E logo à frente, nosso querido bordel!

Quando Elisa entrou na casa, há quatro meses, todas as garotas lhe advertiram que estava no lugar errado. Foi o mesmo que disseram a mim no início da minha carreira na prostituição. Eu lhe dei as boas-vindas, comentei sobre os perfis mais comuns de clientes e busquei passar uma visão positiva de nossa condição. Para a Rafaela, eu estava sendo irresponsável, porque a garota ainda era nova e inexperiente. Nós compartilhamos os quartos, os clientes, as festas, as orgias, mas cada uma vivencia uma realidade particular. Como viria a ser a da Elisa? Eu me sentiria mais à vontade se ela não tivesse optado por este serviço, contudo, por lhe faltar alternativas, nossos caminhos se cruzaram. A atitude geral mais comum foi afugentá-la (tanto quanto mais uma concorrente), mas meu movimento foi mais na intenção de nos aproximarmos.

No começo, meu sentimento por ela era mesmo uma empatia – algo que venho sentindo pelas minhas outras colegas também. Não foi nada fácil me identificar com a maioria delas: mulheres antipáticas, superficiais, orgulhosas, ignorantes e egoístas. Diante dos clientes, somos todas companhias agradáveis. A bem dizer, faz parte da profissão! Então… se eu conseguia ser sociável com um desconhecido, por que não tentar me aproximar das outras garotas? Não havia muito de altruísmo na minha tentativa de aperfeiçoar nossa convivência. Mais uma vez, estava com medo de ficar sozinha, de ser a excluída. Só fui me mobilizar quando a Cris, outra garota de programa, tirou sua atenção sobre mim e a transferiu para seu namorado.

Pode parecer um contrassenso, mas só visualizei características mais humanas em minhas colegas quando estavam alcoolizadas ou chapadas. Não me refiro ao comportamento habitual nestas situações de ficarmos mais emotivos, abraçando a todos e declarando amor à humanidade. Estou falando das garotas que bebem para tornar as condições de trabalho menos ásperas. Bastou desviar o foco do meu umbigo para enxergar as imediações da aflição alheia; tão semelhantes às minhas. Cada uma expressa suas insatisfações de um jeito: enquanto a garota deprimida escreve num diário, a moça do quarto ao lado bebe e discute com todo mundo.

A Elisa teve a reação mais comum: ficou em silêncio. Nas primeiras semanas, dedicou-se em tempo integral à atividade; atendeu mais do que qualquer outra na casa. Com o tempo, a gente vai perdendo toda esta disposição e quando a noite não termina com o corpo completamente esgotado, a energia que resta nos faz refletir. Antes de completar um mês no ofício, eu a vi chorar, parada em frente à porta daqui de casa. Ela se sentou na minha cama e começou a desabafar.

No programa, ela estava de costas para o cliente enquanto ele metia com muita força e pressionava seu corpo contra a parede. Acelerava as estocadas à medida que ela pedia para parar. Ela tentou empurrá-lo e começou a gritar; não o suficiente para os seguranças a ouvirem, mas para o sujeito soltá-la e apanhar logo em seguida. Houve ainda uma discussão que se estendeu até a intervenção da nossa cafetina.

Sempre tive divergências com a Jaque, a dona daqui. Como faz tempo que trabalho para ela, nossa relação melhorou consideravelmente, mesmo assim, a meu ver, ela continua sendo uma vaca. A Elisa ratificou esta minha opinião ao me contar que em vez de repreender o cliente, nossa cafetina tentou justificar o incidente pela “falta de experiência da prostituta” e ainda o aconselhou a procurar outra garota da casa (não sou de comprar brigas, por isso espero que este cretino não me procure). Após me contar todo este recente episódio, a Elisa lamentou, entre soluços e lágrimas, ter entrado na prostituição. Desde o início, eles estavam certos ao dizer que ela estaria no lugar errado. No dia seguinte, ela foi embora.

Decepções são inevitáveis em qualquer profissão, embora se prostituir não seja uma atividade profissional como outra qualquer. Entre as distinções, destacaria a vulnerabilidade das profissionais. Sei bem como é a persistente sensação de insegurança diante do que é novo, incerto, e quando se caminha pelas margens da sociedade. Conheço algumas pedras desta trajetória, mas quis mostrar para a Elisa apenas o horizonte. Minha intenção nunca foi salvá-la das possíveis mazelas da prostituição. Do que adianta especular sobre tristezas, se acreditamos ter o controle sobre nosso destino? Achei que seria legal se conseguisse fazê-la se sentir à vontade. Não para ocultar essa “realidade tortuosa”, mas para nos aproximarmos, afinal, uma coisa que toda garota precisa na prostituição é ter alguém com quem contar.

