Limites da capitalização do sexo

É bem conhecida a trama da garota de programa que passa pela prostituição sem ter aumentado consideravelmente sua renda. Um possível desfecho que amedronta qualquer profissional, embora nem sempre seja capaz de motivá-la a evitá-lo. Acompanhei algumas trajetórias de decadência: começa sem dinheiro, termina endividada. Tanto é possível que talvez o principal conselho dado a uma prostituta é controlar os gastos e deixar uma reserva razoável para a próxima fase da vida. Carreira de puta é passageira e existem várias armadilhas ao longo do percurso. É difícil economizar estando inserida num ambiente de constante ostentação, de culto à vaidade. Aí, fica fácil encontrar aquela justificativa conveniente de “só estou investindo em mim mesma”, enquanto olha as vitrines no shopping.

Comparada às minhas companheiras, sinto-me bastante desleixada. Pego uma roupa qualquer no armário, sem etiquetas de grifes famosas. Se me deixou sensual, ou vulgar, já está valendo. Entendimento de moda deplorável! Contudo, tem dias que eu me esforço para ser uma diva. Ocasiões em que vou trabalhar fora da casa com outras colegas. Aí existe a necessidade de manter um nível de identificação com as demais para não ser rechaçada quando se deflagra o clima de competição pelos clientes mais generosos. A prostituição obriga-me a cuidar da minha aparência, manter-me em forma e coisas do tipo. Está comprovado que quanto mais tempo eu fico longe da putaria, mais eu engordo. Perco toda a disposição! Não me esforço nem para vestir uma roupa. Fico largada na cama fumando um baseado e comendo porcarias.

Os meus dias de folga são cada vez mais raros. É o mesmo que dizer que estou trabalhando mais, que significa ganhando mais. Durante uma época da minha juventude, recebia pouco mais de um salário mínimo, por isso eu passei por aquele deslumbramento de puta iniciante que capitalizou o mesmo salário em três dias. Três dias depois, mais um salário! E depois mais um! Vieram outros e eu estava obstinada em fazer meu planejamento financeiro e controlar meus gastos. Mas como determinar quanto dinheiro eu preciso guardar se não tenho a mínima ideia de onde investi-lo? Trabalhar com números cansa demais o meu cérebro e, para evitar a fadiga, simplesmente deixei de acompanhar meus rendimentos. Precisei ganhar um bom dinheiro para constatar que, felizmente, meus gastos habituais são bastante modestos.

Ter contato com uma realidade desprestigiada trouxe simplicidade à minha vida que, no passado, fora orientada pelos altos padrões de consumo. O sexo domina tanto as minhas preferências que acabo nem tendo com o que gastar. O que o dinheiro pode comprar para eu ter um orgasmo? Eu já tenho um monte de vibradores que nem foram muito caros. Enquanto para minhas colegas, roupas, bolsas, sapatos e joias conduzem aos prazeres mais elevados, eu permaneço insistindo que vibradores são mais eficientes. Elas dizem que gosto de ter uma vida miserável, que continuarei sendo uma puta largada e que um dia ainda me casarei com um caminhoneiro. Se for um cara legal, que me leve bastante para viajar, por que não?

Para algumas garotas, só o dinheiro compensa os sacrifícios que a profissão nos pressiona a realizar. O meu foco para aceitar desafios sempre foi a construção da minha identidade como garota de programa. O que se espera que uma puta faça, eu faço, porque sou uma puta. Isso me torna uma boa profissional; contribui com a satisfação do cliente e com a minha prosperidade financeira. Com um pouco de empreendedorismo, poderia segmentar meu serviço para atender ao mercado fetichista, no qual colocaria em prática meus diferenciais e estabeleceria uma faixa de preço para cada um deles. Pessoas pagariam mais para me bater, para enfiar a mão no meu cu ou para urinar em mim, por exemplo. Especialidades que aprendi ao me dedicar à submissão. “Se me dá prazer, por que também não pode me dar dinheiro?”, lógica reiterada por centenas de profissionais do sexo. Pensei em trazer todas as minhas amadas sacanagens para a prostituição, mas algumas poucas tentativas revelaram-se frustrantes e alertaram-me para o risco de banalizar minha condição de escrava sexual.

Desde o início, senti muita satisfação quando uma rola penetrava em mim por qualquer uma das três entradas. Era melhor do que feriado prolongado na escola. Ser vadia era minha sina e também se tornou meu salvaguarda para não depender da ajuda de mais ninguém. Sim, aquela história de unir o útil ao agradável; dar para receber. Uma vez integrado ao meu dia a dia, fazer sexo tornou-se tão bom quanto uma sexta-feira, que tem toda semana, mas está longe de ser linda como um feriado. Orgasmos tão intensos quanto a alegria da primeira semana de férias, eu só alcancei nos relacionamentos de dominação e submissão. Foram, e ainda são, momentos especiais de profunda entrega, cumplicidade e, no meu ponto de vista, de muito amor.

