Pré-projeto para pós-prostituição

Nunca havia ficado tanto tempo sem escrever. Estou sendo mais requisitada, é verdade, e também dando mais atenção a alguns relacionamentos sexuais. Por enquanto, sem novidades. O principal motivo do meu afastamento deste querido diário não contei para ninguém. Nas últimas semanas, decidi enfim procurar ajuda de uma psicóloga para me auxiliar a entender essa completa bagunça que é a minha vida. Passei dias tentando reorganizá-la. Fiz sete sessões de terapia e acabo de decidir que não voltarei mais. A princípio, foi bom, mas neste momento não é mais o tipo de ajuda que preciso. Muito melhor do que desabafar diante de uma desconhecida foi escrever sobre os meus sentimentos na internet. Prefiro me comunicar pelos meus textos: seleciono com cuidado as palavras mais adequadas, paro um pouquinho para respirar e me distrair e ainda me esforço para expor com clareza e um pouco de lógica tantas ideias confusas.

Em quase todas as considerações da psicóloga não constava nenhuma novidade. Nada do que eu já não tivesse lido/ouvido de outras pessoas. Vou além e afirmo que esses não profissionais com frequência foram mais precisos e convincentes. Contudo, minhas reflexões no divã não foram uma completa perda de tempo. Reconheço não ser adequado preservar e me dedicar somente ao sexo na maioria das minhas decisões. Mais do que qualquer pessoa equilibrada, sempre soube que o prazer dura pouco. É insustentável. Percebo isso, mesmo depois de tornar o prazer o meu meio de vida, uma brecha para minha independência financeira. A prostituição deveria ser apenas uma atividade profissional. Deveria. Basta perguntar quem sou eu para eu disparar uma resposta rápida como uma bala: “eu sou uma puta”. E teria incontáveis argumentos para fundamentar esta percepção de mim mesma.

Aqui não cabe aquela avaliação simplista de gostar ou não gostar. É um critério até bem modesto. Eu adoro ser vadia! Também poderia dizer que gosto de estar bêbada e chapada. Não quero fazer uma compilação de vícios e comparar minha compulsão sexual à dependência química, embora haja certas semelhanças. Não preciso enfatizar o quanto gozei em minhas vivências eróticas e/ou alucinadas. O que me tira o sono é projetar as futuras consequências dos meus hábitos. Álcool e drogas nunca me levaram a lugar nenhum. Já o sexo – ah, o sexo! – trouxe coisas demais. Dinheiro, reconhecimento, autonomia, relacionamentos, utilidade, conhecimento e, como não poderia deixar de acontecer, cada vez mais sexo! Foram conquistas imediatas, e sei que muitas delas vão perder o sentido nesta mesma velocidade, quando eu deixar de me dedicar tanto às relações sexuais.

No consultório, eu me sentava numa poltrona reclinável bem larga, mas nunca me sentia confortável. O começo da terapia foi mais ou menos do jeito que eu imaginava que seria. Ela me perguntou por que eu estava lá e o que tinha a dizer. Por onde começar? Eu mesma me questionava por que procuraria uma psicóloga. O ambiente estava estranho. Silencioso demais. Engasguei umas cinco vezes antes de conseguir formular uma frase completa. Falar sobre o que? Família? Sexualidade? Prostituição? Relacionamentos? Para qualquer uma destas questões, eu já havia identificado os principais conflitos, descoberto maneiras de minimizá-los e, inclusive, me convencido de que muitos sentimentos eram “normais”. Então comecei pela minha maior insegurança atualmente: minhas expectativas para o futuro.

Tenho muita dificuldade de manter uma conversa tête-à-tête caso o assunto envolva minhas intimidades. Eu me sentia uma coisinha minúscula, fragilizada, amuada, covarde. Mantive meu olhar baixo, procurando o jeito mais apropriado para expressar aquela angústia. E o pior: eu deveria parecer uma garota muito estúpida, esfregando as palmas das mãos, entrelaçando os dedos uns aos outros inquieta e conversando o tempo todo com os pés da psicóloga. Ainda me lembro com detalhes todos os sapatos que ela usou. Simplesmente não consigo olhar nos olhos de outra pessoa se não for para seduzi-la, provocá-la ou para me envergonhar. Quando eu levantava rapidinho o olhar, ela acenava com a cabeça ou sorria e isso me deixava ainda mais constrangida, porque revelava que ela estava atenta a minha postura idiota.

A psicóloga usou bastante o termo “desejo”. Comentou que era uma palavra muito forte na psicologia. Perguntou o que eu desejava na minha vida. Sei lá! (Pensar a longo prazo… sempre fui uma negação para isso). “Talvez fazer faculdade”, falei só por falar. A conversa seguiu por este rumo, e eu me convenci de que este não era exatamente o meu desejo. Mudou-se de leve a abordagem. “Como você gostaria de se ver daqui a dez anos?”, indagou. O silêncio voltou a pairar sobre nós e perdurava, intensificando a minha ansiedade a cada segundo. Naquela ocasião fiquei sem dar uma resposta.

