humano, que tem nela as respostas e a força para se levantar e construir o caminho que realmente merece. Talvez ela ainda não tenha consciência disso. Mas, às vezes, fico tão pasmo com a capacidade dela em discernir o mundo, que tenho certeza de que ela é – sim – capaz de ultrapassar os mundos que cria mentalmente e construir sua nova realidade.

  1. Sim, post muito profundo, fiquei tocada
    Ayana, talvez vc nem goste de entrar nesse ponto, mas hoje vc deixou muito claro o buraco enorme que ficou devido a ausência da sua mãe. Vc já disse que buscou ajuda profissional e não deu muito certo, mas pode não ter sido o profissional adequado… Acho importante vc se autoconhecer e a partir disso, se perdoar, perdoar sua mãe, seu pai. Isso pode ser muito doloroso, mas vai te fazer bem, vai te fazer crescer. E, como disse o amigo, “construir sua nova realidade”.

    Não estou dizendo que vc deva mudar de vida. Se vc gosta da vida que leva, ótimo, continue! Uma vez me falaram o mesmo e a pessoa citou uma música da Zélia Duncan: “Pese o que é bom; Perceba o que é bom; Decida o que é bom… Pra você” O que é bom pra vc pode não ser pra mim. Mas se é bom pra vc, foda-se os outros!

    Beijo!!!

    • Hmmm… depois de tanto tempo sem nenhum contato com minha mãe, às vezes tenho a impressão de que ela nem exista mais. Atualmente não tenho interesse em voltarmos a conversar porque ela se tornou nada além de uma pessoa que com a qual não me dou bem. Esperá-la como uma mãe é pensar apenas pelo aspecto biológico.
      Obrigada pelo comentário, querida!
      Beijos, beijos!

  2. Amei esse texto. Principalmente: “Ela me castigava, eu começava a chorar. Não por causa da dor, mas porque depois ela escrevia “muito bem, meu bebê!”. Ah, Ayana, seu coração é enorme! Não sei o que dizer…

  3. Garota, estou impressionada com o que você escreve! E, é impossível não dizer que você escreve muito bem, acho que vou ler mais aqui para me inspirar quando for escrever meus textos (que embora sejam de assuntos completamente diferentes, necessitam de uma certa inspiração). E legal você torcer para o Internacional, mas o Grêmio é paixão eterna… e bem melhor, rs.

    Realmente, as vezes buscamos em outras pessoas algo que nos falta, como você na sua “mamãe”, o problema é que nem todos tem a mesma concepção de realidade. Amei online algumas vezes, senti necessidades, chorei, moldei frases e gestos em buscas de palavras que me fizessem sentir confortável, e um dia, infelizmente, descobri que eu estava num relacionamento sozinha. Dói, machuca, e é mais fácil fingir que não foi real do que aceitar que foi a única pessoa a acreditar em algo, talvez porque fosse a única a realmente precisar disso tudo.

    Espero conversar contigo algum dia, você realmente parece uma pessoa inteligente e longe da maioria dos preconceitos que circulam por ai como liberdade de expressão.

    Se cuida, beijo.

  4. “E, é claro, mamãe irá ajudar você a construir o muro”.

    (…)
    “Mother do you think they’ll try to break my balls?”
    (…)

    “Mother do you think she’s good enough — for me?
    Mother do you think she’s dangerous — to me?
    Mother will she tear your little boy apart?
    Mother will she break my heart”
    (…)

    “Mama won’t let anyone dirty get through”
    (…)

    “You’ll always be baby to me

    Mother, did it need to be so high?”

    §§§

    Amo Pink Floyd porque sempre se tem a impressão de que as músicas foram feitas exatamente para a gente mesmo. Sempre é tão “pessoal”, tão “eu”. O que indica duas coisas: a genialidade de Barret, Waters, Gilmour, Mason e Wright e o fato de que somos todos muito parecidos em essência, embora tão diferentes… Na essência.

    Are you good enough for me?
    Are you dangerous to me?

    C.J.

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