Dava para ser a biscate


Dos 16 aos 18 anos, saía bastante à noite para dançar, beijar, beber e foder – e indiretamente para não ficar em casa e para provocar o meu pai. Minhas expedições começavam solitárias, por isso o primeiro artigo de sobrevivência que buscava era uma companhia. Para me aproximar de outras garotas, precisava ser no mínimo sociável. Já para atrair os garotos, bastava pôr uma saia bem curtinha. Com isso, quero dizer que o caminho mais cômodo era me tornar uma sem-vergonha. Neste post, tentarei justificar melhor esta minha carência de pudores. Não me satisfazia ser apenas safadinha, queria ser condecorada como a devassa suprema da vida noturna. Pais pressionam os filhos para serem os melhores, e os meus não eram diferentes em relação aos meus estudos. Tirava notas muito boas, sem ter que me esforçar tanto. Poderia ter a fama de uma nerd, mas simpatizei muito mais com o reconhecimento de biscate. Haja dedicação para alcançá-lo!

Se observar a história de infância dos “grandes gênios da humanidade”, não raro, percebe-se que foram crianças prodígio. Fulano falava não sei quantas línguas aos oito anos, beltrano publicou seu primeiro livro aos quatorze, sicrano graduou-se aos dezesseis e por aí vai. Eu queria ter um talento extraordinário na minha adolescência, mas não dava para ter mínimas esperanças de que isso viria pela minha capacidade intelectual – uma característica não muito valorizada pelos mais jovens. Assim, numa noite, enquanto observava o movimento em uma festa, tive um magnífico insight: “Olha essas garotas de vinte e poucos só no grupinho delas, falando bobagens, se achando muito descoladas, dispensando qualquer garoto. Onde está a graça nisso tudo?”. Na insolência dos meus quinze anos, resolvi que iria mostrá-las como se divertir de verdade. Como não tinha um círculo de amigas, agregava-me a qualquer grupo de garotos. Para mim, era uma grande conquista ser a única mulher e passar pelas mãos de todos eles.

Minha lista de contatos se expandiu de uma hora para outra, e o meu número de telefone circulava até por pessoas que nunca conheci. Foi preciso adquirir outro celular para atender somente ligações mal-intencionadas. O sujeito me ligava, identificava-se, mas nunca me recordava do nome de ninguém. A pergunta chave era: “Quando a gente se conheceu?” e a partir desta resposta eu decidia se aceitaria o convite deles ou não. Caso a noite em questão tivesse sido legal, a resposta inclinava-se para um sim, mesmo sem saber ao certo com qual dos garotos que me pegaram eu estava conversando. Aos poucos, fui registrando estas diversas “amizades” nas páginas dos meus diários.

Ir a festas particulares tinha mais vantagens do que sair para baladas. A começar, ninguém se preocupava ou nem mesmo sabia que eu era menor de idade. Poderia beber de graça, fazer sexo in loco – inclusive numa cama confortável – e era mais fácil encontrar alguém para me levar de volta para casa, quando já não capotava por lá mesmo. Durante certo tempo, ia sozinha para estas festas e muitas vezes era a única mulher presente. De certa forma, eram situações muito apreensivas, porque eu jamais poderia cogitar em só curtir o ambiente e ir embora sem fazer sexo. Era minha garantia de proteção: se não fosse consentido – e quase sempre eu realmente estava afim –, teria sido violentada. E para piorar, eu mesma criava circunstâncias de risco.

Uma vez, aceitei o convite de um rapaz para uma confraternização em sua casa. Chegando lá, havia três garotos jogando Winning Eleven no Playstation 2. Aquela era uma brisa muito errada! Se tivesse pelo menos um Mario Kart, eu teria me divertido, porém o máximo que rolou foi uns beijinhos e uma iniciativa de punheta. Não suportei ficar lá por muito tempo e fui embora frustrada e irritada. Como eu evitaria outras conjunturas semelhantes a esta? Mais uma vez, fui iluminada por um clarão (fosco) de genialidade! Eu diria que só sairia de casa se pelo menos cinco pessoas (subentende-se homens) já estivessem na festa. Parecia uma condição razoável, mas logo foi interpretada como: “Ela só aceita transar se houver pelo menos cinco caras!”. A partir daí, minha reputação se substanciou baseando-se nesta falsa premissa. Eu não dava para cinco parceiros de uma vez! Até poderia ter ficado com todos, mas asseguro que ia para cama com no máximo três.

