A indecisão de gêneros

(Observação: o “x” no final de algumas palavras ou isolado numa frase pode ser substituído por “a”, “e” ou “o”)

Ele preferiu entrar sozinho no banheiro do motel. Quando saiu, estava vestidx de camisola vermelha, calcinha fio-dental, meia 7/8 e peruca preta. Admito: sua aparência era bem feminina, exceto as pernas, que ainda estavam um pouco peludas.

– Ah, então você é crossdresser?

– Sim, você não gosta?

– Sinto muito, eu não realizo este tipo de fantasia. Você me disse que só queria sexo.

– Eu sei, eu deveria ter te avisado. Me desculpe!

Ficou bem constrangidx. Eu esperava duas reações: o cliente ficaria insistindo para me convencer, ou jogaria na minha cara que estava me pagando bem e por isso deveria atender suas vontades. Às vezes sinto um forte desencanto pelas pessoas que me faz esperar pelas piores respostas. Elx ficou tentando se justificar por que não havia me contado sobre sua fantasia e logo em seguida demonstrou arrependimento. Sinceramente, não precisava de explicações e aceitei numa boa suas desculpas. Sou bem tolerante com fetichistas, porém não dá para me envolver com tanta diversidade. Minha vontade repentina era de ir embora o quanto antes.

– A gente pode ficar só conversando então?

Uma garota de programa nunca pode ser indecisa. Claro que não tenho respostas determinadas para tudo, então muitas vezes respondo sem pensar duas vezes. Vale lembrar que há situações em que a indecisão é um recurso para se fazer de difícil, para fazer charme. Agora, para o caso em questão, não conviria este tipo de artifício.

– Podemos sim! Conversaremos como duas amigas, combinado?

Minha máxima sempre foi: “menos falação e mais felação”. Sóbria, não sou uma das putas mais comunicativas. Conversinhas sempre são convenientes para quebrar o gelo ou conhecer as preferências sexuais de cada um. Contudo, uma hora inteira só ouvindo as histórias do mesmo sujeito tem grandes chances de me deixar entediada. Decidi ficar e tentar ser uma boa companhia, pois também não estava tão inspirada para fazer sexo, e elx já havia pagado pelo meu programa e para me tirar da casa.

– Então você tem vontade de se tornar uma travesti, ou mesmo uma mulher?

Elx relutou um pouco para responder, mas depois afirmou que sim e emendou uma lista de características que x atraíam para o universo feminino, com o qual já estava bem familiarizadx. Desde que se travestiu, referia-se a si mesmx sempre no gênero feminino e foi por isso que durante toda nossa conversa eu x tratei como uma garota. Era a primeira vez que eu havia parado para ouvir com atenção alguém com transtorno de identidade de gênero. Ainda faço muita confusão com as várias terminologias para enquadrar as variações de comportamento e as percepções de identidade. Minha visão sobre a condição dos transgêneros era muito superficial, porque tive contato somente com algumas travestis que se prostituíam. Automaticamente, nota-se que algo está muito errado! É um verdadeiro absurdo que em nossa sociedade só encontremos essas pessoas na prostituição ou, com menos frequência, nos salões de beleza!

– Se eu me tornar travesti, o que posso fazer além de virar puta?

Eu fiquei sem resposta. Não por me sentir ofendida por ter minha profissão desvalorizada, mas por não saber a solução mágica para superar a marginalização e o preconceito que acometem essas pessoas. Elx tinha um pouco mais da minha idade, era inteligente, esclarecidx e muito sensível. Falou sobre família, namoro, sexualidade, tratamentos hormonais e discriminação. Foi quando começou a chorar, destrinchando com profundidade os conflitos que passou e ainda teria que passar por ser diferente. O que eu poderia dizer? Como consolá-lx? Fico desesperada nessas horas e também começo a chorar! É um jeito de dizer que também sei como é se sentir diferente.

– Fica calma! Tudo vai ficar bem!

Disse que não precisava decidir agora qual gênero assumir. Não precisava passar por isso sozinhx, porque havia outras pessoas que se sentiam da mesma forma. Não precisava assimilar os preconceitos machistas e os falsos moralismos do senso comum. Não precisava se enquadrar a categorias pré-estabelecidas, nem corresponder aos comportamentos designados para cada sexo. Enfim… minha linha de raciocínio sempre termina com “agora que tudo se foda”! É um jeito de lidar com minha impotência, minhas frustrações. A única coisa que estava ao meu alcance era lhe dar prazer. Deitamos de lado na cama, e eu x abracei por trás. Ainda estava sensibilizadx após colocar para fora tantos sentimentos confusos e verdadeiros. Aos poucos foi se acalmando, conforme sentia meus dedos acariciando seu pênis e sua próstata.

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A mamãe na versão da madrasta

O fim do relacionamento com a minha primeira namorada deixou dois vazios: um buraco afetivo e um túnel sexual. O primeiro logo foi preenchido quando comecei a namorar uma garota da minha sala, ainda hoje o amor da minha vida. Minha satisfação escorria pelo segundo, sentia-me revigorada por algumas horas e depois novamente o vazio. Ficava na masturbação, no sexo virtual e, algumas vezes, arrumava alguém para me foder. Eram medidas paliativas necessárias enquanto não encontrasse alguém para uma relação BDSM. Mantinha contato com vários praticantes, e embora não fosse muito exigente na hora de avaliar as qualidades de cada um, não abria mão de um requisito: teria que ser uma mulher.

