Mãe de uma puta!

Numa dessas noites de chapação, estava comentando com uma amiga sobre como a decisão de me prostituir havia condenado minha família, incluindo as próximas gerações, a insultos instantâneos. Eu sou uma puta, meus filhos serão filhos de uma puta, meus pais são pais de uma puta. E continuei falando besteiras, entre elas a de que se eu tivesse que brigar outra vez com a minha mãe, iria chamá-la de “mãe de uma puta”. Na hora até achei engraçado. No dia seguinte, sem estar sob efeito de drogas, eu me dei conta de como fazia tempo que não pensava na minha mãe e ainda de como ela se sentiria bastante decepcionada, ou mesmo ofendida, ao saber da minha condição.

Temos tão pouco em comum, que eu mesma desconfio de nossa ligação familiar. Lidaria mais facilmente com minhas frustrações se um dia ela viesse a me dizer que me trocaram na maternidade. A razão de me abandonar faria muito mais sentido. Por enquanto, minha suspeita é ter sido concebida de uma gravidez indesejada. Não quer dizer que ela não tenha me amado. Costumava me chamar de princesinha até eu completar uns dez anos, daí por diante, desde que ela começou a fazer outra pós-graduação, não me recordo mais se usava alguma palavra carinhosa para se referir a mim.

Minha mãe não media esforços para impulsionar sua vida profissional. Se cuidar de uma filha representava um atraso aos seus objetivos, logo ela atribuiria esta tarefa a outra pessoa. Para que perder tempo com isso, se já havia uma empregada para cuidar da casa? Ela limpava tudo tão direitinho… tomar conta de alguém seria moleza! Realmente, esta decisão foi muito bem acertada! Aquela empregada foi a melhor referência para eu sentir um pouquinho do verdadeiro amor de uma mãe.

A família da minha mãe não é tão rica quanto a do meu pai. Ambos viviam em função do trabalho, porém minha mãe era ainda mais obcecada; talvez por não ter herdado um patrimônio como o do meu pai. Tamanha ambição trouxera bons resultados. As informações estão desatualizadas, mas até o final de 2007, ela tinha duas pós-graduações, era fluente em quatro línguas e tinha trabalhado em dois países estrangeiros. Em casa, ela ficava quase o tempo todo no escritório lendo e escrevendo alguma coisa. Eu era muito nova e tinha orgulho de minha mãe ser tão dedicada e competente, por isso me mantinha afastada para não a incomodar.

Mamãe queria que eu fosse como ela…

Não poderia ser mais diferente! Nem sequer conseguiria ser metade do que ela é! Minha nossa, como ela era perfeita! Isso me deixava revoltada, porque todo mundo a valorizava tanto! Poucas pessoas além de mim sabiam a que custo viera tanto sucesso! Destas, talvez eu tenha sido aquela que fora mais acometida por lhe ter perdido. À medida que ela me punha de lado, eu me convencia de que não, definitivamente, ela não era e nunca será um exemplo a ser seguido. Não sei até que ponto esta constatação me guiou para uma vida em oposição à dela.

Se tivesse a determinação da minha mãe, talvez hoje a gente teria voltado a ter contato, porque, em último caso, eu poderia bravatear que havia alcançado meus objetivos sem a ajuda dela. Só que durante todo este período de distanciamento tive poucas conquistas das quais poderia me orgulhar. Ser garota de programa, à minha maneira, é uma delas. Mas mesmo sendo um trabalho importante e significativo para mim, diante da minha família, não haveria méritos que não fossem ofuscados pela vergonha de ser tão pouco, enquanto eles são muito. Nunca fui boa o bastante para ser alguém capaz de conquistar o orgulho dos pais.

Por ora, deixemos de lado qualquer vitimização no sentido: “sou puta porque meus pais não me amaram”. Sabendo tão pouco sobre mim, minha mãe pensaria algo semelhante a isso. Para ela, seria a confirmação da total falência de suas responsabilidades maternas. Traria algum sentimento de culpa? Talvez. Mãezinha, dar todas as noites para qualquer um disposto a me pagar é o que menos importa! Seguir a mesma trajetória triunfante dela não renderia pontos para qualificá-la como uma mãe melhor; eu apenas não teria tanta vergonha de encará-la. Não é a prostituição que me destrói; é o abandono. É saber que nem devo me aproximar porque me tornei aquilo que esta “mãe de uma puta” mais despreza.

