Quase quebrei alguns espelhos

A sensação de me ver diante do espelho e não me reconhecer como um ser humano era muito comum. Variavam muito os sentimentos transmitidos pelo jeito de me olhar: compaixão, desprezo, nojo, revolta, desapontamento, constrangimento, satisfação… não importa quais sejam; sempre ficava aquela vontade de chorar e de repente acertar um soco no rosto da minha imagem. Fechava o punho cravando minhas unhas na palma da mão para controlar meu impulso agressivo. “Deixe de ser idiota, você pode quebrar o espelho”. Ainda que eu não verbalizasse esta advertência, sempre fechava os olhos para não ampliar o meu ódio, caso observasse em meus lábios qualquer sinal de pronúncia destas palavras.

Observando meu reflexo, revivenciava um passado recente sob diferentes perspectivas. Precisava estar completamente nua, pois só assim teria uma breve noção de como eles me viam. Primeiro tocava meu sexo. Independente de como terminava no final da noite, no começo sempre estava excitada. A partir daí, conforme o tempo passava, muitas lembranças se tornavam mais difusas. Em certos casos, apenas imagens bem pouco significativas: uma luminária no teto, um relógio digital no criado, um cartaz na parede, a estampa de uma toalha de mesa. Vários rostos despontavam sem fisionomia, mas com alguma expressão.

Hematomas e dores persistentes auxiliavam-me a recontar a última experiência dramática. Batia, arranhava, apertava e até tentava me penetrar onde havia vestígios de abusos no meu corpo. Não que fosse difícil resgatar em minha memória as sensações pelas quais havia passado; fazia isso para acompanhar as expressões em meu rosto. “Será que era assim que eles me viam?”. Chegava a me projetar no papel do outro e me perguntar como tiveram coragem, ou por que fizeram aquilo. Sob meu ponto de vista, um comportamento repudiável, contudo, poderia condená-los pela brutalidade contra um objeto primário?

Tinha a impressão de sair do meu corpo, ainda que não pudesse observar de fora o jeito como eles se regozijavam com uma casca vazia. A alma poderia estar projetada que mesmo assim mantinha uma conexão com a carne fria e estática. A regra era não resistir; uma hora tudo termina. Dor, humilhação e impotência eram desligadas pela mente antes mesmo do fim. Eles não podiam me destruir, porque eu nem sequer estava presente em meu próprio corpo. Ainda sinto prazer. Lapsos de prazer que talvez correspondam aos momentos em que ele fora mais intenso. Tenho apenas recordações fragmentadas, porque logo que eles saíam de cima de mim, eu já não sentia mais nada, minha mente ficava em branco.

Meu deus, quantas vezes eu fui estuprada? Somente uma entidade com poderes divinos, muito além da minha compreensão seria capaz de me responder, já que eu mesma não tenho ideia. Fora as vezes em que me violentaram enquanto estava desacordada, em quais experiências houve de fato o meu consentimento? O sujeito já estava me agarrando no momento em que eu deveria determinar minha vontade. A falta de reação estimulava-o a prosseguir. O meu corpo pouco se movia, embora eu me sentisse desesperada pela plena passividade. Poderia falar alguma coisa, empurrá-lo, chutá-lo, começar a gritar, tentar fugir, nem que seja para ganhar tempo para pensar!

Na maioria das vezes, virava o rosto de lado ou fechava os olhos. Não importava que eu estivesse cansada, embriagada ou passando mal. Não importava se as consequências fossem negativas ou positivas, o sofrimento maior do que o prazer de sofrer. Durante estes incidentes, geralmente as dores eram moderadas. Só depois de voltar para casa, eu era capaz de realmente constatar o quanto estava machucada. Era mesmo isso que eu merecia? Pelo sim, ou pelo não, era um resultado previsível para uma garota permissiva e coisificada – características que amenizavam qualquer trauma. Todos os indícios indicavam que fui vítima de violências sexuais, das quais além de dores, também extraí orgasmos.

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Dava para ser a biscate

Dos 16 aos 18 anos, saía bastante à noite para dançar, beijar, beber e foder – e indiretamente para não ficar em casa e para provocar o meu pai. Minhas expedições começavam solitárias, por isso o primeiro artigo de sobrevivência que buscava era uma companhia. Para me aproximar de outras garotas, precisava ser no mínimo sociável. Já para atrair os garotos, bastava pôr uma saia bem curtinha. Com isso, quero dizer que o caminho mais cômodo era me tornar uma sem-vergonha. Neste post, tentarei justificar melhor esta minha carência de pudores. Não me satisfazia ser apenas safadinha, queria ser condecorada como a devassa suprema da vida noturna. Pais pressionam os filhos para serem os melhores, e os meus não eram diferentes em relação aos meus estudos. Tirava notas muito boas, sem ter que me esforçar tanto. Poderia ter a fama de uma nerd, mas simpatizei muito mais com o reconhecimento de biscate. Haja dedicação para alcançá-lo!

