De passagem pelo inferno – 2ª parte

(Antes de ler este texto, recomendo que leia o post anterior: De passagem pelo inferno – 1ª parte)

Toda vez que preciso ir ao centro, o ônibus passa em frente a um hotel bem grande de arquitetura moderna, com a fachada curvilínea e com poucas janelas. Torço o pescoço para tentar ver quem está na recepção, mas para identificar algum rosto conhecido precisaria admitir a miopia e usar óculos. Tenho certo receio de enxergar, porque só de passar perto deste lugar me vêm imagens muito claras de quando entrei lá pela primeira vez – no mesmo dia em que fugi de meus pais – e de como sai para não voltar. Parece algo muito bobo, mas eu falo para mim mesma que foi lá que eu nasci.

Era como se um deslizamento de terra tivesse soterrado a casa inteira, enterrando também minha família. Sobraram as roupas do corpo – indecentes como tinha o hábito de me vestir para procurar por sexo – e a minha bolsa, com dinheiro, celular, documentos, maquiagem, lubrificante, um maço de cigarros e as chaves da antiga residência. Peguei um ônibus até o centro e de lá pedi para um táxi me deixar em qualquer hotel que fosse distante das regiões onde costumava dar as caras. Era um três estrelas, localizado num bairro de classe média alta do qual nunca havia ouvido falar. Escolhi o quarto mais barato para ficar, a princípio, por uma semana e dispensei o trabalho das camareiras para não ser incomodada.

Em público, eu me concentrava para esconder a tristeza, ou ao menos torná-la mais discreta. Bastou ficar sozinha para todas as dores tomarem conta de mim. Não conseguia andar, falar qualquer coisa, nem mesmo respirar direito; enquanto chorava, meu esforço se concentrava apenas em descobrir um jeito de superar o sofrimento, quer dizer, me matando logo de uma vez. Agora o mundo inteiro poderia arder em chamas. Não seria nada ruim, mesmo se o incêndio começasse ali, bem nos meus pés. O quarto ficava no terceiro andar do hotel e não me parecia alto o suficiente para ter certeza de que, se pulasse pela janela, iria morrer. O medo de me suicidar era menor do que aquele de tentar e fracassar. Entre as poucas alternativas, resolvi terminar minha vida cheirando pó.

Pedi para entregarem a droga no hotel. Havia retirado oitocentos reais da minha conta, dos quais trezentos foram gastos para comprá-la. Não tinha ideia de quantos gramas precisaria aspirar para ter uma overdose. Sobre a mesa, preparei vinte e seis carreirinhas simétricas. Comecei cheirando cinco seguidas para ganhar coragem. Parecia um jogo de tabuleiro. Para cada linha que eu desfazia, tinha a impressão de visualizar minha vida sendo encurtada. Às vezes, eu parava de chorar e começava a rir, prevendo que minha última descoberta em vida seria o limite de tolerância do meu organismo à cocaína.

Antes de começar, eu não havia me dado conta de que havia escolhido uma maneira muito lenta de me matar. Depois de um tempo, estava perdendo a coragem de seguir adiante. Acabei enlouquecendo… falava comigo mesma coisas do tipo: “se continuar cheirando, uma hora o sofrimento vai desaparecer!”, e “se parar agora, estará confirmando mais um fracasso na sua vida”. Decidi dedicar um problema específico para cada carreirinha que eu cheirasse e me convenci de que feito isto, o problema desaparecia junto com o pó. Mas nem fui muito longe. Fiquei muito assustada quando os batimentos cardíacos dispararam de repente e me fizeram cair no chão. Cruzei os braços e as pernas para tentar parar de tremer e me levantar, mas permaneci caída sentindo tonturas e o corpo suando bastante. Disse a mim mesma para ficar calma, contudo as únicas palavras que ouvia eram: “eu não quero morrer”.

Para fugir e me esconder da morte, eu me arrastei pelo quarto e fiquei embaixo da cama, onde permaneci quase a noite toda. Era muito pior do que qualquer pesadelo! Sabia que não estava dormindo e nem poderia tentar porque temia não acordar mais. Minhas alucinações sinalizavam diversos tipos de ameaça: não poderia ficar de pé, senão iria cair; não poderia sair debaixo da cama, senão alguma coisa cairia em cima de mim. Nem me arriscava fazer qualquer barulho ou olhar para trás, imaginando que a morte estivera lá o tempo todo acompanhando o meu desespero. Cheguei até a pedir para deus ter piedade de mim, me perdoar por nunca acreditar em sua existência e por cometer tantos pecados.