Em casa, refletiria com mais tranquilidade, ouvindo uma música, fumando um cigarro e lendo meu diário ou o blog. Escrevi mais de uma vez sobre o meu desejo de viver uma relação sadomasoquista permanente (conhecida como 24/7). No passado, acreditei que a convivência sexual com minhas dominadoras duraria para sempre, porém foram passageiras, inversamente proporcionais às minhas expectativas. Posso até mudar meu contexto sexual, mas por quanto tempo me satisfaria? Outro desejo: encontrar o amor da minha vida! Deitei-me com milhares de pessoas e até hoje só encontrei um grande amor. Meu barquinho está encalhado há tanto tempo que não é seguro voltá-lo ao mar. Ainda penso no jeito de tapar os buraquinhos em seu casco.

Como gostaria de me ver daqui a dez anos? No final das contas, a resposta não era tão custosa quanto previ. Gostaria de estar com alguém que eu pudesse amar, sem sentir aquele trauma besta de ser abandonada. Alguém capaz de me despertar para outras vivências afora as sexuais. Alguém em quem pudesse direcionar minha ternura e dedicação, meu aconchego e carinho. Alguém que precisasse de mim tanto quanto preciso dela. Assim, descobri que o meu maior desejo para o futuro é ser mamãe!

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A mamãe na versão da madrasta

O fim do relacionamento com a minha primeira namorada deixou dois vazios: um buraco afetivo e um túnel sexual. O primeiro logo foi preenchido quando comecei a namorar uma garota da minha sala, ainda hoje o amor da minha vida. Minha satisfação escorria pelo segundo, sentia-me revigorada por algumas horas e depois novamente o vazio. Ficava na masturbação, no sexo virtual e, algumas vezes, arrumava alguém para me foder. Eram medidas paliativas necessárias enquanto não encontrasse alguém para uma relação BDSM. Mantinha contato com vários praticantes, e embora não fosse muito exigente na hora de avaliar as qualidades de cada um, não abria mão de um requisito: teria que ser uma mulher.

Conheci a Aline numa sala de bate-papo. Ela parecia mais uma caricatura de dominadora: só escrevia com letras maiúsculas, exigia que eu escrevesse senhora no final de cada frase, me chamava de cadela sem me conhecer e ainda queria partir logo para o sexo virtual. Já fui enganada muitas vezes na internet por sujeitos se passando por mulher. Aos quinze anos, suspeitava que fadas e duendes não existiam e também que a Aline era um homem punheteiro e fetichista. Bom, se era só para ficar no mundo da fantasia, pouco interessa o sexo alheio. Mantivemos contato por meses, e ela sempre me dominava de alguma forma. Em uma de nossas conversas, ela me pediu para sempre usar a palavra mágica “mamãe” para me referir a ela.

– Eu imploro, mamãe!

– Me perdoe, mamãe!

– Obrigada, mamãe!

Mamãe, mamãe, mamãe! Isso não saía da minha cabeça! Se antes tudo era mera fantasia sexual, depois disso, meus sentimentos tomaram vastas proporções. Eu queria que ela fosse minha mãe! Por favor, era tudo que eu mais queria! Mas e se fosse tudo uma ilusão? Sentia sua falta e a procurava em outras pessoas e em outros lugares:

Hush now baby, baby, don’t you cry (Acalme-se agora, bebê, não chore)

Mama’s gonna make all of your nightmares come true (Mamãe irá fazer todos os seus pesadelos se tornarem realidade)

Mama’s gonna put all of her fears into you (Mamãe irá colocar todos os medos dela em você)

Mama’s gonna keep you right here under her wing (Mamãe vai manter você bem aqui sob sua asa)

Toda vez que ouvia Mother do Pink Floyd começava a chorar. Vejo minha mãe na letra desta música, com todas suas falhas e virtudes. Ela estava naqueles versos, mas a quilômetros de distância de mim. “And of course, mama’s gonna help to build the wall”. Sem saber, a Aline estava destruindo este muro. Por isso, ela não podia ser real, por favor, não! Isso me deixava apavorada! Era para ser um passatempo, nada além de sexo virtual. Ela me castigava, eu começava a chorar. Não por causa da dor, mas porque depois ela escrevia “muito bem, meu bebê!”. Como queria abraçá-la, esconder meu rosto no seu ombro, sentir sua mão acariciando meus cabelos! Don’t you cry…

Ela era real. Nunca acreditei em deus, mas agradeci a ele com as mãos unidas e olhando para o teto. Meses depois eu o amaldiçoaria. Quando começamos a nos encontrar, ela me castigava por qualquer besteira. Um destes castigos foi me proibir de chamá-la de mamãe e não mais me chamar de bebê. Para ela, eu não fazia nada para merecer este tratamento familiar. Foi então que prometi: “Farei tudo que a senhora quiser!”. Nem tudo me dava prazer, como se podia notar nas fotos e nos vídeos de nossas sessões. Por que aceitei que registrasse quase tudo? A verdade é que sempre esperei ouvi-la dizer “muito bem, meu bebê”. Ora, entendo que boas mães jamais abandonariam suas filhas! Ela estaria sempre aqui para cuidar de mim. Foi minha grande ilusão! Não pude deixar de me sentir enganada e uma idiota por alimentar aquela fantasia virtual. Não era, nem nunca chegou a ser real, por mais que tivesse feito todo o possível para que fosse…