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Monólogo de uma prostituta sincera

– Então, meu caro, a gente não precisa fazer sexo. Nós vamos para o quarto e ficamos conversando um pouco. Pode ser qualquer assunto, mas em geral sentamos alguns minutos para falar putarias. Não, não espere que eu seja totalmente sincera, da mesma forma, não me importo com suas mentiras; eu nem iria conseguir identificá-las mesmo. Se quiser conversar sobre seus problemas com relacionamentos, sinta-se à vontade, mas já vou adiantando que não sou a pessoa mais indicada para aconselhá-lo. Hmmm… então sua esposa não faz sexo anal? Entendo… bom, faça o seguinte: procure uma garota de programa. Esta é a resposta que gostaria de dar porque é à prova de falhas, além de estimulá-lo a me procurar outras vezes. Só não vai ficar me ligando todo dia, isso é bem irritante. Pessoas insistentes são chatas, não? E o problema maior é que sempre acho muito delicado dizer para o sujeito que ele está sendo inconveniente. Infelizmente, alguns só entendem essa mensagem quando complementada por palavrões. Aí sou julgada como estressadinha e logo alguém deduz que eu esteja na TPM. Para mim, nada me deixa mais nervosa do que um homem simplificar toda a minha revolta como sendo resultado dos dias que antecedem minha menstruação. Olha, não é um problema hormonal, você que é um chato! Aliás, pelo menos metade dos meus clientes são chatos. Então, para me tirar do sério é preciso que esses idiotas sejam excessivamente chatos. Sabe aquele tipo prepotente que realmente acredita que vai me levar para a cama de graça? Não dou descontos, mas para esses animais me sinto tentada a inflacionar ainda mais o meu programa. Por sorte, não preciso negociar com os consumidores; isso já é função da minha cafetina, que, a propósito, é outra vadia também. Eu não posso nem dar uma paradinha para atender minhas necessidades fisiológicas, que logo ela está batendo na porta do banheiro para me levar até o cliente. Ok, farei um “mea culpa” agora: sou muito displicente com os horários, porque não consigo me programar direito. Além de deixar para a última hora, sempre acontece um imprevisto que me impede de me arrumar direitinho. Mas não é nada de muito grave, geralmente a maquiagem fica um pouco incompleta. Claro que quando eu me atraso muito, tenho que compensar o tempo perdido. Um dos princípios do meu serviço é que o contratante sempre fica um tempinho a mais do que o combinado. E por falar nisso, que horas são? Nossa, passou da hora já! Bem, foi muito boa a conversa que tivemos! De verdade, adorei lhe conhecer. Então, posso esperar sua ligação para a gente se encontrar outras vezes? Enfim, tenho que ir! Beijinhos!

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Uma cafetina em minha vida

Acontece com certa frequência de uma garota de programa ascender ao status de cafetina. Para a Jaque, bastaram uns meses de namoro com um bandido influente daqui para abandonar a classe proletária e começar a atuar na exploração do serviço alheio (o meu e o de outras garotas). Por outro lado, agora desempenha uma profissão ilícita, que para ela compensa muito pelo dinheiro que vem acumulando na exploração sexual. Bem, eu sou uma grande fonte desses recursos, contribuindo para satisfazer os desejos consumistas dessa ordinária. Agradeço pela minha ignorância ao não questionar em quais investimentos é destinado o dinheiro dos meus programas (não quero assumir um papel de vítima e muito menos de cúmplice de alguma irregularidade). Tenho que me preocupar apenas em administrar a remuneração que me sobra nesse serviço. Vou equilibrando as contas e acredito até que tenho agido como uma consumidora consciente, exceto pelos gastos supérfluos (ou não) com entorpecentes. Julgo minha cafetina e as drogas como “um mal necessário”. Já pensei seriamente em abandoná-las, mas é complicado porque a primeira me disponibiliza um único caminho pelo qual sempre quis passar, enquanto a segunda me permite continuar seguindo com minha vida nessa direção.

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