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De passagem pelo inferno – 1ª parte

Faz mais de cinco anos que sai da casa do meu pai, mas ainda me recordo bem o seu endereço. Sei quais ônibus passam por lá e, se não tiver muito trânsito, devo pegar mais ou menos uma hora e meia de viagem de acordo com o Google Maps, já que nunca mais pus os pés no meu antigo bairro. Um lugar com baixos índices de violência capaz de me deixar aterrorizada. Não estou preparada para me reencontrar com o passado, inclusive, há algum tempo tenho me mantido indiferente a ele. Continuando a morar na mesma cidade, esse fantasma sempre está à espreita, enquanto permaneço escondida para preservar meus bons sentimentos.

Detestava morar com meu pai e por conta disso perdia noites de sono planejando a minha fuga definitiva. Ficava um dia – dois no máximo – exilada na casa da minha namorada durante os finais de semana em que ele não saía de casa. Permanecer mais tempo que isso seria impossível, porque os pais dela nunca me viram com bons olhos. “Eu não quero que você fique trazendo problemas para a minha casa e nem para a minha filha” – nunca me esqueci dessas palavras sussurradas pela mãe dela.

E como conseguiria me sustentar? A prostituição já era o caminho mais provável. Isso porque durante alguns meses o meu pai havia me deixado sem cartão para evitar minhas habituais saídas à noite. Não adiantou porque para onde eu ia, tudo que precisava poderia ser trocado por sexo. Papai nunca soube desta verdade, mas sem muito esforço seria possível intuí-la – tanto que nunca questionou como eu conseguia dinheiro para sair. Lamento muito, pois havia tantas respostas contundentes para lhe agraciar. Se era inevitável a filhinha vadiar pelas ruas, então que fosse naquelas movimentadas pela nata da sociedade. Assim, voltou a financiar meus deleites e minhas rebeliões.

Eu deveria me atentar que planejamento não funciona muito bem para aqueles que tomam decisões por impulso. No começo de 2008, eu entrei em depressão por vários motivos: não passar no vestibular, ficar longe da minha namorada, terminar um relacionamento BDSM, continuar brigando com a família, ser tratada como um objeto sexual. Nunca antes na história da minha revolta, havia passado tanto tempo enclausurada em casa. Aquela pretensão de morar em outro lugar parecia nunca ter existido. Queria ficar isolada da realidade, completamente sozinha, e não havia outro lugar onde poderia me sentir mais solitária. Só saía do quarto para ir à cozinha e só conseguia comer alguma coisa, porque passava a tarde toda fumando maconha.

Depois de alguns dias, eu me rendi à insistência de uma amiga para irmos a uma festa. Bebi tequila e cheirei cocaína até desmaiar. Acordei de tarde com o barulho de dois moradores da casa conversando na cozinha. Eu fiquei não sei quantas horas largada no sofá da sala de entrada, toda fodida e suja, completamente nua e sem nada para me cobrir. Eles nem sequer recolheram do chão as camisinhas que usaram para me violar. Me levantei tremendo. “Eu tenho que ir para casa! Eu tenho que ir para casa! Eu tenho que ir para casa!”. Foi com este único pensamento que tentei preencher minha mente por completo. Sinceramente, não me recordava de como havia me sentido. As lembranças surgiram bem depois e eram horríveis. Depressiva, eu me considerava um lixo! E não é que aqueles caras me largaram como se eu realmente fosse um? Confesso que dói um pouco pensar em palavras para este caso, então achei melhor não estendê-lo mais do que isso.

O pior dia da minha vida, ainda me reservava uma última desgraça, que foi justamente abandonar a casa onde morava. Eu esperava chegar no meu quarto, tomar logo um banho, deitar na cama e passar o resto do dia chorando e pensando em me matar. Tudo estava dando errado e só me restava a frágil esperança de não me encontrar com mais ninguém. Encontrei-me precisamente com o demônio encarnado na figura paternal. Para atravessar a porta para o confinamento no quarto, precisava passar por uma última provação: suportar mais uma discussão entre pai e filha.

Não adiantou tentar me manter firme se já me sentia toda despedaçada. Por que resolvi ir para lá, se sabia que ele só me faria mal? A entonação em cada palavra, os gestos apontando para mim, o jeito de me olhar; como era possível abominar tanto qualquer atitude de uma pessoa? Para mim, não mais uma pessoa, sim uma grande aberração. Tudo de bom que desejava na minha vida – um namoro, entrar na faculdade, ter amigos verdadeiros –, eu estava perdendo.  Neste inferno onde entrei, só me restaria a maldita companhia do diabo. Não poderia deixar isso acontecer! Estava farta de tantas brigas! Para tanto, recorri ao método dos covardes: corri para bem longe.