Na tentativa de fazer as horas passarem mais rápido, conversava bem baixinho comigo mesma, para avaliar meu presente e tomar as decisões para o futuro. Algumas vezes eu me castiguei abrindo pequenos cortes no meu antebraço. E se cortasse os pulsos? Bastaria cortá-los, mesmo com movimentos covardes, para me suicidar? Não adiantava mais planejar como terminaria a minha vida. Estava com medo até de me levantar! Olha, se tivesse que apostar na morte como um fim ou como uma passagem para a reencarnação, hesitando um pouco, escolheria a primeira opção. Mas que se fodam as incertezas! Naqueles instantes, assegurava que me sentia frustrada por ser alguém tão miserável quando muito me agarrei na esperança de que poderia me dedicar por um mundo menos desigual. É um típico sonho de menininha, contudo foi forte o bastante para me ajudar a recomeçar a minha vida.

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De passagem pelo inferno – 1ª parte

Faz mais de cinco anos que sai da casa do meu pai, mas ainda me recordo bem o seu endereço. Sei quais ônibus passam por lá e, se não tiver muito trânsito, devo pegar mais ou menos uma hora e meia de viagem de acordo com o Google Maps, já que nunca mais pus os pés no meu antigo bairro. Um lugar com baixos índices de violência capaz de me deixar aterrorizada. Não estou preparada para me reencontrar com o passado, inclusive, há algum tempo tenho me mantido indiferente a ele. Continuando a morar na mesma cidade, esse fantasma sempre está à espreita, enquanto permaneço escondida para preservar meus bons sentimentos.

Detestava morar com meu pai e por conta disso perdia noites de sono planejando a minha fuga definitiva. Ficava um dia – dois no máximo – exilada na casa da minha namorada durante os finais de semana em que ele não saía de casa. Permanecer mais tempo que isso seria impossível, porque os pais dela nunca me viram com bons olhos. “Eu não quero que você fique trazendo problemas para a minha casa e nem para a minha filha” – nunca me esqueci dessas palavras sussurradas pela mãe dela.

E como conseguiria me sustentar? A prostituição já era o caminho mais provável. Isso porque durante alguns meses o meu pai havia me deixado sem cartão para evitar minhas habituais saídas à noite. Não adiantou porque para onde eu ia, tudo que precisava poderia ser trocado por sexo. Papai nunca soube desta verdade, mas sem muito esforço seria possível intuí-la – tanto que nunca questionou como eu conseguia dinheiro para sair. Lamento muito, pois havia tantas respostas contundentes para lhe agraciar. Se era inevitável a filhinha vadiar pelas ruas, então que fosse naquelas movimentadas pela nata da sociedade. Assim, voltou a financiar meus deleites e minhas rebeliões.

Eu deveria me atentar que planejamento não funciona muito bem para aqueles que tomam decisões por impulso. No começo de 2008, eu entrei em depressão por vários motivos: não passar no vestibular, ficar longe da minha namorada, terminar um relacionamento BDSM, continuar brigando com a família, ser tratada como um objeto sexual. Nunca antes na história da minha revolta, havia passado tanto tempo enclausurada em casa. Aquela pretensão de morar em outro lugar parecia nunca ter existido. Queria ficar isolada da realidade, completamente sozinha, e não havia outro lugar onde poderia me sentir mais solitária. Só saía do quarto para ir à cozinha e só conseguia comer alguma coisa, porque passava a tarde toda fumando maconha.

Depois de alguns dias, eu me rendi à insistência de uma amiga para irmos a uma festa. Bebi tequila e cheirei cocaína até desmaiar. Acordei de tarde com o barulho de dois moradores da casa conversando na cozinha. Eu fiquei não sei quantas horas largada no sofá da sala de entrada, toda fodida e suja, completamente nua e sem nada para me cobrir. Eles nem sequer recolheram do chão as camisinhas que usaram para me violar. Me levantei tremendo. “Eu tenho que ir para casa! Eu tenho que ir para casa! Eu tenho que ir para casa!”. Foi com este único pensamento que tentei preencher minha mente por completo. Sinceramente, não me recordava de como havia me sentido. As lembranças surgiram bem depois e eram horríveis. Depressiva, eu me considerava um lixo! E não é que aqueles caras me largaram como se eu realmente fosse um? Confesso que dói um pouco pensar em palavras para este caso, então achei melhor não estendê-lo mais do que isso.