Se observar a história de infância dos “grandes gênios da humanidade”, não raro, percebe-se que foram crianças prodígio. Fulano falava não sei quantas línguas aos oito anos, beltrano publicou seu primeiro livro aos quatorze, sicrano graduou-se aos dezesseis e por aí vai. Eu queria ter um talento extraordinário na minha adolescência, mas não dava para ter mínimas esperanças de que isso viria pela minha capacidade intelectual – uma característica não muito valorizada pelos mais jovens. Assim, numa noite, enquanto observava o movimento em uma festa, tive um magnífico insight: “Olha essas garotas de vinte e poucos só no grupinho delas, falando bobagens, se achando muito descoladas, dispensando qualquer garoto. Onde está a graça nisso tudo?”. Na insolência dos meus quinze anos, resolvi que iria mostrá-las como se divertir de verdade. Como não tinha um círculo de amigas, agregava-me a qualquer grupo de garotos. Para mim, era uma grande conquista ser a única mulher e passar pelas mãos de todos eles.

Minha lista de contatos se expandiu de uma hora para outra, e o meu número de telefone circulava até por pessoas que nunca conheci. Foi preciso adquirir outro celular para atender somente ligações mal-intencionadas. O sujeito me ligava, identificava-se, mas nunca me recordava do nome de ninguém. A pergunta chave era: “Quando a gente se conheceu?” e a partir desta resposta eu decidia se aceitaria o convite deles ou não. Caso a noite em questão tivesse sido legal, a resposta inclinava-se para um sim, mesmo sem saber ao certo com qual dos garotos que me pegaram eu estava conversando. Aos poucos, fui registrando estas diversas “amizades” nas páginas dos meus diários.

Ir a festas particulares tinha mais vantagens do que sair para baladas. A começar, ninguém se preocupava ou nem mesmo sabia que eu era menor de idade. Poderia beber de graça, fazer sexo in loco – inclusive numa cama confortável – e era mais fácil encontrar alguém para me levar de volta para casa, quando já não capotava por lá mesmo. Durante certo tempo, ia sozinha para estas festas e muitas vezes era a única mulher presente. De certa forma, eram situações muito apreensivas, porque eu jamais poderia cogitar em só curtir o ambiente e ir embora sem fazer sexo. Era minha garantia de proteção: se não fosse consentido – e quase sempre eu realmente estava afim –, teria sido violentada. E para piorar, eu mesma criava circunstâncias de risco.

Uma vez, aceitei o convite de um rapaz para uma confraternização em sua casa. Chegando lá, havia três garotos jogando Winning Eleven no Playstation 2. Aquela era uma brisa muito errada! Se tivesse pelo menos um Mario Kart, eu teria me divertido, porém o máximo que rolou foi uns beijinhos e uma iniciativa de punheta. Não suportei ficar lá por muito tempo e fui embora frustrada e irritada. Como eu evitaria outras conjunturas semelhantes a esta? Mais uma vez, fui iluminada por um clarão (fosco) de genialidade! Eu diria que só sairia de casa se pelo menos cinco pessoas (subentende-se homens) já estivessem na festa. Parecia uma condição razoável, mas logo foi interpretada como: “Ela só aceita transar se houver pelo menos cinco caras!”. A partir daí, minha reputação se substanciou baseando-se nesta falsa premissa. Eu não dava para cinco parceiros de uma vez! Até poderia ter ficado com todos, mas asseguro que ia para cama com no máximo três.

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Análise empírica do organismo extragenital

Da série “impasses profissionais irresolvidos”, seleciono uma problemática muito comum na atividade de qualquer prestadora sexual, que denomino como o “homo falicus inerte”. A expressão caracteriza o sujeito despersonalizado que estabelece uma interação mínima comigo e somente pela mediação do pinto. Este espécime, que nesta semana tornou-se endêmica sabe-se lá por qual motivo, apresenta um comportamento típico: no quarto, ajeita-se numa posição bem confortável e assim permanece com poucas variações até o término do programa, ou, durante os dias radiantes de primavera, quando atinge o orgasmo. A passividade de alguns alcançam níveis tão críticos, que o indivíduo manifesta resistência para ações simples como desabotoar a calça ou deitar mais para baixo na cama para eu poder trabalhar numa posição mais cômoda. Caso este quadro não seja revertido, minha projeção é que muito em breve passarei por situações nas quais precisarei carregar estes trastes para fora do quarto.

Um degrau acima na escala de evolução do espécime descrito, encontra-se o “homo falicus semi-inerte”. Diferentemente do exemplar anterior, cujas principais reações catalogadas em campo eram suspiros mais ou menos prolongados indicando tesão, a variação semi-inerte apresenta atividades motoras mais ativas, sobretudo dos membros superiores. Estes esforços podem ser catalogados em três categorias: puxar a minha cabeça contra seu cacete, de modo que este penetre mais fundo em minha boca (situação em que se observa maior perda calórica); apertar, esfregar, apalpar, torcer, puxar, pressionar com as mãos os meus seios e as minhas nádegas; e trabalhar os lábios e a mandíbula em conjunto com a língua, geralmente na minha boca ou, mais uma vez, nos meus seios.

Sobre este último conjunto, são necessárias duas observações: geralmente cabe a mim a tarefa de aproximação para que haja o contato entre o meu corpo e a boca do indivíduo; e uma vez que esta boca demonstrou funcionalidade sexual, foi possível estimular no objeto de estudo a movimentação do pescoço e da cabeça no intuito de aperfeiçoar a experiência sexual dos envolvidos. Estas potencialidades vislumbram um homem realmente capaz de proporcionar prazer a uma mulher, embora ele nem sempre manifeste esta vontade. Espera-se que nos próximos dois ou três programas, no máximo, seja possível também presenciar uma movimentação contínua das pernas e dos quadris. Claro que o programa ideal não vem acompanhado por estas pequenas mudanças, mas com certeza eu já me sentiria bem realizada!

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