Não dá para passar a semana toda fazendo sexo à beça sem contar com um momentinho para fazer amor. Senão putinhas como eu sentem-se carentes, sozinhas. Talvez, pertencer a uma dona hoje é o que eu tenho de mais próximo a um namoro. Transar com ela é equivalente a fazer amor fora das pré-concepções de um romantismo erotizado. Um jeito de amar no qual os gestos de carinho são imperceptíveis ao olhar e confundidos com ofensas e agressões. Tudo conquistado com muita confiança e intimidade. Até tenho certo grau de intimidade com os clientes, mas nenhum jamais despertou minha confiança, ou melhor dizendo, minhas expectativas de que minha satisfação como escrava sexual seja concretizada no futuro. Sei que é muito difícil me agradar, sendo assim, na prostituição, o jeito é me contentar agradando aos outros.

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Alguém pobre de afeição

Demoro horas até ficar pronta para foder com você. Tomo banho, arrumo o cabelo, passo maquiagem, faço as unhas e escolho uma roupa sensual para chamar sua atenção e despertar seu interesse por mim.

Diga-me, por que me despreza tanto?

Fico sozinha com você no quarto. Coloco uma música agradável e danço bem pertinho de você. Tiro os sapatos, a blusa e a saia. Quero você excitado! Deixo que toque no meu corpo e ainda retribuo as carícias com um sorriso.

Diga-me, por que me despreza tanto?

Dou vários beijos de língua em sua boca. Faço carinho no seu rosto e nas suas costas. Sussurro próxima ao seu ouvido que gostei de você. Ajudo a tirar a sua e a minha roupa. Levanto os seios e abro as pernas para você poder sentir minhas partes íntimas.

Diga-me, por que me despreza tanto?

Enfio seu pênis inteiro na minha boca e só paro de sorver quando ele estiver bem rígido. Toco uma punheta para você e bato uma siririca para mim. Acompanho suas reações olhando em seus olhos e depois pergunto se quer me foder.

Diga-me, por que me despreza tanto?

Sento em seu colo com seu pênis encaixado na minha vagina. Impulsiono meu corpo para cima e para baixo. Acelero o ritmo das minhas cavalgadas. Agarro-me em seu tórax e lhe abraço ofegante, trocando meu calor com o seu.

Diga-me, por que me despreza tanto?

Coloco-me na posição de quatro e conduzo seu pênis à entrada do meu ânus. Rebolo enquanto você me penetra. Viro o rosto para trás e gemo de prazer a cada estocada. Troco as posições e continuo dando até você atingir o orgasmo.

Diga-me, por que me despreza tanto?

Ouço você me ofender, chamando-me de mentirosa e vagabunda. Presto atenção no seu entendimento de que só estou interessada no seu dinheiro. Recuso-me a responder quando me pergunta se vale a pena transar, por alguns trocados, com pessoas como você.

Diga-me, por que se despreza tanto?

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Pré-projeto para pós-prostituição

Nunca havia ficado tanto tempo sem escrever. Estou sendo mais requisitada, é verdade, e também dando mais atenção a alguns relacionamentos sexuais. Por enquanto, sem novidades. O principal motivo do meu afastamento deste querido diário não contei para ninguém. Nas últimas semanas, decidi enfim procurar ajuda de uma psicóloga para me auxiliar a entender essa completa bagunça que é a minha vida. Passei dias tentando reorganizá-la. Fiz sete sessões de terapia e acabo de decidir que não voltarei mais. A princípio, foi bom, mas neste momento não é mais o tipo de ajuda que preciso. Muito melhor do que desabafar diante de uma desconhecida foi escrever sobre os meus sentimentos na internet. Prefiro me comunicar pelos meus textos: seleciono com cuidado as palavras mais adequadas, paro um pouquinho para respirar e me distrair e ainda me esforço para expor com clareza e um pouco de lógica tantas ideias confusas.

Em quase todas as considerações da psicóloga não constava nenhuma novidade. Nada do que eu já não tivesse lido/ouvido de outras pessoas. Vou além e afirmo que esses não profissionais com frequência foram mais precisos e convincentes. Contudo, minhas reflexões no divã não foram uma completa perda de tempo. Reconheço não ser adequado preservar e me dedicar somente ao sexo na maioria das minhas decisões. Mais do que qualquer pessoa equilibrada, sempre soube que o prazer dura pouco. É insustentável. Percebo isso, mesmo depois de tornar o prazer o meu meio de vida, uma brecha para minha independência financeira. A prostituição deveria ser apenas uma atividade profissional. Deveria. Basta perguntar quem sou eu para eu disparar uma resposta rápida como uma bala: “eu sou uma puta”. E teria incontáveis argumentos para fundamentar esta percepção de mim mesma.

