Tantos clientes “desconhecidos”

Minha amável profissão me permitiu conhecer uma grande diversidade de homens, mesmo mantendo contatos muito breves com a maioria. Talvez por isso, é bastante comum não reconhecer um cliente na rua, e na pior das situações, durante o programa, não conseguir me recordar se ele já me contratou outras vezes ou não. No meu cotidiano, sou bastante distraída, não me atento muito às especificidades de cada pessoa (a menos que ela seja muito bonita ou muito feia). Se levar em conta, ainda, a precoce debilidade da minha memória – sendo sempre necessário escrever para me lembrar depois – o resultado é que não tenho a menor ideia de quais homens já fizeram sexo comigo.

Quando estou andando na rua, frequentemente identifico um ou outro indivíduo que já recorreu aos meus serviços. Por uma simples questão de bom senso, jamais os cumprimento, exceto aqueles com quem tenho uma proximidade não apenas sexual. Se as esposas já têm ciúmes das mulheres que trabalham no mesmo escritório que o marido, imagine o que aconteceria se o vissem trocando olhares com uma moça em trajes obscenos? Melhor não correr o risco, então se encontro um cliente na rua, muitas vezes desvio o meu olhar. Acredito que é exatamente essa atitude que eles esperam, porém, sempre têm alguns para me chamar de antipática.

O sujeito me agarra, me joga na cama, tira minha roupa, beija minha boca e depois diz: “Vamos fazer que nem da última vez”. Ahm? Oi? Quem é você mesmo? Tento reverter à situação, dizendo que esta noite será muito melhor que a outra. Mas dependendo da circunstância, tenho que admitir: “Me desculpe, mas eu não estou me lembrando direitinho do nosso último encontro”. Pode ser meio broxante ouvir isso, mas entenda o meu lado: são tantos homens pelados, querendo sexo com alguma especificidade, então é muito provável que eu confunda as preferências de um com as de outros. Além disso, já assimilei o sexo como parte da minha rotina e, por efeito, alguns programas fluem inconscientemente. Se eu fosse uma ótima profissional, isso jamais aconteceria. Até gostaria de me desculpar com esses clientes pelo trabalho mecânico, mas… como era mesmo aquele senhor com quem eu acabei de transar?

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Quer mesmo namorar comigo?

Se eu já me apaixonei por algum cliente? Ora, pare com essas bobagens! É evidente que não. Não me interesso em começar um relacionamento, consciente de que um fim trágico se aproxima. Uma boca que se contamina pelo contato com o corpo de vários homens está debilitada demais para declarar um “eu amo você” com toda a sinceridade. Os clientes estimulam a libido, mas não cultivam absolutamente nada no coração. Quer encontrar um namorado? Então, em primeiro lugar, vista uma roupa decente, comporte-se como uma moça de família e contenha seus impulsos hormonais!

Não digo que tal mudança de comportamento seja impossível, mas com toda certeza seria um exercício muito desgastante. Conhecendo a putaria, não tenho interesse em largá-la nesse instante. Mudemos, pois, o questionamento: quer namorar comigo? Então, em primeiro lugar, seja tão devassa quanto eu. Alguém? Olha lá, bem ali têm alguns clientes interessados. Vocês são uns amores, embora eu não tenha lhes dado muitas oportunidades. Fico completamente travada diante da possibilidade de assumir um compromisso sério com meus consumidores. Talvez porque eu tenha uma visão meio distorcida, ou então muito realista, a respeito do sexo masculino. Geralmente, tenho contato com o lado mais primitivo dos homens e pode ser que isso tenha acentuado a minha orientação homossexual.

Como disse anteriormente, procuro pessoas pervertidas, e homens são tarados por natureza. Muitos machos adorariam ter a sua disposição uma fêmea ninfomaníaca, contanto que ela não se envolvesse com os outros animais do bando. Mas mesmo num caso extraordinário em que o sujeito dissesse algo como: “vai lá, putinha, pode dar esse rabinho para quem você quiser”, não sentiria vontade de assumir um relacionamento. Ando meio desiludida com o sexo oposto. Exaustivamente, já repeti que sou uma vadiazinha. Então, alguns tantos me tratam como uma vagabunda e outros poucos como uma donzela. Até gosto dos dois tratamentos, mas, para mim, seria mesmo especial se me deixasse de quatro e dissesse que me ama.

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Experiências sexuais em números

Após anos em contato com o íntimo masculino, percebi que suas mentes compreendem melhor a realidade a partir de dados estatísticos (daí o predomínio de homens na área de exatas). Não querendo desdenhar desse método de informação – ainda mais numa época em que ando acompanhando as pesquisas eleitorais – apenas acho que é inapropriado empregá-lo em qualquer amostra de estudo, como por exemplo, para quantificar a “quilometragem” de uma garota de programa. Tudo bem que essa metodologia poderia revelar detalhes interessantes de uma garota, mas o problema maior passa pela dificuldade do levantamento de dados.

Parece ser de interesse de meus clientes saber com quantos homens eu já saí, a quantidade de pênis que já passaram pela minha boca, o número de vezes que me penetraram por atrás. Na real, a resposta é muito simples: “e eu lá vou ficar registrando as vezes que meteram o pinto em mim?”. É comum ver esses jovenzinhos quantificando sua vida sexual para depois serem reconhecidos entre si como os machos reprodutores. Mas em geral as moças não têm essa preocupação, ainda que, no início da minha adolescência, eu costumava anotar no meu diário como haviam sido todas as minhas aventuras sexuais. Consultando-o, daria para ter uma noção exata da abundância de relações que tive no período em que ainda não me embriagava tanto.

Pode até ser importante para um jogador de futebol contar o número de gols marcados durante a sua carreira, mas para uma prostituta não é muito conveniente registrar a quantidade de programas (a menos que estes sejam com jogadores de futebol). Quando esses recenseadores começam a me questionar, geralmente declaro uma jornada de trabalho bem menor do que minha média diária. Dessa forma, eu busco deixar implícita a ideia de que sou uma profissional mais seletiva, quase exclusiva. Não ficaria muito surpresa se muitos homens acreditassem nessa minha balela, principalmente aqueles que só me procuraram uma vez (já nos encontros subsequentes começo a ficar um pouquinho mais sincera).

– Quantos programas você já fez nessa semana?

– Por enquanto foram treze e meio.

– Como assim meio programa?

– Foi porque o cliente passou metade do programa perguntando sobre minha vida como prostituta, daí o tempo acabou e o sexo ficou pela metade.

Olhei para o relógio e depois para o cliente. Abri um sorriso e fui retirando minha blusinha lentamente. Ele entendeu o meu recado e foi logo me agarrando. Naquela mesma hora, sua curiosidade numérica foi reduzida a zero; todos os questionamentos foram anulados. O tempo sempre interfere no cálculo das ciências exatas.

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