Duas vadias em uma moldura


Quem observasse do lado de fora, contemplaria uma intensa manifestação de imoralidade. Éramos as duas garotas mais indecentes. Eu 17, ela 20. Durante alguns meses, acreditei que formávamos a dupla perfeita, à medida que conquistávamos espaço na libertinagem. Assim colocaria um fim na minha carência por atenção, afinal ninguém gosta de ser invisível. Em casa, todos se faziam de cegos, enquanto que perto dos meus amigos, eu tentava agir discretamente. Raras vezes minha timidez foi forte o bastante para conter meus impulsos de exibicionismo. Simplesmente fazia graça assumindo o risco de me arrepender depois. Hoje tudo isso faz muito sentido. Queria tanto ser uma puta, que cada boquete era uma pequena conquista e me levava a crer que o sexo poderia conduzir a minha vida. E ainda é o que me conduz! Amém!

Buscava um reconhecimento moderado: nada que transpusesse meu círculo de baladinhas e pegações. Tenho aversão mor à fama! Por motivos óbvios tenho muito a esconder, entretanto o que mais me incomoda são os critérios para a seleção de subcelebridades, sobretudo de mulheres. Cito dois: ótima aparência e envolvimento em alguma situação controversa. “Já trabalhei num supermercado e num puteiro”! Escândalo! “Acredito que nem todo político é corrupto e nem toda puta é vagabunda”! Polêmica! “Gosto muito de dançar funk e de ser puta”! (Sério, esta é a única declaração que me surpreende de verdade!). Enfim, quero sustentar a seguinte constatação: putaria gera visibilidade (não apenas no cenário midiático), caso o partícipe esteja disposto a se expor.

Concluídas essas breves considerações, solicito que a atenção retorne a mim e a minha comparsa. Renderia um livro escrever sobre a Mariana. Ela já apareceu em alguns posts, mas ainda não a havia identificado. Era o tipo de contato que alguém responsável com certeza desaconselharia cultivar. Talvez fôssemos muito parecidas, mas com pelo menos uma considerável distinção: eu me excedia no sexo, e ela na bebida e nas drogas. Tínhamos uma sintonia incrível, porque ela sabia exatamente como eu gostava de ser exposta e explorada. Sem dúvidas, vivenciei nas aventuras que participamos juntas uma das fases mais excitantes da minha vida, quando minha grande preocupação era me autoafirmar como uma vadia para comprovar que minha realidade deveria ser esta: muita música, bebida e pênis eretos.

O que eu mais gostava em nosso relacionamento eram os desafios geralmente propostos por ela. Foram eles que nos mantiveram quase inseparáveis, sustentaram nosso reconhecimento, pagaram algumas despesas e mancharam de vez nossa reputação. Começamos esta jornada com o pé direito. Na primeira vez que a vi, identifiquei-a como uma vadia transtornada e desinibida. Claramente embriagada, começava a gritar uma besteira qualquer, logo cambaleava para frente nos braços de um rapaz e não parava mais de rir. Eu estava beijando um amigo deste cara, mas parei para contemplar a cena. Ela me pareceu menos alucinada, quando tirou um maço da bolsa e acendeu um cigarro. Foi então que me aproximei dela para pedir um. Antes de responder, agarrou o meu bumbum e trouxe-me para mais perto de si.

– Eu te dou um cigarro se você me beijar!

Passamos o resto da festa nos pegando, o que me rendeu muito mais do que um cigarro. Não era comum eu ficar com garotas na frente de outras pessoas, mas quando acontecia, minha vontade era prolongar durante a noite inteira aqueles beijos e carícias mais ousadas. Assim que percebi que lhe agradava formarmos um casal, meu próximo passo foi pavonear nosso envolvimento. Ela se sentou numa cadeira e eu me sentei em seu colo de frente para ela. A cena decorrente poderia ser facilmente reproduzida nos primeiros minutos de um filme pornô.

Várias pessoas se aglomeraram em nosso redor e gritavam palavras de estímulo, aprovação e obscenidades. Eu estava de costas para a maioria do público. Queria demonstrar que estava pouco me importando que tantas pessoas me vissem beijar e acariciar outra mulher. Era uma pequena encenação. Se as pessoas se comportassem e observassem nossa cena de amor sobre uma cadeira do mesmo jeito que se contempla uma obra de arte, poderiam ter escutado meus gemidos mais sinceros e até sentido o calor do meu corpo. A concentração de gente foi aumentando e o semicírculo se fechando em nossa volta. Tiraram fotos e também devem ter me filmado. Fui encorajada a tirar a roupa e executar um “lap dance” – não sabia o que significava esta expressão, porém havia despertado em mim um desejo natural de esfregar meu sexo nas coxas dela.

O clamor da audiência me conduzia e até me convenceu a tirar a blusa e ficar de sutiã. Só não fui mais adiante, porque um sujeito surgiu ao meu lado com uma câmera focalizando o meu rosto. Minha parceira o empurrou e os que estavam atrás dele o empurraram de volta. Aquele puto caiu em cima de nós duas! Falei alguns palavrões e me levantei irritada. A Mariana pegou na minha mão e foi na frente abrindo caminho, aos empurrões, pela pequena multidão. A festa tornara-se um pandemônio e não era para menos: a performance amadora – mas gratuita – estava encerrada! Passei por todos de cabeça baixa, protegendo minha blusa na parte da frente do corpo para que ninguém conseguisse tomá-la de mim. Como não tínhamos carro, fomos andando pela rua até encontrarmos um táxi, que nos levou para minha casa. Ao chegarmos, fizemos sexo, contudo não foi tão excitante como esperávamos. O quarto estava vazio e silencioso demais.

(Sobre a autora, clique aqui)

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4 comentários sobre “Duas vadias em uma moldura

  1. Degustei teu blog; cada pedacinho dele, me preocupando em obedecer a ordem cronológica e, em poucas horas, consumi tua vida. Sinto por não conhecê-la antes. Durante o processo, ocasionalmente, pensava sobre a necessidade de lhe enviar uma mensagem, um comentário que pudesse expressar minha admiração, meu reconhecimento, minha gratidão por ter me proporcionado momentos tão intensos. Por ter me habilitado a refletir sobre a minha própria vida sexual, sobre o que desejo. Além disso, emociono-me com tua história, com a insensibilidade da tua família, com a incapacidade deles em reconhecer que a própria filha era infeliz por conta de uma negligência imperdoável, fruto do maldito capital. Queria conhecê-la pessoalmente, queria ser teu amigo.

  2. Ernest Hemingway costumava dizer que “escrever é sangrar”, e, que, também, seu psicólogo era sua máquina de escrever. Você bem que podia – até para abrir caminhos novos na tua arte de escrever – fazer um mergulho profundo em si mesma, por intermédio da terapia, só para ver o que vai dar e fazer surgir conteúdos novos. Um grande e carinhoso abraço!

  3. Com todo respeito ao Hemingway, mas nada de sangue, ok?
    Terapia é um inferno, bicho. desenterra todos os demônios, dói pacas, cê se sente uma idiota… enfim, tô em terapia já tem uns três anos… chega uma hora em que, com o andar da carroça as melancias se ajeitam, daí a gente se sente um pouco menos idiota – já tive até momentos de me sentir sábia, sente o drama.
    Sorte e saúde!

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