(Sobre a autora, clique aqui)

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22 comentários sobre “Dava para ser a biscate

  1. Esse post me fez lembrar o comportamento de uma amiga minha, quando ela tinha por essa idade, 15 anos. Uma das pessoas mais puras e boas que conheci. Sempre achei que o comportamento sexual dela tinha muito a ver com uma certa carência afetiva, provavelmente vindo da família. Bem, sabia que os pais era separados e que o pai dela morava em outro estado. E acho que talvez ela achasse que a mãe dela não logasse para ela. Penso isso porque a mãe dela deixava el ir pra outra cidade, com 13 anos de idade, e dormir na casa de qualquer um (ela nem precisava avisar onde estava).
    O que vc acha Ayana? Tem alguma opinião?

  2. Querida você era só uma menina…E tudo na vida é um aprendizado no fundo você queria se divertir e chamar a atenção dos seus pais..Ta cê era sem experiência e queria carinho… Beijos minha linda me identifico muito com alguns de seus textos…Te amu! Toma cheru meu minha rosinha!

  3. Situações de risco é a palavra chave, porque afinal a violência é o pilar dessas situações, saber lidar com isso envolve muito jogo de cintura. Mas, por outro lado, se não se envolver nessas situações como se divertir não é mesmo?

    Eu sou muito introspectiva, não costumo narrar nenhuma aventura com tanta liberalidade, é a parte mais interessante que gosto de ler aqui, porque rola uma empatia se é que me entende…
    Por vezes eu vejo as pessoas falando de algo (Como essas situações) dizendo “Nossa! Fulana fez isso” enquanto eu paro para pensar só nisso… “Tá, e dai?”.

    Será um pensamento liberal demais? Um peixe fora d’água, Ayana, engraçado que seu blog parece liberar um pouco dessa frustração de singularidade perante ao mundo tão hipócrita, simuladamente imáculo. E tipo um Dane-se, que eles merecem.

    Entretanto eu mesma, sou insípida, até meio frígida mesmo, que não sinto tanta vontade, o que já é bem estranho, eu não sentia nada, ou não tive bons relacionamentos, nada tipo “Ah, isso foi bom.” prefiro até tomar sorvete, estudar, e tentar passar em medicina. Esse ano minha pontuação foi ótima, e agora espero passar, acho que vai ser mais gratificante do que qualquer aventura sexual minha. E pior, eu gosto disso, essa gratificação nesse lado da minha vida, e deixo essa parte sexual para segundo, terceiro ou plano algum.

    Enfim, beijos, e obrigada pelo post no intervalo de 10 minutos, eu fico esperando para um novo post, ultimamente visito o Blog diariamente, quase um frenesi. E ainda aprendi uma expressão nova (Insight) … (Risos) :)

    • Oi, Mel!
      Seu comentário é excepcional! Não poderia deixar de responder, mesmo depois de mais de dois meses.
      Essa expressão “situação de risco” aponta para o posicionamento da sociedade em priorizar a segurança acima da liberdade. Existem riscos? Sim! Eu já me fodi por isso? Também! E não devo ser exceção porque todos convivemos com a violência. O medo faz com que nos foquemos nos piores cenários. Não era tão arriscado quanto nossa imaginação pode nos fazer acreditar. Para mim valeu a pena priorizar minha liberdade.
      Espero encontrá-la por aqui mais vezes! ;)
      Beijos, beijos!

  4. Hahaha! Que menina interessante.

    Gosto do que se esconde nas palavras desse blog. Da pessoa de pés descalços, do personagem, da essência, dos gostos mais profundos, dos traumas, das idéias, da selvageria, do frio insuportável, das algemas nas pernas. Isso me agrada, confesso. Gosto do sujo e desprezível, do cuspe que lubrifica as entranhas, do nu num concreto frio e abandonado.

    Gosto do que emana de você, garota. Vou acompanhar isso aqui por mais um tempo, espero não ser decepcionado.

  5. Esbarrei no seu blog por acaso, gosto de ler coisas relacionadas ao tema sexo. Só me surpreendi por me sentir mais cativada do que estimulada sexualmente, hahaha! Engraçado, me identifiquei com você, embora, se eu parar pra pensar, tenhamos tão pouco em comum!

    Acho sua vida fascinante e um pouco solitária, às vezes. Acho que a forma com que escreve me leva a querer saber mais sobre você (não só sobre a sua vida haha). A sua personalidade é bastante peculiar, me intriga pensar quais os caminhos que você deseja trilhar no futuro, sobre o que a faz ou o que a faria feliz, ou simplesmente me pego desejando que você seja muito feliz e que nunca mais se sinta sozinha =)

    Anyway, não sei se te interessa saber como uma estranha se sente ao seu respeito, mas ainda assim gostaria de manifestar a simpatia que senti por você ao ler o seu blog! Aceite os desejos de felicidades de uma desconhecida!