(A história continua no post seguinte: De passagem pelo inferno – 2ª parte)

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Minha versão sobre meu açoitamento

Se eu não estivesse depressiva, não sentia muita vontade de apanhar dos meus parceiros sexuais. Aí, ensinaram-me que minhas vontades eram irrelevantes, assim, o resultado final poderia ser constatado nos hematomas que salpicavam o meu bumbum. As mesmas marcas que me deixavam orgulhosa e excitada, também geravam vários transtornos previsíveis. Sonhava constantemente com o dia em que os assentos de madeira do meu colégio seriam todos acolchoados, confortáveis como o enorme puff do meu quarto, onde meu corpo afundava após uma sessão de spanking. Bastava sentir o choque do meu traseiro sensível com alguma superfície para despertar minha libido. Se a dor fosse contínua, o melhor a se fazer era pensar em situações excitantes, como ser acorrentada a um tronco e receber chibatadas até o chicote riscar a minha carne abrindo pequenos cortes.

Mesmo me sentindo mais atraente com marcas inchadas e arroxeadas pelo corpo, expô-las suscitariam questionamentos e reações imprevisíveis. Poderia até escondê-las da sociedade, mas entre quatro paredes várias pessoas se defrontaram com minha pele malhada de vermelho, roxo, ou amarelo. Constrangimento e excitação se manifestavam em conjunto. Para não comprometer o meu tesão, só explicava o motivo de ter sido agredida depois de satisfazer minha vontade de dar. Ora, se eu tirei a roupa, era porque queria fazer sexo e não passar por um exame de corpo de delito. Em alguns, a curiosidade persistia. Quem seria capaz de machucar uma garotinha indefesa? Nunca me interessei pela compaixão de nenhum deles. Dava explicações mentirosas porque, como eram relacionamentos casuais, ninguém precisava conhecer minha atração pelo masoquismo.

A principal responsável pelos meus machucados era a minha dominadora, mas colocava a culpa num ex-namorado imaginário quando precisava me explicar. Contudo, a versão cujo agressor era um sujeito desconhecido e violento era insossa e trivial demais. Se fosse para inventar uma história, então que fosse estimulante e, para isso, era preciso aproximá-la um pouquinho da realidade. Acrescentar quem eu sabia que tinha dezenas de motivos para me dar a única surra realmente capaz de me educar: ou seja, o meu papai. Na minha história imaginada, contava que ele era um ótimo pai. Superprotetor e por isso bastante rigoroso com as condutas da filha. Após todas as medidas educativas não surtirem efeito, só algumas palmadas eram capazes de transformar meu comportamento. Isso não queria dizer que ele fosse violento, inclusive, imagino que nunca o condenaria se um dia me agredisse.

Alguns me aconselhavam a denunciá-lo. Se fosse para reivindicar amor, carinho e atenção talvez valesse a pena. Para qualquer outra coisa, contaria algumas mentirinhas, sendo que não sou muito convincente para sustentá-las. Não estava diante de nenhum júri, nem mesmo de alguém conhecido, então as difamações contra meu pai escapavam pela minha boca como o ar que eu expirava, sem a mínima preocupação de se assemelharem com a verdade. Um pouco de atenção sobre as evidências e surgiriam desconfianças nessa história de um pai que castigava apenas o bumbum e os seios da filha. Enquanto metiam, sentia as marteladas do quadril na minha bunda e os meus peitos sendo amassados como bolas de papel. Às vezes a dor era tão pujante que tinha a sensação de todos os meus músculos se contraírem e, ao mesmo tempo, mal podia respirar, porque abafava os meus gemidos cobrindo a boca com minhas roupas para que não saíssem agoniantes. No final, eu gozava imaginando que havia passado pela última fase da minha punição.

Se a participação paterna era uma grande alucinação, pouco importava. Tinha a oportunidade de revelar certas falhas pessoais para justificar castigos tão violentos. Dizia que meu pai havia descoberto que eu era usuária de drogas, fugia de casa à noite e ficava dias sem dar notícias, roubava dinheiro de sua carteira, não frequentava todas as aulas no colégio. Enfim, inventava contravenções para parecer mais indisciplinada, mais problemática do que de fato eu era. E às vezes, quando me via no espelho, acreditava que tudo era verdade, e isso me trazia conforto e equilíbrio. Não seria justo eu cometer tantos erros e não ser punida; não seria justo eu ser punida sem ter cometido tantos erros.

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