O pior dia da minha vida, ainda me reservava uma última desgraça, que foi justamente abandonar a casa onde morava. Eu esperava chegar no meu quarto, tomar logo um banho, deitar na cama e passar o resto do dia chorando e pensando em me matar. Tudo estava dando errado e só me restava a frágil esperança de não me encontrar com mais ninguém. Encontrei-me precisamente com o demônio encarnado na figura paternal. Para atravessar a porta para o confinamento no quarto, precisava passar por uma última provação: suportar mais uma discussão entre pai e filha.

Não adiantou tentar me manter firme se já me sentia toda despedaçada. Por que resolvi ir para lá, se sabia que ele só me faria mal? A entonação em cada palavra, os gestos apontando para mim, o jeito de me olhar; como era possível abominar tanto qualquer atitude de uma pessoa? Para mim, não mais uma pessoa, sim uma grande aberração. Tudo de bom que desejava na minha vida – um namoro, entrar na faculdade, ter amigos verdadeiros –, eu estava perdendo.  Neste inferno onde entrei, só me restaria a maldita companhia do diabo. Não poderia deixar isso acontecer! Estava farta de tantas brigas! Para tanto, recorri ao método dos covardes: corri para bem longe.

(A história continua no post seguinte: De passagem pelo inferno – 2ª parte)

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Último encontro com meu pai

Deixei de morar com o meu pai no final de janeiro de 2008. Não tinha ideia alguma do que faria na minha vida; a vontade era de não fazer nada ou então simplesmente morrer. O meu corpo ainda estava doendo após ter sofrido nas mãos de uma dominadora inconsequente que, anteriormente, havia conquistado o meu amor. Com certeza, a maior dor que me deixou foi no meu coração, assim que me toquei de que havia sido abandonada. Minha namorada, a única pessoa em quem confiava, estava viajando e por isso não havia ninguém disponível para me ajudar. Na mesma época, saíram os resultados dos vestibulares e, infelizmente, não tinha passado em nenhum. Nessa época em que só chorava, abusei ao máximo dos cigarros de maconha e das doses de álcool.

Depois de passar alguns dias trancada no meu quarto, achei que me faria bem sair à noite com a Milena. Iríamos para a casa de um de seus amigos para beber e cheirar. A verdade era que ela precisava de uma amiga biscate para fazer média com aqueles idiotas. Na festinha, todos ficaram alucinados, se divertindo, sem dar importância para o meu estado solitário e introspectivo. Até que a Milena tirou a minha roupa e começamos todos a fazer sexo. Isso não me interessava. Continuei bebendo e cheirando, esperando uma alteração de humor, ou pelo menos que eu passasse mal logo e apagasse de vez. Alcancei esta última opção.

Dormi lá mesmo, no sofá da sala, e acordei à tarde ainda nua, com hálito de vômito e muita ressaca. Ao chegar em casa, a primeira pessoa que me recebe é o meu pai. Fez todos os questionamentos que um pai preocupado faria, mas sei que queria ouvir as respostas apenas para começar mais uma discussão. Quanto mais ele gritava, menos eu ouvia e assim que terminava um sermão, eu voltava a desafiá-lo. Percebi que não valia a pena e, no final, disse que iria para o meu quarto porque estava cansada dessa conversa. Contudo, antes de sair, ele me perguntou:

– Já saíram os resultados do seu vestibular?

– Já faz uns dias que saiu. Eu não passei em nada.

– Por que não me disse antes?

– Achei que você nem soubesse que eu havia prestado vestibular.

– Agora as coisas vão mudar para você. Acabou essa sua gracinha de sair à noite e dormir a tarde toda. Neste ano, é bom que você comece a estudar direito.

Voltou a me repreender, lançando uma série de ofensas a respeito do meu comportamento. Lembro-me um pouco de suas palavras, mas prefiro não tentar reproduzi-las aqui.

– Neste ano, a única coisa que desejo é ficar bem longe de você.

– Pode sair desta casa então.

Nem tive tempo de pensar com calma. Simplesmente peguei a minha bolsa e saí para nunca mais voltar.

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