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Personalidade partilhada e partilhada

Minha primeira apresentação, diante de uma possível dominadora sexual que requisitava submissas para serem humilhadas, refletia um pouco de desespero, embora eu tentasse ser convincente de que tudo que eu precisava era de mais prazer. “Sou a garota perfeita para ser humilhada, porque a minha vida já está uma merda”, e em seguida comecei a descrever a imagem miserável que tinha de mim mesma como garota de programa. Isso foi em 2009, quando eu estava empenhada num processo de destruir a minha vida; não no sentido que levaria à minha morte, mas sempre direcionada para baixo, até atingir uma inferiorização tão profunda que talvez eu até perdesse consciência da minha humanidade. Imaginava se seria possível aproximar minha capacidade cognitiva à de um animal domesticado.

Para a minha surpresa, mesmo depois de eu ressaltar toda minha insignificância, ela se recusou a me humilhar. A partir desta rejeição, comecei a aprender algo fundamental que faria toda diferença na minha vida: separar as minhas fantasias sexuais da realidade do dia-a-dia. Para a maioria das pessoas, parece ser algo bem simples. Por exemplo, uma mulher aceita ser chamada de vadia na cama, mas não aceitaria que ninguém dissesse isso numa roda com outras pessoas. Neste caso, as diferenças contextuais estão muito bem delimitadas. As circunstâncias as quais me sujeitei após a prostituição sobrepujaram vários critérios que definiam o sexo como impróprio para determinados ambientes. Para mim, ainda é complicado perceber a sutil separação destes dois universos presentes num cotidiano tão sexualizado como o meu.

Durante muito tempo, eu mantive o sexo como relacionamentos à parte das convivências em sociedade. Então, eu precisava administrar várias personalidades “diferentes”, para que as atitudes de uma não contaminassem o universo das outras. Essa capacidade performática é natural do ser humano, que desempenha os papéis de pai, filho, empregado, patrão, amigo, namorado. Acontece que no meu caso, eu considerava que cada situação tinha uma personagem específica para vivenciá-la. Digo personagens porque pareciam pessoas completas, quando na verdade, eram apenas partes do meu eu mais complexo. Para se ter uma ideia, cada uma delas tinha um nome, sendo a Ayana o meu perfil mais pervertido e indefeso, e a Ínfima Princesinha (no começo era Filthy Princess) o mais depressivo e revoltado consigo mesmo.

Olha, garota, sinto-lhe informar, mas você é a conjunção de todas essas personalidades! Era hora de apresentar a imagem que tinha de mim mesma, em poucas palavras, a de uma vadia. Nestas fases de transformações, eu arrogava posicionamentos mais radicais. Então quando meu mundo impulsivo, sobretudo associado ao sexo, começou a dialogar com a minha realidade social e mais racional, ao invés de haver um movimento bidirecional, o primeiro passou a subjugar o segundo. Por exemplo, enquanto expunha minhas qualidades de meretriz para os meus colegas no cursinho, por outro lado, raras foram as vezes em que durante, ou um pouco antes de transar, eu me questionei se minhas atitudes eram adequadas, ou me preocupei em trocar uma ideia com meu parceiro para me aparentar mais do que um pedaço de carne.

Retomando o contexto dos primeiros parágrafos, aquela dominadora, chamada Maira, foi a primeira que se atentou para os meus sentimentos encobertos por vulgaridades. É comum um cliente bacana se interessar em me conhecer como mulher e não como prostituta. Juro que em quase quatro anos de profissão, nunca soube ao certo o que responder nestas situações. Jamais falaria pessoalmente para um estranho sobre os sentimentos que procuro manifestar aqui no blog. Não gosto de falar sobre este assunto, portanto escrevo. Se tenho que dizer algo sobre mim, então que seja sobre sexo,  já que é para isso que meu principal cartão de visitas está apontando.

Sei que cada pessoa faz uma leitura muito particular da realidade, mas tive uma surpresa muito legal quando, em meio a tantos paus, cus, porras e outras palavras grosseiras, a Maira disse que cuidaria de mim. Como é? Cuidar? Não, não, espere aí, deve haver algum mal-entendido! Ela queria humilhar alguém, e eu queria ser humilhada, “voilà”, mutualismo! Eu não queria acreditar (e continuo sendo teimosa), mas não precisava de mais prazer e sim de ajuda. E aquela pessoa pela qual eu tinha expectativas de que seria capaz de me destruir, por fim, trouxe de volta à vida uma garotinha tão apaixonada, que me sinto até com vergonha de admitir que ela também faça parte de mim mesma. Por isso, eu a deixo mais quietinha! Do jeito que sou boca-suja, é sempre mais embaraçoso falar dos meus amorzinhos!

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