Promotora de infidelidades

Tem cliente que adora falar da companheira enquanto está comigo. Se ficar exaltando demais as qualidades dela, a conversa torna-se muito chata. Em contrapartida, falar mal de outra pessoa, geralmente, rende bem mais assunto. Não é lá uma atitude das mais íntegras, mas nos meus programas dou total liberdade para o sujeito ser um cretino com a parceira.

Como não conheço o casal, guardo meus julgamentos só para mim. Isso não me impede, contudo, de incitar mais algumas declarações polêmicas. Algumas vezes, parecia que eu estava mais atraída pela outra, do que pelo cliente em si. Só que não. Até poderia dar uma de psicóloga e me inspirar em Freud – “quando o cliente me fala da esposa, sei mais do cliente que da esposa” –, mas a verdade é que não estou realmente interessada em saber de mais ninguém além de mim mesma.

É muita insensibilidade de minha parte aceitar tal desrespeito com essas mulheres. Por um lado, procuro considerá-las não mais do que abstrações; tão distantes da realidade que não me inspiram nenhum sentimento de compaixão. Por outro, a existência delas estimula uma de minhas fantasias: ser a amante.

O título de “amante” não é totalmente adequado, já que fico poucas vezes e poucas horas com o mesmo cliente. Dá para ter apenas um gostinho de transar com alguém comprometido. Este detalhe por si só, não desperta o meu tesão. Para atiçar esta fantasia, é preciso que o sujeito estabeleça comparações entre mim e a sua parceira – e, obviamente, que ele me qualifique melhor em todas as avaliações. Não vou negar que possa haver um certo “duelo de vaidades”, mas também não sou boba de me iludir por palavras aduladoras. Toda esta bajulação serve para dar uma pitada de realismo aos meus devaneios sexuais.

Fico pensando no que aconteceria se eu fosse pega nestas cenas de infidelidade. Nunca fui flagrada por estas mulheres traídas, porém já me acusaram – injustamente ou não – de ter dado para deus e o mundo. Nem preciso saber de quem elas estão falando, porque sempre irei alegar inocência. Eu quase não tenho vida social, só ando transando com quem me paga e, mesmo assim, surge não sei de onde um bando de maloqueiras querendo arrumar confusão comigo.

“Em vez de ameaçar me bater com uma garrafa, vai lá atrás do cara que me contratou, oras”! Aí ela me retrucou com uma inusitada comparação, dizendo que eu era como uma droga e, por este motivo, os homens me procuravam. Fiquei muito confusa porque recebi esta declaração como um elogio. Se estivesse numa situação normal, eu teria agradecido. Como não estava, me preservei de uma garrafada, desviando o foco da discussão.

Uma vez que sempre me orientei pelos padrões de ética do meretrício, ninguém pode me culpar caso um relacionamento acabe, após uma das partes passar momentos íntimos comigo. E isso é muito bom! Dentro de mim habita uma aberração predisposta a semear o caos e levar a destruição de lares e famílias. Vivenciei poucas relações monogâmicas estáveis, assim minha forma de pensar tende a defender uma putaria generalizada no que diz respeito a relacionamentos tradicionais. 

Se hoje muitas pessoas me veem como uma vadia, não imaginam como eu era antes de virar puta. Rapazes desacompanhados de suas namoradas eram o meu alvo predileto. Sim, eu era uma vagabunda inveterada! Fui responsável pelo término de alguns namoros, e isso foi uma das minhas atitudes de que mais me arrependo. Por isso, atualmente, colocar-me no papel de amante nada mais é do que uma construção imaginária. O jeito de satisfazer o meu monstrinho da discórdia com um punhado de ilusões.

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Quer mesmo namorar comigo?

Se eu já me apaixonei por algum cliente? Ora, pare com essas bobagens! É evidente que não. Não me interesso em começar um relacionamento, consciente de que um fim trágico se aproxima. Uma boca que se contamina pelo contato com o corpo de vários homens está debilitada demais para declarar um “eu amo você” com toda a sinceridade. Os clientes estimulam a libido, mas não cultivam absolutamente nada no coração. Quer encontrar um namorado? Então, em primeiro lugar, vista uma roupa decente, comporte-se como uma moça de família e contenha seus impulsos hormonais!

