“O que dizer dessas putas ignorantes?”

Em minha vida sempre cultivei mais relações sexuais do que amizades, namoros, contatos profissionais ou familiares. Diante disto, imagino que o resultado do meu teste vocacional diria que meu futuro seria promissor na prostituição. De fato, considero que tem sido, por isso não me arrependo da minha decisão de largar quase tudo para me tornar puta. O dilema sobre o que eu seria hoje, caso seguisse a formação educacional padrão para uma garota derivada da classe média alta, sempre estará presente. Com certeza frustrei as expectativas dos meus familiares, de algumas pessoas que foram minhas amigas e meus amores, mas sobretudo destruí minhas próprias expectativas na época. Tudo bem ser uma garota fácil de levar para o quarto, o problema foi não ter mais saído de lá, sempre à espera do próximo que irá se deitar comigo.

Sentia tanto medo do meu futuro! Isso me parecia um paradoxo, afinal, pelo que eu temia, se não havia mais nada a perder? Minhas decisões não eram corajosas, ao contrário, eram as mais covardes, porque pouco me esforçava para encontrar motivações mais seguras e menos abstratas pelas quais eu me dedicaria. Segundo a lógica na qual fui criada, eu deveria me empenhar para ter uma formação acadêmica, depois um emprego “digno” e estável e ainda, neste meio tempo, constituir uma bela família. É aquilo que a sociedade prega e que, na versão dos meus pais, deveria ser a melhor faculdade, a melhor profissão, o melhor marido. “É culpa do capitalismo” – eu diria – “e da sua necessidade de definir um processo padrão até para a vida das pessoas”! Sem absolver o capital demoníaco, hoje acredito que esta culpa é partilhada por todos nós.

Sou prostituta por opção, embora tenha começado nesta atividade após fugir de casa e não contar mais com o dinheiro do papai. No meu universo até então privilegiado, ficaria perplexa se soubesse que alguma das minhas amigas havia começado a trabalhar aos 18 anos. Justo agora, durante “o período mais importante da formação de uma adolescente”, como dizem, teria que me preocupar com compromissos de gente mais velha. Mas todos sabemos que existe gente ainda mais nova, com ainda mais responsabilidades e com bem menos oportunidades. Neste último critério, se a referência fosse as minhas, asseguro que a maior parte da população não as tenha contemplado. Minha zona de conforto era consideravelmente ampla para eu ter, inclusive, a escolha de me tornar garota de programa, enquanto a maioria vem parar por aqui justamente por falta de opções.

Como nunca fui disciplinada para equilibrar os estudos e o trabalho, larguei o cursinho pré-vestibular. Por que eu precisava aprender tudo aquilo? Posso ter uma vida confortável assumindo que, para mim, boa parte deste conhecimento era inútil. É importante ressaltar que nem mesmo um idiota pregaria contra a educação. A discussão aqui é sobre esta educação ou cultura centrada em desenvolver capacidades no indivíduo voltadas para sua promoção ou destaque na sociedade. Reconhecimento que não é derivado de uma possível participação em defesa das pessoas em geral, mas sim pelo seu prestígio financeiro, pelas acumulações materiais. E neste ponto eu faço uma conexão com a hostilidade pela prostituição, uma vez que esta atividade, em certos casos, rompe com o paradigma de que é necessário investir em educação formal para obter, no mínimo, estabilidade econômica. Sendo difícil conter a ascensão social das trabalhadoras, como contrapeso todas somos desmoralizadas. Ou existe alguma que, em qualquer situação, declararia sua atividade profissional sem nenhum constrangimento?

Para alguns, parece uma tamanha injustiça, se a mulher recebe tantos mil por mês sem, necessariamente, ter esquentado o traseiro nas carteiras de uma sala de aula durante alguns anos. Pior e ainda mais irritante, quando ela também sente prazer por isso. Pensando assim, acredito que muitos me odeiem, contudo, veja bem, observo que a prostituição até pode render uma grana considerável, mas o problema maior é que as profissões em geral são muito mal remuneradas, pelo menos em nosso país. Acrescento ainda o argumento que sempre alivia o rancor dos “putofóbicos”: a minha carreira profissional tende à desvalorização à medida que vou envelhecendo ou me afastando dos padrões clássicos de beleza. Quando isso ocorrer, o que fazer fora trocar de ocupação? Por enquanto, continuarei sendo desprezada por ganhar dinheiro com um trabalho mais físico e menos intelectual.

Não bastasse a marginalidade à qual somos sujeitadas, a característica temporalidade desta carreira também gera efeitos muito perversos na rotina desta minha profissão. Não existem regras direcionadas para promover a boa convivência entre as profissionais. É sabido que muitas mulheres se dedicam à prostituição visando somente ao rendimento e à acumulação financeira. E depois vazam, sem nem deixar um bilhetinho de despedida. Em poucas palavras: dinheiro, fodam-se as outras putas, dinheiro, nunca mais vou ter que vê-las novamente! Algumas são tão impessoais que nem mesmo deixam um pouquinho de saudade. Outra era tão carente de escrúpulos que, é um segredo, me senti abençoada por uma magnífica sensação de alívio ao vê-la partir definitivamente.

