Escrito por uma bêbada numa noite qualquer


Este texto estava perdido e esquecido no meu Drive. Fiz bem poucas edições para postá-lo aqui. 

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Esse texto se desenvolve no momento em que estou bêbada. É a minha vida. Tudo faz sentido. Mas na hora de colocar no papel é outra história. Eu tento, tento e travo. Vamos lá. Sem critérios. Enfim, o meu eu do futuro que se dê ao trabalho de decodificar o que estou escrevendo agora. Por onde começar? Para e pensa. Por exemplo, já que existe tudo isso pela embriaguez, a primeira conclusão é que eu sou uma bêbada, e a segunda é que não vou me atentar aos acentos. Me disseram que eu tenho facilidade em lidar com as palavras. E agora que estou digitando sem parar pra olhar a tela talvez isso faça sentido.

Uma vez me perguntaram se eu fazia programa pra satisfazer minha dependência alcoólica e eu disse não. Mas o álcool sempre esteve lá, alterando minhas concepções de realidade. Tudo faz mais sentido nesse momento. Infelizmente não tenho palavras para traduzir tantos sentimentos. Sou outra pessoa agora. Uma pessoa mais agradável. Mais receptiva e reflexiva. Por que tantas pessoas se entregam à embriaguez com essa finalidade? Por que eu não iria me entregar? Por que o ser humano não consegue alcançar essa percepção se não houver um estímulo de fora? Algo não natural. Sou outra pessoa agora. E queria muito ter essa percepção sem obstáculos, nem preocupações no meu dia a dia. 

Pra tudo que estou pensando, vou tentar deixar registrado, porque depois de um tempo, na sobriedade, nada mais faz sentido. Não existe uma euforia natural. E se estão todos entorpecidos, felizes, satisfeitos, confiantes, por que não poderia ser sempre assim? É estranho. Trata-se de uma maneira de acessar o que há de mais espontâneo na nossa essência. O fato de tentar descrever o sentimento, ou mesmo os pensamentos transcorridos na embriaguez, já é uma forma de obstruir a racionalidade. A razão de alguém sob efeito de estimulantes. É uma limitação da humanidade, quero acreditar. Ou uma limitação pessoal. Porque, em condições ideais de temperatura e pressão, eu não estaria escrevendo isso. Lamento que a vida não possa ser assim. Que o ser humano não esteja nesse estado de espírito todos os dias. Esparsos momentos em que me sinto realmente viva. Mesmo não havendo qualquer recordação no dia seguinte.

Enquanto estiver viva, sempre vou encontrar justificativas para aproveitar. E agora, bem que eu gostaria que o tempo parasse para refletir sobre por que vale a pena viver. E a questão não é viver para se embriagar e ter essas reflexões. Mas… do contrário, haveria isso? Não, desse jeito, não haveria. Até porque só estou escrevendo tudo isso por estímulos de psicoativos, ainda que essa interferência seja meramente vinho, cachaça e pó. Sei de muitas histórias de escritores que recorrem às drogas para se inspirarem. Diante disso, como posso negar o “benefício” das drogas? Pelo menos, para mim, foi um recurso necessário. E agora que percebo que, se for capaz de superar as primeiras dificuldades de me expressar, mesmo que esse texto morra aqui, fica o registro da minha satisfação.

Satisfação…. talvez não seja o termo mais adequado, porque é comum o álcool me deixar mais carente. Mas fica registrado a minha… felicidade. O problema é se dar conta da felicidade apenas quando o tempo passa sem que eu me preocupe em acompanhá-lo. Eu poderia ter tudo para levar a vida mais leve, tentar criar momentos marcantes que nem hoje, uma quarta-feira do dia 3 de outubro, todos os dias. Isso é viver. Mas, em geral, os dias passam e não restam lembranças de nada. Dias mortos. E eu realmente espero que consiga me dar conta do presente, do quanto eu me valorizo, para que nos próximos dias, não precise recorrer à embriaguez para constatar o óbvio que é: todo dia vale a pena, a depender de mim mesma. O tempo, o mesmo de todos os dias, está passando mais devagar. 

5 comentários sobre “Escrito por uma bêbada numa noite qualquer

  1. Eu realmente torço pra que sua motivação continue forte, Aya. Tem muito das suas experiencias que posso dizer não passei pessoalmente, mas entendo bem esse sentimento de ver a vida passar como um borrão e me sentir como se nada tivesse acontecido, como se estivesse ausente na minha propria descoberta. Rotinas são otimas pra estruturar a vida, mas uma rotina baseada em ciclos viciosos tende a nos tornar quase apaticos ás nossas proprias escolhas. Sempre te achei muito doce e inteligente, e me fez sorrir ver uma notificação sobre seus posts recentes.

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