Trechinho de uma confissão pela internet

(30/07/2012)

ayana – [chérie coco] Filthy Princess ~ piggy :©) diz

Estava pensando em me mudar daqui.

Antes, eu estava vendo de ir morar no norte do país.

Mas eu até poderia ir para onde você está.

Ah, Bruna, eu estou enlouquecendo com a minha dona!

Não sei se estou conseguindo lidar com tudo que se passa.

Eu me tornei muito suja…

Mais do que eu poderia imaginar.

E… eu estou levando isso sozinha, porque ela não se importa muito com o que estou sentindo, e eu não tenho com quem conversar.

Eu sinto muito prazer, mas vejo que talvez esteja me destruindo aos poucos.

Por isso, eu estava com a ideia de mudar de cidade.

Principalmente para fugir de mim mesma, eu acho.

Ok, amor, mas por mais que eu tente sair disso, eu não consigo!

Então se eu estivesse longe, não teria como voltar.

Hmmm… ainda não me decidi sobre o que fazer.

Eu pensei em morar num lugar mais tranquilo onde eu tenha contato com a natureza.

Quem sabe recomeçar minha vida mais uma vez?

Porque tenho medo de sair daqui.

Existe o risco de perder o que eu gosto e as coisas que me incomodam continuarem a me acompanhar.

Perder minha dona, o lugar onde eu moro, algumas das garotas da casa…

Mas eu também não me sinto mais parte deste ambiente, sabe.

Já faz tempo que estou me prostituindo e, sei lá, pouca coisa mudou aqui, mas eu mudei.

Eu não me interesso mais por nada além de sexo.

Então que curso eu poderia fazer?

Se estou me sentindo deslocada na prostituição, acho que a sensação seria ainda pior numa sala de aula.

Quero mudar, mas ainda não sei em que sentido…

Eu preciso vivenciar algo estimulante!

(Sobre a autora, clique aqui)

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À espera do espírito do Natal

O Natal poderia ser apenas mais um feriado qualquer; o comércio ficaria vazio, e a indústria do sexo mais movimentada. O comportamento habitual é seguir a marcha do consumo irracional em direção ao endividamento. Mas economize com o presente das crianças, para poder marcar um encontro com a Mamãe Noel. Meu espírito de Natal concentra-se principalmente na personificação sexualizada deste ícone pagão. Existe um propósito bem sacana para eu usar essa fantasia: enquanto o bom velhinho distribui os presentes à garotada, sua esposa presenteia crianças bem mais crescidas, cujo comportamento ao longo do ano não necessita ser julgado. Se a época é de festas, o que todos anseiam é gozar intensamente para compensar tantos dias miseráveis que se passaram durante este ano.

O Natal poderia ser apenas um feriado qualquer, mas lamentavelmente fico pensando na minha família, ou quando menos pior, sobre minha concepção de família. Aquela gente de caráter incerto de quem herdei meus genes, inexplicavelmente, esforçava-se para haver, neste período, uma breve trégua e uma aparente concórdia. Quando criança, era fabuloso acompanhar os últimos minutos antes da meia noite para em seguida ganhar aquele presente cuidadosamente desejado. Nas minhas últimas reuniões familiares, a expectativa era de vir bem depressa a hora de todos irem embora. O ambiente na mesa de jantar era excessivamente desconfortável. Sob a minha perspectiva, parecia-me uma tremenda hipocrisia uma tradição cristã modificar em um dia o ordinário comportamento coletivo o qual passaria a manifestar um mínimo de compreensão e tolerância.

O Natal poderia ser apenas um feriado qualquer se não houvesse toda uma pregação de valores altruístas como a solidariedade, a generosidade, a fraternidade. Todos se apetecem em alcançar o perdão e seguir o unanimo sentimento de convivência em harmonia. Neste ano, passei o Natal com outras garotas de programa. Dediquei-me bastante para preparar a ceia, e as outras se encarregaram de organizar a decoração e trazer as bebidas e os baseados. Todo mundo se concentrou para celebrar alguma coisa, nem que fosse o nascimento de um tal de Jesus. Sentia-me pressionada a passar pelo bem-estar concedido por essas festividades, então houve bons momentos de descontração entre nós. Porém, quando propus que cada uma fizesse sua “oração” silenciosamente, ficou muito claro que estávamos mesmo apegadas ao nosso sensível universo particular. E compartilhávamos sorrisos encenados para não infamar a fantasia de um Cântico de Natal tão distante desta realidade.