Claro, estaria sendo injusta ao dizer que não nos ajudamos. Antes da assistência, existe uma fase de triagem em que são dimensionados os sacrifícios. É um processo muito rigoroso, portanto, com muito pesar, eu não crio muitas expectativas pelas minhas colegas. Acho que é um mal do homo sapiens moderno planejar demais a longo prazo. Em alguns casos, segue-se a lógica perniciosa de que não é conveniente se dedicar a alguém que, com certeza, só está brevemente de passagem em sua vida. Por uma total falta de consideração pelo outro, não é raro explorá-lo em benefício próprio. Lamentavelmente, os relacionamentos entre as trabalhadoras daqui parecem bem descartáveis.

Sou a segunda puta mais veterana no privê onde trabalho (se considerarmos que minha cafetina é puta em outros sentidos) e já não consigo mais contabilizar quantas moças passaram por aqui. Das que deixaram a profissão, não tive mais notícias de nenhuma. Uma delas, eu considerava uma ótima amiga, por isso chorei horrores quando nos despedimos. Insisti para combinarmos de sair para beber ou organizarmos uma sacanagem juntas qualquer dia. Entrei em contato com ela algumas vezes, mas nunca deu certo de nos encontrarmos. Depois não consegui mais localizá-la e nada me tira da cabeça que ela não quer mais se envolver com gente da minha laia. Ficamos juntas enquanto somos iguais… e para muitas, desta vivência não se guarda nada além do dinheiro.

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O poder para as meretrizes

Vossa excelência adentra o rústico prostíbulo para se aventurar com companhias desclassificadas. As aspirantes a um cargo de secretária ficam com os pelos da xana eriçados, já não se comunicam naturalmente; tudo é insinuação. Enquanto se apresentam, imaginam a carteira do sujeito roçando-lhes o clitóris. Não é apenas no baixo meretrício que vossa excelência é reconhecida por cortejar belas plebeias. Além de participar das fantasias de jovens medíocres e gananciosas, participa também de importantes decisões políticas no âmbito estadual. É um homem muito influente que decidiu conhecer o entretenimento sexual da massa que o elegeu. E agora? Como devo recepcionar tal digníssima autoridade?

A primeira vez que vi vossa excelência pessoalmente foi em uma festa liberal. Tendo em vista sua ocupação num cargo público importante, manteve certa discrição até um sujeito me informar sua verdadeira patente, que logo me seduziu. Para garotas de programa, o dinheiro é um componente bastante encantador e, naquela ocasião, todos os senhores eram charmosos, pelo menos em bens materiais. No meu caso, sinto atração por características mais subjetivas, por isso minha vontade de me relacionar com vossa excelência era um produto de sua posição privilegiada nas instâncias do poder. Naquela hora contive minhas ambições porque meu pretendente já estava muito bem acompanhado e eu ainda não havia definido se minhas intenções eram realmente legítimas.

Em nossa sociedade – cujos homens que pensam com a cabeça do pinto também são formadores de opinião – é incontestável que o sexo é um eficiente instrumento de poder. Esta sentença estaria destacada em letras garrafais na cartilha básica para profissionais do sexo. A fórmula mais elementar da profissão é ridícula pela sua simplicidade: abro minhas pernas em troca de um benefício. Pratico a prostituição mais tradicional, isto é, “dinheiro na mão, calcinha no chão”, porém existem formas de se prostituir que não envolvem, diretamente, transações financeiras.

Antes de conhecer vossa excelência, considerava a prostituição corporativa – quando acompanhantes são contratadas para influenciar as decisões de algum dirigente, ou para obter informações sigilosas – mais um artifício antiético para se beneficiar do poder. Por mais que seja uma política de bastidores – que, a propósito, é bem eficaz – algumas regras e estratégias são bastante claras: sexo pode ser um produto e, para tanto, pode ser negociado. Acontece que, às vezes, a via para a ascendência profissional é tortuosa demais; esforço e dedicação nem sempre são suficientemente reconhecidos, a menos quando empregados no famoso “teste do sofá”.

Aqui no privê, ninguém foi convocado para esta íntima avaliação. Não é necessário trabalhar com um contrato extraoficial de troca de favores para corromper uma puta; o mais cômodo seria simplesmente pagar pelas fornicações e, em situações excepcionais, dar um chocolate ou uma lingerie nos encontros subsequentes. Como vossa excelência queria tão-somente transar, o processo seletivo para contratar sua prestadora de serviços sexuais foi dos mais simplesinhos: bastava fazer uma apresentação. Uma habilidade que desenvolvi nesses anos de putarias foi me adaptar aos gostos do contratante. Diante de uma figura pública, acrescentei uma emenda no meu cartão de visitas assumindo o compromisso de preservar entre nós dois todos os “atos secretos” compartilhados no quarto.