Conheci a Aline numa sala de bate-papo. Ela parecia mais uma caricatura de dominadora: só escrevia com letras maiúsculas, exigia que eu escrevesse senhora no final de cada frase, me chamava de cadela sem me conhecer e ainda queria partir logo para o sexo virtual. Já fui enganada muitas vezes na internet por sujeitos se passando por mulher. Aos quinze anos, suspeitava que fadas e duendes não existiam e também que a Aline era um homem punheteiro e fetichista. Bom, se era só para ficar no mundo da fantasia, pouco interessa o sexo alheio. Mantivemos contato por meses, e ela sempre me dominava de alguma forma. Em uma de nossas conversas, ela me pediu para sempre usar a palavra mágica “mamãe” para me referir a ela.

– Eu imploro, mamãe!

– Me perdoe, mamãe!

– Obrigada, mamãe!

Mamãe, mamãe, mamãe! Isso não saía da minha cabeça! Se antes tudo era mera fantasia sexual, depois disso, meus sentimentos tomaram vastas proporções. Eu queria que ela fosse minha mãe! Por favor, era tudo que eu mais queria! Mas e se fosse tudo uma ilusão? Sentia sua falta e a procurava em outras pessoas e em outros lugares:

Hush now baby, baby, don’t you cry (Acalme-se agora, bebê, não chore)

Mama’s gonna make all of your nightmares come true (Mamãe irá fazer todos os seus pesadelos se tornarem realidade)

Mama’s gonna put all of her fears into you (Mamãe irá colocar todos os medos dela em você)

Mama’s gonna keep you right here under her wing (Mamãe vai manter você bem aqui sob sua asa)

Toda vez que ouvia Mother do Pink Floyd começava a chorar. Vejo minha mãe na letra desta música, com todas suas falhas e virtudes. Ela estava naqueles versos, mas a quilômetros de distância de mim. “And of course, mama’s gonna help to build the wall”. Sem saber, a Aline estava destruindo este muro. Por isso, ela não podia ser real, por favor, não! Isso me deixava apavorada! Era para ser um passatempo, nada além de sexo virtual. Ela me castigava, eu começava a chorar. Não por causa da dor, mas porque depois ela escrevia “muito bem, meu bebê!”. Como queria abraçá-la, esconder meu rosto no seu ombro, sentir sua mão acariciando meus cabelos! Don’t you cry…

Ela era real. Nunca acreditei em deus, mas agradeci a ele com as mãos unidas e olhando para o teto. Meses depois eu o amaldiçoaria. Quando começamos a nos encontrar, ela me castigava por qualquer besteira. Um destes castigos foi me proibir de chamá-la de mamãe e não mais me chamar de bebê. Para ela, eu não fazia nada para merecer este tratamento familiar. Foi então que prometi: “Farei tudo que a senhora quiser!”. Nem tudo me dava prazer, como se podia notar nas fotos e nos vídeos de nossas sessões. Por que aceitei que registrasse quase tudo? A verdade é que sempre esperei ouvi-la dizer “muito bem, meu bebê”. Ora, entendo que boas mães jamais abandonariam suas filhas! Ela estaria sempre aqui para cuidar de mim. Foi minha grande ilusão! Não pude deixar de me sentir enganada e uma idiota por alimentar aquela fantasia virtual. Não era, nem nunca chegou a ser real, por mais que tivesse feito todo o possível para que fosse…

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As blasfêmias que tanto me excitam

Se for para falar de sexo, admito ser uma fonte bastante produtiva de ideias. Executá-las já é outra história. Neste ano, decidi me empenhar em materializar certos desejos absurdos, que não puderam ser contemplados nos programas devido às limitações sexuais impostas por mim mesma. Se mantiver minha atual motivação, quem sabe eu não consiga, daqui alguns anos, inaugurar minha própria masmorra, com direito a correntes e grades enferrujadas, pouca iluminação e muita umidade, camadas de lodo nas paredes e a companhia de alguns ratos e aranhas. As poucas vezes que fiquei amarrada por horas quase me mataram de tédio, então se for para ficar presa, que seja num cativeiro personalizado.

Pois é, ambientes medievais deste tipo sempre são muito inspiradores para escravas sexuais como eu. Não obstante, acrescentaria um tribunal de inquisição para me condenar pelos crimes contra a fé católica. O julgamento não passaria de uma formalidade; meu pecado é a luxúria e eis aí a minha xana molhadinha que não me permitiria alegar inocência. Diante de intolerantes religiosos, jamais me perdoaria se desperdiçasse a oportunidade de me confessar. Pois bem, caros santíssimos senhores, preciso admitir que sua religiosidade irracional me deixa com um tesão dos infernos!

Tenho vontade não apenas de transar com inquisidores – ainda presentes no mundo contemporâneo com a mesma mentalidade medieval, mas sem a permissão divina para queimar os ímpios em suas fogueiras – mas também com aqueles que se entregam à castidade por devoção a deus. Não quero um homem fantasiado de bombeiro, nem de policial, nem de militar. Quero um homem na cama vestido de padre! Descrenças à parte, denuncio esta minha preferência como uma obra do demônio. Explicai-me, senhor, como é que eu consigo enxergar sexualidade numa batina?

Quando penso que o evangelho afirma pregar a salvação, logo me sinto compelida a disseminar, principalmente no antro divino, todas as minhas crenças em seguir pela perdição. Se eles podem tentar me converter, então eu também poderia tentar pervertê-los? Bíblia ou peitos? Teria questionado o diabo ao anunciar o início do apocalipse. No momento, prefiro  evitar conflitos com a comunidade do Santo Ofício, então deixo registrado meu respeito pelo voto de pureza assumido pelos mais ortodoxos – tanto que tenho resistido à tentação de profaná-los com a minha carne impura. Agora, fantasiar fazer sexo com o padre no altar da igreja é um pecado muito grave, ó meu pai?

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