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Algumas pedras guardadas na caixinha

Minha intenção não era continuar no mesmo assunto dos posts anteriores, tanto que havia começado a escrever outras experiências pelas quais já passei; ainda há muitas confissões que eu gostaria de compartilhar! No entanto, após ler os últimos comentários, não consegui pensar em outra coisa que não fosse os problemas pelos quais ainda estou passando. Subitamente, uma caixinha se abriu…

Comecei a escrever este blog no começo do ano passado, algumas semanas depois de decidir que iria parar de estudar. Se não estou enganada, houve uma época em que blogs eram associados a diários virtuais, o que para mim parecia bem contraditório, já que tinha o costume de registrar os meus segredos, em especial minhas fraquezas e inseguranças. Então, por que iria querer mostrar às pessoas os meus sentimentos mais sensíveis e amargurados? Não sei, mas agora estou aqui, continuando a sequência de posts dramáticos. Talvez porque estava ficando insuportável reter tantos problemas, na esperança de que uma garota ainda frágil pudesse resolvê-los. A princípio, acreditava que a autorrepressão bastaria para me sentir perdoada; foi quando pretendia destruir a minha vida. Eu sentia muita raiva de mim mesma, porque só atingia minha satisfação me envolvendo com práticas sexuais; por vezes agressivas, por vezes bizarras.

Logo fui acumulando o desprezo das pessoas, e isso gerava também um sentimento reconfortante, uma vez que me reconhecia nos julgamentos de vadia, vagabunda, puta e seus equivalentes. E como eu gostava! Frequentei várias e várias orgias. Dava para sujeitos estranhos que nem sequer trocaram palavras comigo. A minha vida era, sobretudo, um imenso bacanal. Eu tinha dificuldades para conversar com qualquer homem sem me insinuar, sem fantasiá-lo na cama comigo. Devido ao meu descontrolado apetite sexual, fui me dedicando cada vez menos aos estudos e talvez só não tenha me perdido completamente em meu mundinho de putarias, porque tinha interesse por outras duas atividades: ler e escrever, sendo um dos motivos para criar este blog. Só não investi tanto nelas porque nunca me geraram orgasmos.

Foi necessário preservar minha identidade para me sentir mais segura para escrever sobre as minhas confissões mais íntimas. A verdade é que tenho muito medo de encarar uma pessoa e deixar transparecer minhas aflições. Sinto-me envergonhada quando sentem pena de mim. Antes da prostituição, tive contato apenas com histórias bem estruturadas; gente rica, bonita e feliz. Que realidade era aquela? Só fui encontrar universos semelhantes ao meu, assim que conheci, superficialmente, o passado de algumas colegas de profissão. Mas aqui a gente só constrói relacionamentos superficiais, já que é terminantemente censurado demonstrar alguma fraqueza que possa indicar qualquer despreparo para exercer essa atividade. Não por coincidência, todas bebem, todas fumam.

Comecei a beber com quatorze e a usar drogas com quinze anos. As pessoas dizem que tenho uma memória sofrível por conta desses dois hábitos. Pode ser que elas estejam certas. O distanciamento da sobriedade afastava-me também de meus problemas e ainda me disponibilizava diversões inigualáveis. Tenho consciência dos riscos a minha saúde, mas dificilmente algo me trouxe tanta satisfação quanto esquecer certos erros e injustiças do passado. De fato, eu estava ficando viciada nessas substâncias que geravam uma solução imediata, porém temporária. O novo recurso a que recorri foi simplesmente ignorar o que se passou e tentar me concentrar nas menos problemáticas questões diárias. Nesse sentido, este pequeno diário me auxiliou a organizar algumas reflexões.

Possivelmente, ele não seja mais tão diminuto assim, a ponto de considerá-lo somente um refúgio para aliviar os males das minhas angústias. Sentia-me mais leve após deixar qualquer pequena confissão por aqui, contudo, inesperadamente, também tive contato com outras sensações mais incríveis, geradas pelas mensagens de desconhecidos, sendo que alguns, aliás, já me são bem familiares. E não há como contestar: essas pessoas me fizeram muito bem. Talvez por reconhecerem algum pedido de ajuda nas minhas entrelinhas. Sou verdadeiramente grata, mas gostaria de esclarecer que não procuro resolver os meus problemas escrevendo tão pouquinho em um blog. Na realidade, a intenção era criar o meu cantinho solitário que, felizmente, me trouxe ótimas companhias.

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