    Abraços!

    • Oi, Sara!
      Sabe, antes de criar o blog, eu relatei um caso sexual que tive e publiquei num site de contos eróticos. Depois que eu o li outras vezes, notei que não era lá muito excitante, aí eu desisti desta parte do erotismo ^^
      Adorei saber sobre o que esta desconhecida pensa ao meu respeito e também como uma estranha para você, lhe desejo toda a felicidade e muita paz!
      Beijinhos!

  6. Sinceramente… Me identifico desde a primeira palavra. Contando também a eloqüência de quem sabe o wue diz e usa as palavras a seu favor ( mesmo que as palavras sejam um plano secundário em seu trabalho).
    Tive uma infância medíocre! Trágica, para ser especifica.
    Namoro? Mulheres. Como há de se esperar de alguem como nós.
    Não, eu nao faço programas. Ainda…
    Sinto atração por esse sub-mundo. Sinto atracão por sexo. E segundo minha psicóloga ( que me dopa de remédios para controle de humor) eu sou extremamente impulsiva.
    Adoraria ter sua rotina, adoraria tranzar e nao ter que fingir pudores que não possuo!
    Ser puta é uma arte garotA!
    Ora! Vc sabe!
    Enquanto te assisto e desmaio de inveja, permaneço aqui, na minha vidinha rotineira, esperando algo imensurável acontecer. Espero que aconteça. Espero que caia no meu colo uma oportunidade de me tornar o que sou.
    Como achei seu blog?
    Hum…
    Pesquisando sobre como (maybe) seria as dificuldades que iria enfrentar em tal profissão!

  7. No momento que procuro entender algumas coisas sobre a vida, teu blog me aparece com coisas pra colocar na balança. Quem dera eu tivesse lido antes e pudesse voltar no tempo e fazer a coisa certa.

  8. Ayana, Ayana… pena a nossa diferença de idade ser tanta, se a gente tivesse a sorte de termos estudado juntas… vai saber? nossa vida poderia ter sido diferente.
    Acontece que hoje, aos 35 olho pra trás, pras coisas que eu fiz, pras roubadas em que me meti e agradeço aos céus por estar viva ainda, por ainda estar inteira, por ainda estar lúcida. Teu relato foi me enchendo de apreensão, guria.
    Bem, mas hoje cê já tá mais vacinada contra essas ciladas, certo?
    (por favor, responde que sim)

  9. Então, eu me vi descrita ai. Não porque vivi uma vida como a sua, mas a parte de se sentir deslocada, colocar uma parte da carência querer atenção e se mostrar, sentir que esta presa pela sociedade de alguma forma… As vezes me pergunto se isso não esta em toda garota ou se eu que sou estranha por viver em sociedade e me sentir presa pela hipocrisia que a cerca.

    Admito que sou antissocial as vezes e que por isso as vezes que faço algo diferente (como ficar com uma garota, ou mais de uma pessoa ao mesmo tempo) se tornem raras e espaçadas. E o que eu queria te perguntar é o que me perturba todas as vezes. Como você consegue viver livre desse conceito de que mulher deve se dar ao valor e praticamente ser dona de casa, viver por um homem e ser uma pequena daminha da sociedade?

    Porque eu sinto tanta vontade de viver e me libertar disso, conseguir dinheiro com o prazer e não me envergonhar do que gosto de fazer, mas acho que talvez já seja tarde demais para mim não?

    Desculpe se o comentário te ofendeu.

    • Oi, Mah!
      Respondendo sua pergunta, eu só superei estas imposições machistas porque já fui, e ainda sou, muito discriminada por não seguir estes valores. Se eu não assumisse meu papel de vadia, passaria a vida toda me condenando. Ser prostituta facilitou muito as coisas, porque já se espera certos desvios morais por quem segue essa profissão. Não é o caso de esperar um tratamento respeitoso por parte das pessoas, mas pelo menos com o tempo elas deixam de escandalizar. Um detalhe importante é que para alcançar esta “liberdade”, eu me afastei de todas as pessoas que eu conhecia antes de me assumir como garota de programa. Não sou das mais corajosas =/
      Acho que nunca é tarde para vivenciar pelo menos uma breve situação de sexo por dinheiro. Além de ser muito excitante, ninguém precisa ficar sabendo.
      Não sei se a minha resposta ficou muito clara. Se for o caso, ou tiver outras dúvidas, pode me perguntar por aqui que eu respondo! ;)
      Beijos!

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