Quando vossa excelência me escolheu, percebi que fora uma decisão política: talvez por eu garantir sigilo absoluto; talvez pela minha cara de garota sonsa sem qualquer malícia. Ainda bem que ele não tinha ideia do quanto eu desprezava  sua atuação na administração pública e também não suspeitava do meu interesse em corrompê-lo para ter acesso ao poder. Se soubesse, aí sim teria verdadeiros motivos para me foder. E ele me fodeu bem… se tivesse que avaliá-lo, daria uma nota sete! O programa em si foi bem mediano, sem nenhuma tentativa de elaborar qualquer conspiração. Foi representativo no sentido de criar algum contato, estabelecer vínculos.

Não concordo que todos os meios sejam válidos para se chegar ao poder, entretanto, não descartaria a possibilidade de usar a minha vagina para influenciar decisões, nem que seja apenas para debater com as autoridades, no sentido de favorecer populações mais vulneráveis. A aprovação de projetos públicos nada mais é do que o resultado de um longo processo de negociação. Como fichas de pôquer, alguns têm grandes empresas, latifúndios, igrejas, ou meios de comunicação. Eu só tenho o sexo, que não me permite apostar tão alto, mas pode, pelo menos, me deixar sentar à mesa, cruzar as pernas e esconder o jogo. Será que vossa excelência já ouviu falar das regras da pornocracia?

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Antes de tudo, quero passar no motel!

De acordo com alguns clientes, uma das principais razões para recorrerem ao meu serviço é por ser mais econômico pagar pelo sexo com uma garota de programa, do que gastar com jantar, cinema, bebidas, presentes, ligações de celular, estacionamento, gasolina, motel e mais outras despesas extras, para levar uma “civil” para cama. E este cálculo não inclui o tempo despendido com conversas para seduzir a pretendente. Por que este homem antiquado empenha-se num projeto tão custoso para, no final das contas, transar com uma mulher? Minha intenção não é panfletar que a saga para meu abrigo quentinho e úmido é bem mais tranquila, mas sim problematizar a necessidade de tantas diligências para alcançar uma meta tão vulgar.

Só depois de me prostituir, eu me dei conta desta dedicação dos homens para fazer sexo, ao conversar com muitos clientes justificando o porquê de terem me procurado. Em geral, não faço perguntas; o assunto parte deles, talvez resultado de um sentimento de culpa. Minha primeira reflexão foi a seguinte: “caralho, sempre fui uma garota muito fácil”. Isso porque eu vim de uma criação bem independente; em outras palavras, poderia fazer o que quisesse como, por exemplo, dar para um desconhecido na primeira noite em que nos encontramos. Conforme fui ganhando experiência, passei a ver o sexo como um instrumento de poder e, para tanto, a possibilidade de lhe agregar valores. Como não conversava sobre sexo com quase nenhuma garota, e os homens que transavam comigo sempre tinham um perfil de aproveitador, não tinha muitas referências sobre o escambo de sexo por benefícios. Sempre comercializava a minha xana por uma mixaria: algumas bebidas e drogas, uma carona de volta para casa e até por mais parceiros sexuais.

Ainda hoje, penso que se um sujeito passa a ser muito generoso comigo, com certeza ele quer sexo, mas acima de tudo, anseia por um relacionamento mais sério, afinal de contas, como já foi dito, se o objetivo fosse apenas transar, o caminho mais prático e econômico seria pagar pelo meu programa. Vale lembrar que, quando a questão é sexo, os machos são bastante competitivos entre si. Nesta perspectiva, a meta não é simplesmente comer a garota mais linda e virgem do seu círculo de conhecidos, mas sim se distanciar dos pobres demais que não tiveram essa experiência, por mais que ela tenha sido magnífica ou frustrante. Então, em específico nestas situações, é compreensível que o sujeito empregue qualquer meio social, cultural e econômico para depois proferir todo orgulhoso numa roda de amigos: “aquela eu já comi”.

Na ponta oposta, não é um grande mérito me comer – embora o meu serviço não seja acessível a toda população -, se considerarmos que meu principal critério é mercadológico. Em muitos casos, é até um demérito ter fornicado comigo. Isso dá brecha para o cliente ser julgado como incapaz de ter relações sexuais sem pagar por elas. Para se ter uma ideia, na semana passada, um cliente fez questão de deixar muito claro na minha cabeça que ele havia me procurado por curiosidade, já que tinha uma vida sexual muito ativa e nunca (deu aquela ênfase no advérbio) precisou recorrer a garotas de programas. Sentindo que deveria lhe dar as boas-vindas, pensei em palavras acolhedoras: “amigo, eu seria a última pessoa a te julgar como um perdedor por solicitar o meu serviço!”.

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