Para não dar de olhos fechados

Uma das dificuldades inerentes da minha profissão é se sentir à vontade fazendo sexo com clientes muito feios, ou seja, homens sacaneados pela genética e descuidados com a estética. Uma vez que não desejo ter uma visão muito clara da realidade, a solução é recorrer às complacentes doses etílicas, cujo consumo abusivo é capaz de me incitar a trepar com qualquer criatura asquerosa. Ai, ai… até parece que me engano com aquela desculpinha: “Dei a xoxota porque estava muito bêbada”. Preciso de outros escapismos, porque o argumento de que essas situações fazem parte do meu serviço não é o bastante para acalmar minha consciência. Mas aí eu também começo a me preocupar com a possibilidade de entrar no alcoolismo. Ora, seria totalmente insustentável beber toda vez que atendesse um cliente desprovido de beleza! Veja bem, eu não sou muito criteriosa quanto à aparência do meu parceiro, mas alguns – nem tantos assim – são realmente muito, muito feios!

Existem aqueles que compensam a carência de atrativos físicos com outras qualidades pessoais incrivelmente sexys, tais como simpatia, educação, respeito. Então o cliente conquista o seu charme e ao mesmo tempo pulveriza o meu olhar muitas vezes estereotipado, carregado de preconceitos, que assumo durante uma primeira aproximação. Conheço superficialmente a personalidade de poucos – sei bem mais sobre o desempenho sexual de cada um –, porque os diálogos nos programas, em via de regra, são muito breves. Várias vezes, fiz sexo com sujeitinhos cujas características em nada me atraíram – totalmente desleixados com a aparência e com a educação. Procuro abstrair todos esses defeitos e dou atenção apenas ao seu falo. Pobre criança! Não tem culpa alguma de ser operada por um asno. É por isso que lhe ofereço um lugar quentinho para se proteger.

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Presentes para uma “flor”

O cliente e eu estávamos conversando sobre nossa infância, e eu comentei que gostava muito de assistir Pokémon naquela época. Ele se lembrou desse detalhe e, semana passada, me presenteou com um Pikachu de pelúcia (muito bonitinho!). Creio que não seja de interesse do meu público-alvo saber quais desenhos animados eu gostava de assistir. Por essa perspectiva, é ainda mais curioso pensar que depois de dizer todo tipo de obscenidades, esse cliente foi se recordar justamente da minha antiga afeição pelos Pokémons. Estranho. Não estou acostumada com esse tipo de pessoa que se simpatiza com as muitas idiotices que conto.

De vez em quando, é bem legal se relacionar com clientes mais atenciosos, que se preocupam em construir um clima não somente erotizado; sair da estrutura de um programa para se sentir num encontro mais romântico e menos encenado. Com alguma dificuldade, posso me passar por namoradinha de qualquer animal. Mesmo se tratando de um relacionamento profissional, é possível me sentir temporariamente atraída pelo meu parceiro caso perceba que temos algumas afinidades em comum. Queria muito sentir empatia por todos que me consomem, porque isso me permitiria ser mais espontânea, em vez de ficar restrita aos levianos comportamentos de uma meretriz.

A generosidade é uma qualidade que não se manifesta muito no perfil dos homens que recorrem à minha companhia. Antes de qualquer coisa, subvalorizam o meu serviço e, não obstante, esperam que eu vá recompensá-los prolongando o programa ou eliminando a necessidade do uso de preservativo. Nessas situações não sou nada benevolente, ao contrário, sinto-me compelida a mandá-los enfiar todo o dinheiro em seus respectivos rabos. Não quero que me explorem ainda mais como garota de programa. Gosto mesmo quando tentam me conquistar como fazem com uma mulher comum.

Um indicativo de que o cliente não está apenas interessado no serviço da prostituta se expressa quando recebo alguns presentes. Já sou muito apaixonada por alguns bichinhos de pelúcia que tenho, por isso não gosto muito de ganhar outros – que muitas vezes são encaminhados para orfanatos, mas este não vai ser o caso do Pikachu. Joias também são presentes que não me agradam, porque são muito caras e difíceis de serem recusadas. Claro que apenas a minoria das minorias me dá esses regalos que valem mais até do que meu programa. É mais comum ganhar chocolates e bebidas, cuja vantagem é a de que as duas partes do casal podem aproveitá-los.

Bem no fundo, sinto falta de me relacionar com pessoas mais românticas. Já tentei negar essa minha necessidade várias vezes, porém, é fácil observá-la quando recebo flores. Qualquer mulher se identifica com esse presente, pelas flores simbolizarem toda a natureza feminina. Eu bem que gostaria de ser comparada mais vezes às flores (inclusive a pseudônimo “Ayana”, que uso na internet, significa “flor linda”), só que nem sempre elas florescem em ambientes inóspitos como o meu. Percebo que as flores daqui não são tão belas, porque para continuarem crescendo precisam sacrificar algumas pétalas.

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A vida fragilizada pela beleza

O medo é um dos sentimentos que mais se manifesta em mim. Em muitas situações, aprendi a controlá-lo e até consegui intensificar meus orgasmos a partir dele, quando me encontrava em situações meio arriscadas. Todavia, esse sentimento se expressa de muitas formas, sendo que a mais perturbadora se materializa quando fico sofrendo antecipadamente. Acontece que não tenho tantas perspectivas de futuro, porque minha vida é muito conectada aos prazeres do momento presente. Procuro ir direcionando minhas escolhas a cada minuto, diante da impossibilidade de prever o amanhã. Melhor assim, porque o desconhecido me apavora.

Não é uma certeza de que passarei por isso antes de morrer, mas um dos grandes pavores que me atormentam se refere à temporalidade da expressão do atual padrão de beleza. Tudo em minha vida sempre foi bastante condicionado pela minha aparência. Por isso que esse blog está sendo uma experiência totalmente nova para mim, já que não acredito que muitas pessoas já se sentiram essencialmente atraídas pelo meu intelecto, pela minha personalidade, ou pelos meus sentimentos. Têm horas que quero mostrar minha “beleza interior”, porém todos meus relacionamentos são efêmeros demais; não me permitindo explorar uma profundidade sentimental maior.

Tenho medo de envelhecer e ser descartada. Ou que isso aconteça pelos danos em meu corpo resultantes do excesso de clientes que me consomem. Numa hipótese muito pior, basta a violência de um covarde, para pôr um fim em toda minha história. É o risco que se corre por edificá-la partindo de um valor cuja temporalidade é certa e, para tanto, só pode ser explorado em determinados capítulos da vida. É por isso que, em geral, a prostituição compõe apenas uma passagem para outra forma de se viver. Ainda não estou certa a que outra biografia o fim da minha atuação como prostituta vai me encaminhar. Portanto, tenho muito medo de que um trágico imprevisto interrompa esse meu episódio antes de um final feliz. Por enquanto, essa vidinha é tudo que eu tenho.

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