Não digo que tal mudança de comportamento seja impossível, mas com toda certeza seria um exercício muito desgastante. Conhecendo a putaria, não tenho interesse em largá-la nesse instante. Mudemos, pois, o questionamento: quer namorar comigo? Então, em primeiro lugar, seja tão devassa quanto eu. Alguém? Olha lá, bem ali têm alguns clientes interessados. Vocês são uns amores, embora eu não tenha lhes dado muitas oportunidades. Fico completamente travada diante da possibilidade de assumir um compromisso sério com meus consumidores. Talvez porque eu tenha uma visão meio distorcida, ou então muito realista, a respeito do sexo masculino. Geralmente, tenho contato com o lado mais primitivo dos homens e pode ser que isso tenha acentuado a minha orientação homossexual.

Como disse anteriormente, procuro pessoas pervertidas, e homens são tarados por natureza. Muitos machos adorariam ter a sua disposição uma fêmea ninfomaníaca, contanto que ela não se envolvesse com os outros animais do bando. Mas mesmo num caso extraordinário em que o sujeito dissesse algo como: “vai lá, putinha, pode dar esse rabinho para quem você quiser”, não sentiria vontade de assumir um relacionamento. Ando meio desiludida com o sexo oposto. Exaustivamente, já repeti que sou uma vadiazinha. Então, alguns tantos me tratam como uma vagabunda e outros poucos como uma donzela. Até gosto dos dois tratamentos, mas, para mim, seria mesmo especial se me deixasse de quatro e dissesse que me ama.

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A partir de uma confissão de amor

(Antes de ler esse texto, recomendo que leia o post anterior Indícios que atestam minha culpa)

30 de dezembro de 2006.

Ontem à noite, a Larissa e eu conversamos para tentar uma reconciliação. Sentia-me motivada a fazer qualquer coisa para voltarmos a namorar, a começar revelando minha total infidelidade durante o período que ficamos juntas. Não importava dizer com quantas pessoas eu havia me deitado na cama. Por mais que ela quisesse saber, eu não tinha essa resposta; mantive relações sexuais com diversas pessoas e nenhuma vez com minha namorada. O que ela precisava saber provavelmente já estava muito evidente: eu era uma completa vadia. Entretanto, preferi me diagnosticar como uma compulsiva sexual.

“Eu simplesmente não consigo me controlar. Eu quero ser desejada, que as pessoas encontrem o prazer abusando do meu corpo. Então eu saio à noite para me insinuar para qualquer pessoa que demonstre interesse em mim. Não sei dizer exatamente quantos foram e nem quem eram essas pessoas. Eu só me interessava pelo sexo. Isso me dava prazer, então foda-se o resto. Nesse período o meu prazer era completo, porque não me faltava parceiros sexuais, ao mesmo tempo em que me relacionava com a mulher da minha vida. Eu diria que construí dois contextos diferentes e conflitantes entre si. Acontece que eu preciso de um mundo desmoralizado onde eu consiga satisfazer os meus desejos sexuais e, agora, preciso ainda mais de um lugar onde eu possa dedicar o meu amor a alguém. E você era a única pessoa que realmente me amava, e além disso, a única por quem eu sinto amor verdadeiro. Por favor, eu não posso perdê-la porque você é o único sujeito que torna minha vida especial! Sem você, eu fico sozinha… sei que minha parte mais doce vai desaparecer, e eu vou me tornar apenas aquela pessoa que durante todo esse tempo tentei esconder de você. Eu preciso de ajuda… essa é a verdade. Não aguento mais enfrentar isso sozinha; sou muito fraca. Só consigo lutar para reconquistá-la e, mesmo assim, não consigo completar uma frase sem começar a chorar”.

Havia várias palavras que gostaria que fossem ditas, mas não conseguia interromper meu choro para pronunciá-las. Já havia me esforçado muito para declarar um pouco do meu amor naquela primeira mensagem. Infelizmente, não dava para saber se esta traria minha namorada de volta. Foi minha única chance, porque agora eu estava muito nervosa para conseguir desenvolver por completo qualquer argumento. Sentia raiva de mim mesma, das minhas limitações. A Larissa também estava chorando, mas manteve-se equilibrada durante todo nosso encontro. Não questionou nada de tudo que foi dito. Ajoelhou-se ao meu lado – eu estava sentada – acariciou o meu rosto, secando minhas lágrimas, e me deu um beijo na testa. Depois deitei no sofá com a cabeça em seu colo e, conforme me acalmava, ia confessando todas as minhas falhas como namorada.

“Nós vamos resolver isso juntas”, e me beijou.

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