Aqui não cabe aquela avaliação simplista de gostar ou não gostar. É um critério até bem modesto. Eu adoro ser vadia! Também poderia dizer que gosto de estar bêbada e chapada. Não quero fazer uma compilação de vícios e comparar minha compulsão sexual à dependência química, embora haja certas semelhanças. Não preciso enfatizar o quanto gozei em minhas vivências eróticas e/ou alucinadas. O que me tira o sono é projetar as futuras consequências dos meus hábitos. Álcool e drogas nunca me levaram a lugar nenhum. Já o sexo – ah, o sexo! – trouxe coisas demais. Dinheiro, reconhecimento, autonomia, relacionamentos, utilidade, conhecimento e, como não poderia deixar de acontecer, cada vez mais sexo! Foram conquistas imediatas, e sei que muitas delas vão perder o sentido nesta mesma velocidade, quando eu deixar de me dedicar tanto às relações sexuais.

No consultório, eu me sentava numa poltrona reclinável bem larga, mas nunca me sentia confortável. O começo da terapia foi mais ou menos do jeito que eu imaginava que seria. Ela me perguntou por que eu estava lá e o que tinha a dizer. Por onde começar? Eu mesma me questionava por que procuraria uma psicóloga. O ambiente estava estranho. Silencioso demais. Engasguei umas cinco vezes antes de conseguir formular uma frase completa. Falar sobre o que? Família? Sexualidade? Prostituição? Relacionamentos? Para qualquer uma destas questões, eu já havia identificado os principais conflitos, descoberto maneiras de minimizá-los e, inclusive, me convencido de que muitos sentimentos eram “normais”. Então comecei pela minha maior insegurança atualmente: minhas expectativas para o futuro.

Tenho muita dificuldade de manter uma conversa tête-à-tête caso o assunto envolva minhas intimidades. Eu me sentia uma coisinha minúscula, fragilizada, amuada, covarde. Mantive meu olhar baixo, procurando o jeito mais apropriado para expressar aquela angústia. E o pior: eu deveria parecer uma garota muito estúpida, esfregando as palmas das mãos, entrelaçando os dedos uns aos outros inquieta e conversando o tempo todo com os pés da psicóloga. Ainda me lembro com detalhes todos os sapatos que ela usou. Simplesmente não consigo olhar nos olhos de outra pessoa se não for para seduzi-la, provocá-la ou para me envergonhar. Quando eu levantava rapidinho o olhar, ela acenava com a cabeça ou sorria e isso me deixava ainda mais constrangida, porque revelava que ela estava atenta a minha postura idiota.

A psicóloga usou bastante o termo “desejo”. Comentou que era uma palavra muito forte na psicologia. Perguntou o que eu desejava na minha vida. Sei lá! (Pensar a longo prazo… sempre fui uma negação para isso). “Talvez fazer faculdade”, falei só por falar. A conversa seguiu por este rumo, e eu me convenci de que este não era exatamente o meu desejo. Mudou-se de leve a abordagem. “Como você gostaria de se ver daqui a dez anos?”, indagou. O silêncio voltou a pairar sobre nós e perdurava, intensificando a minha ansiedade a cada segundo. Naquela ocasião fiquei sem dar uma resposta.

Em casa, refletiria com mais tranquilidade, ouvindo uma música, fumando um cigarro e lendo meu diário ou o blog. Escrevi mais de uma vez sobre o meu desejo de viver uma relação sadomasoquista permanente (conhecida como 24/7). No passado, acreditei que a convivência sexual com minhas dominadoras duraria para sempre, porém foram passageiras, inversamente proporcionais às minhas expectativas. Posso até mudar meu contexto sexual, mas por quanto tempo me satisfaria? Outro desejo: encontrar o amor da minha vida! Deitei-me com milhares de pessoas e até hoje só encontrei um grande amor. Meu barquinho está encalhado há tanto tempo que não é seguro voltá-lo ao mar. Ainda penso no jeito de tapar os buraquinhos em seu casco.

Como gostaria de me ver daqui a dez anos? No final das contas, a resposta não era tão custosa quanto previ. Gostaria de estar com alguém que eu pudesse amar, sem sentir aquele trauma besta de ser abandonada. Alguém capaz de me despertar para outras vivências afora as sexuais. Alguém em quem pudesse direcionar minha ternura e dedicação, meu aconchego e carinho. Alguém que precisasse de mim tanto quanto preciso dela. Assim, descobri que o meu maior desejo para o futuro é ser mamãe!

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