Voluntária para experimentos sádicos


Existem caminhos por onde, de fato, não tem mais como voltar. Quando eu me descobri submissa, tive vontade de me entregar a qualquer possibilidade de prazer. Havia aquela crença de que estava apenas atendendo às vontades de quem me dominava. Era conveniente pensar assim para me eximir de arrependimentos. Em pouco tempo, encontrei pessoas tão impacientes quanto eu para explorar minha sexualidade. Tudo foi muito rápido. No fundo, tinha consciência dos meus limites, mas sempre tocava aquele foda-se. A categoria “limites” só existia em função de ser superada. E assim fui progredindo para vivências cada vez mais extremas.

A própria prostituição foi uma das fases. Não esta oficial que pratico atualmente, mas sim dar para um estranho cobrando um valor emblemático de cinco, dez reais. Eu já tinha uma predisposição à putaria, contudo a mesma não poderia ser atribuída ao masoquismo. Talvez, no final das contas, este me trouxe mais redenção do que prazer. Já escrevi neste blog que gosto muito de apanhar, mas os parâmetros de dor aos quais me refiro agora são bem mais acentuados. Para a garota babona e chorona que eu era, classificaria algumas daquelas experiências como verdadeiras torturas.

Nunca tive simpatia por agulhas; atualmente se vierem com a proposta de me espetar, eu prontamente arregaria. No passado, fui bem mais destemida. Furaram meus seios, meu bumbum, minhas costas e a minha xana. Para ser justa, o maior desafio não era suportar a dor, mas sim a aflição. Primeiro sentir a ponta da agulha na pele e depois senti-la enterrada em meu corpo movimentando-se dentro de mim quando passavam lentamente a mão por cima delas. Tenho arrepios ao relembrar dessas e de outras situações ainda piores.

Durante uns quatro anos, mantive contato com um dominador do Distrito Federal. Conversávamos demais, porém nunca chegamos a nos encontrar porque, entre outros motivos, eu tinha muito medo dele. Ele me chamava de “cobaia” e foi um dos responsáveis por bagunçar a minha cabeça e também por canalizar os meus prazeres para fetiches diferentes. Como sempre estivemos geograficamente distantes, achei que jamais iria me doar por completo a uma dominação primariamente virtual. Tudo poderia se limitar a uma mera fantasia e, claro, nas fantasias é que eu não tinha mesmo nenhuma restrição.

Sozinha, tinha todas as possibilidades de trazer nossa conversa para a realidade, mesmo que meu dominador não estivesse ao meu lado. Eu estaria no controle, trazendo assim a segurança de que não iria me exceder. Foi uma doce ilusão! Uma das experiências que mais me marcou foram os castigos. Por vezes merecidos, em outras simplesmente para agradá-lo. Eu tinha que acender um fósforo, apagá-lo e depois de alguns segundos encostá-lo na minha pele. Queimei meus pés, meu rego e na maioria das vezes a minha xana. Para ser mais precisa, o clitóris. Eu jurava que nunca mais voltaria a fazer isso, entretanto acabei repetindo umas quatro vezes.

Era desesperador! Meu grelinho permanecia intocável por dias. Só era possível me estimular e aliviar a dor com o chuveirinho. Impossível atingir o orgasmo. Se por um lado essa situação deplorável de ficar no banheiro com água fria correndo entre as pernas parecia-me merecida e mesmo “estimulante”, por outro, poucas vezes tinha sentido tanta raiva de mim mesma. Um ódio que me fazia chorar! Por que me machucar assim? Esse castigo era muito preciso e extremamente cruel. Atingia um dos meus pontos mais fracos: em meio segundo, transformava toda minha rotina sexual. Adestrava-me. Deste jeito, estava começando a entender o significado de ser uma cobaia.

Naqueles controversos experimentos com animais, eles aprendem a apertar um botão para conseguir comida. Caso apertem o botão errado, recebem um choque. Eu estava me visualizando faminta em uma gaiola com alguém do lado de fora me manipulando para sempre pressionar o botão que dava choque. Para a criatura mais imbecil do reino animal não havia outra opção! Passava algumas semanas e lá estava eu, aos prantos, pegando uma caixinha de fósforo e me queimando mais uma vez. Insistir em erros não é o tipo de comportamento mais inteligente; eu sei disso. Contudo, neste caso, havia uma coerência nefasta e singular por trás de tudo: eu efetivamente havia me transformado em uma cobaia e queimar a mim mesma fazia parte deste experimento.

(Sobre a autora, clique aqui)

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8 comentários sobre “Voluntária para experimentos sádicos

  1. Oi, putinha! Estou com saudade de você! Tudo bem? Estou bem curiosa sobre seu texto anterior, e incomodada com esse… Não é nada ruim, só sinto que essas relações descontroladas, realmente masoquistas são viciantes. Não sei o que pensar sobre isso…
    Bjs

  2. Eu sei abrir a minha mente como ninguém jamais imaginaria, e tenho medo de mim mesma nessa questão e em tantas outras. Mas vou te falar que as vezes a gente ta tao perdida em relação a tudo, que nem percebemos que existe um outro mundo embaixo do mesmo teto, e que tendencias não sao desculpas p\não corrigi-las. Do tipo, “defeito de fábrica”. Acredite em Deus pq Ele existe independentemente de vc acreditar ou não, ele continua existindo. Tudo pode mudar.

  3. Quando leio tuas postagens, tanto estas com experiências masoquistas ou as sexuais ou mesmo as emocionais, não posso evitar de pensar sempre que ou trata-se de uma escritora de ficção extraordinariamente criativa, talentosa e profunda ou uma jovem com uma vida intensa como poucas pessoas; como uma estrela gigante vermelha prestes a colapsar sobre si mesma e tornar-se um buraco-negro ou explodir numa supernova. Talvez todas as situações referidas. Tu mesma saberia a resposta?

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